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Covid-19. Estudo pretende infetar intencionalmente voluntários
Sociedade 6 min. 21.10.2020

Covid-19. Estudo pretende infetar intencionalmente voluntários

Covid-19. Estudo pretende infetar intencionalmente voluntários

AFP
Sociedade 6 min. 21.10.2020

Covid-19. Estudo pretende infetar intencionalmente voluntários

Ana B. Carvalho
Ana B. Carvalho
A controversa estratégia de exposição deliberada ao vírus, conhecida como um desafio humano, poderá acelerar o processo de identificação de vacinas eficazes contra o coronavírus.

Uma equipa de cientistas da Imperial College London planeiam infetar deliberadamente voluntários com o novo coronavírus no início do próximo ano, naquele que será o primeiro estudo do mundo sobre a forma como as pessoas vacinadas respondem ao facto de serem intencionalmente expostas ao vírus. Este será um método que abre portas a um novo e incerto caminho na identificação de uma vacina eficaz. 

O estudo será conduzido por cientistas do Imperial College London e da Vivo, uma empresa especializada em ensaios em humanos. O projeto ainda requer a aprovação da agência britânica de regulamentação de medicamentos, mas o governo já disse que vai contribuir com aproximadamente 37 milhões de euros em financiamento público. 


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A primeira ronda de voluntários, até 90 adultos saudáveis com idades compreendidas entre os 18 e os 30 anos, vão contrair o vírus pelo nariz, para onde vai "escorrer",  sem terem sido vacinados.

 Os voluntários vão receber aproximadamente o salário mínimo britânico, que é de cerca de €9,94 por hora, não só durante a participação no ensaio, mas também durante as duas a três semanas de quarentena obrigatória. Os investigadores mostraram-se receosos em oferecer incentivos adicionais que poderiam turvar o julgamento dos voluntários. 

O método proposto, conhecido como um ensaio de desafio humano, tem vindo a ser utilizado há décadas para testar vacinas contra a febre tifóide, cólera e outras doenças. No caso da malária, por exemplo, é pedido aos participantes para exporem os braços a caixas cheias de mosquitos para serem mordidos e infetados. 

A equipa argumenta que o projeto pode ajudar a chegar mais depressa à vacina  eficaz contra a covid-19. Os cientistas pretendem infetem propositadamente os voluntários numa unidade hospitalar isolada. No entanto, o estudo levanta questões éticas. Enquanto noutros estudos já existem antídotos comprovados e eficazes, o mesmo não se passa com a covid-19. 

Os cientistas pretendem utilizar o remédio antiviral remdesivir para tratar os voluntários assim que começassem a detetar a infecção viral, mesmo antes do início dos sintomas. Mas até à data este medicamento parece ter apenas um benefício moderado. Alguns analistas disseram mesmo que o tratamento, embora necessário, limitaria a capacidade dos investigadores determinarem se as vacinas candidatas reduziriam a gravidade da doença. 

O Estudo

Começando com "doses minúsculas", os cientistas irão primeiro administrar o vírus a pequenos grupos de voluntários que não foram vacinados de todo, a fim de determinar a dose mais baixa do vírus que os infetará de forma fiável.  Programado para começar em janeiro de 2021 num hospital no norte de Londres, será seguido de testes nos quais os voluntários recebem uma vacina e depois são intencionalmente expostos a esta dose cuidadosamente calibrada do vírus.

Se não houver um número suficiente de participantes infetados, os cientistas tentarão expor estes voluntários em fase inicial a uma dose mais elevada, repetindo o processo até que tenham identificado o nível de exposição necessário do vírus. 

Só quando os cientistas chegarem a um consenso sobre a dose correta, que tencionam conseguir até ao final da primavera, é que começarão o processo de comparação dos candidatos à vacina, imunizando o próximo grupo de voluntários e depois expondo-os ao vírus novamente. 

Alguns candidatos a vacinas agora submetidos a ensaios podem já ter recebido aprovação até essa altura, mas os investigadores esperam que um ensaio de desafio acrescente provas diretas de eficácia e os ajude a comparar o desempenho de diferentes vacinas.

"A infeção deliberada de voluntários com um patogénio humano nunca é aceite de ânimo leve", disse o Professor Peter Openshaw, imunologista e co-investigador do estudo. "Contudo, tais estudos são grandemente informativos sobre uma doença, mesmo uma tão bem estudada como a covid-19". 

Questões sem resposta

Muitas questões importantes sobre o estudo permanecem sem resposta. A 'task force' de vacinas do governo britânico, que irá selecionar as primeiras vacinas candidatas a serem incluídas no ensaio do desafio humano, ainda não anunciou os planos. 

A ideia de ensaios de desafio em humanos já foi recebida com alguma apreensão por vários fabricantes de vacinas, incluindo a Johnson & Johnson e Moderna, deixando os analistas incertos quanto às vacinas das empresas que acabarão por ser incluídas. E ainda não é claro como é que os reguladores na Europa ou nos Estados Unidos irão avaliar os resultados dos ensaios desta experiência ou se tais estudos irão acelerar o processo de aprovação da vacina contra a covid-19. 

Apesar de estarem conscientes dos dilemas morais do estudo, os cientistas e bioéticos dizem que o risco do coronavírus adoecer gravemente ou matar voluntários jovens e saudáveis - o tipo de pessoas que seriam infetadas - é suficientemente baixo para ser compensado pela possibilidade de salvar dezenas de milhares de vidas.

"Estou surpreendido por não terem sido utilizados anteriormente", disse o Professor Julian Savulescu, director do Oxford Uehiro Center for Practical Ethics. "Todos os dias em que se demora a desenvolver uma vacina e um tratamento eficaz morrem mais 5.000 pessoas. Seria útil para o rastreio de vacinas menos eficazes e para compreender a resposta imunitária". 

Os cépticos exortaram os cientistas a esperar, ou a renunciar totalmente à abordagem. A pandemia começou há apenas alguns meses e tem havido casos inesperados e inexplicáveis de doença grave em doentes jovens, e as consequências a longo prazo de uma infecção são desconhecidas.

Segundo o The New York Times é também difícil extrapolar amplamente a partir de um ensaio de desafio humano. Não é claro, por exemplo, se os estudos em adultos jovens saudáveis poderiam prever com fiabilidade a eficácia de uma vacina em adultos mais velhos ou em pessoas com condições pré-existentes. 

 Os cientistas também alertaram para os desafios de imitar a transmissão no mundo real num laboratório. Isto poderia tornar difícil para os investigadores saber se uma vacina que possa proteger os voluntários de uma exposição deliberada num hospital faria o mesmo para pessoas que se deparam com o vírus no trabalho ou em casa. 

O debate dividiu um painel consultivo da Organização Mundial de Saúde, que publicou em junho orientações sobre a forma mais segura de realizar ensaios de desafio. Nos Estados Unidos, as autoridades de saúde mostraram-se contra tais ensaios e consideram que os ensaios clínicos aleatórios eram suficientes. Mas a Inglaterra teve uma opinião diferente. A busca de uma solução para o vírus é amplamente suportada pelo primeiro-ministro Boris Johnson, altamente criticado pela forma como geriu a pandemia, deixando o país com o maior número de mortes associadas à doença em toda a Europa. 

Os investigadores da Universidade Oxford - inglesa - desenvolveram uma vacina considerada das principais candidatas, bem como um dos tratamentos mais promissores, o esteroide chamado dexametasona. Desta forma, alguns cientistas questionam se a competição feroz para ser o primeiro a desenvolver uma vacina eficaz tem influenciado indevidamente os planos para um ensaio de desafio humano. "Há inquestionavelmente um nacionalismo vacinal envolvido", disse o Prof. Moore. "É uma corrida pelo dinheiro e pela glória. Essa é a realidade", concluiu. 

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