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Covid-19. Enfermeiros portugueses na primeira linha na luta ao coronavírus no Reino Unido
Sociedade 11 min. 23.05.2020

Covid-19. Enfermeiros portugueses na primeira linha na luta ao coronavírus no Reino Unido

Covid-19. Enfermeiros portugueses na primeira linha na luta ao coronavírus no Reino Unido

Foto: AFP
Sociedade 11 min. 23.05.2020

Covid-19. Enfermeiros portugueses na primeira linha na luta ao coronavírus no Reino Unido

Só em 2019, mais de 4 mil enfermeiros terão partido de Portugal, motivados pela falta de condições de vida. O Governo de Boris Johnson reconhece a importância dos enfermeiros estrangeiros e recuou na sobretaxa da saúde para esses profissionais. Conheça as suas histórias.

Esta quinta-feira, Boris Johnson anunciou que afinal, depois de protestos dos sindicatos e muita pressão de dentro e fora do partido conservador, vai isentar os profissionais de saúde da sobretaxa para o sistema nacional de saúde. O líder do Partido Trabalhista, Keir Starmer, já veio dizer o Governo fez a coisa certa e que foi uma “vitória para a decência”.

A sobretaxa, que aumenta este ano de £400 para £624, é já aplicada a todos os imigrantes de fora da União Europeia (UE) e passará a ser também aplicada a cidadãos da UE a partir de Janeiro do ano que vem.


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A decisão surgiu um dia depois de Boris ter declarado esta taxa como “o caminho certo a seguir” para uma instituição que depende de financiamento. Segundo a nota oficial de Downing Street, Boris mudou de ideias depois de ter reflectido na sua experiência com profissionais de saúde estrangeiros durante o seu internamento por Covid-19, entre eles o português Luís Pitarma.

  “Quando se começou a falar do Brexit, surgiram alguns receios relativamente ao nosso futuro, mas à medida que as coisas foram acontecendo perceberam que somos demasiado necessários aqui.” , relembra Sara. 

Para Sara André, que divide o seu tempo entre Lisboa, onde está a terminar um mestrado em Gestão e Administração de Serviços de Saúde na Universidade Católica, e o Reino Unido, onde trabalha como enfermeira desde 2014, o reconhecimento público é consequência directa da falta de profissionais no NHS: “quando se começou a falar do Brexit, surgiram alguns receios relativamente ao nosso futuro, mas à medida que as coisas foram acontecendo perceberam que somos demasiado necessários aqui.”

Já no final de 2019, estimava-se que no sistema nacional de saúde britânico (NHS) faltariam cerca de 44 mil enfermeiros. A situação agravou-se devido à situação caótica no país causada pelo novo coronavírus e levou o governo de Boris Johnson a lançar a campanha “Your NHS needs you”, que procura atrair 250 mil voluntários para ajudar na luta a covid-19. Entre eles, estudantes do último ano de medicina e enfermagem e mais de 65 mil médicos e enfermeiros aposentados nos últimos três anos.

Nuno Pinto, enfermeiro e gestor na Vitae Professionals, uma agência que recruta profissionais de saúde, portugueses e não só, para trabalharem no estrangeiro, confirma: “com esta situação, a necessidade dos enfermeiros e outros profissionais da comunidade europeia tornou-se ainda mais evidente”. Nuno mudou-se para Inglaterra em 2005, quando havia ainda poucos enfermeiros portugueses em terras de sua majestade. “Passado um ano, comecei a trabalhar em recrutamento e ajudei a abrir o caminho para outros portugueses que quisessem ir para o Reino Unido”.

Actualmente, são 18 mil os enfermeiros portugueses a trabalhar no estrangeiro. O Reino Unido continua a surgir em primeiro lugar entre os países de destino, seguido de Espanha e da Suíça. Em Janeiro deste ano, a Ordem dos Enfermeiros comunicou ter recebido 4.506 pedidos de declaração efeitos de emigração em 2019 (mais dos que os 2.736 em 2018 e 1.286 do ano anterior) e estima que cerca de metade parte para o país governado por Boris Johnson.


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Para a Ordem, os números espelham a forma como os profissionais são tratados. "No estrangeiro, os enfermeiros têm a formação e a especialidade pagas, têm, efectivamente, uma carreira com diferenciação salarial, mas, acima de tudo, são reconhecidos e acarinhados", indica o comunicado.

Por isso, Nuno não está preocupado com os efeitos do Brexit no volume de negócio: “As pessoas continuam a querer vir, mas como o processo é mais complicado, talvez tenhamos menos curiosos e tenham ficado os que estão mesmo empenhados.”

“Só há uma grandes repercussão: os hospitais vão ter de pagar uma licença por cada profissional que seja recrutado”, acrescenta.

“Não noto menos interesse porque, infelizmente, a situação em Portugal continue igual: os enfermeiros continuam a receber muito pouco, a não ser valorizados”. A forma como o sistema de saúde britânico está organizado oferece aos enfermeiros uma oportunidade de progressão na carreira e abertura de horizontes inigualável em Portugal e outros países da Europa, considera o enfermeiro, agora a gerir a empresa a partir de Esposende.

“Dos colegas que foram comigo em 2005, uma é directora de um hospital, outro é chefe de um serviço de urgência, ou seja, estão em posições que seriam impensáveis no nosso país. Acho que em Portugal temos um bocadinho aquela ideia do senhor Dr. no céu e Deus na Terra e essa perspectiva não existe tanto no Reino Unido”, aponta.

“Olham mais para o perfil e capacidade do que a profissão - essa é a razão principal pela qual as pessoas decidem vir para o Reino Unido, não propriamente o salário nem as condições de trabalho, mas a possibilidade de progredir na carreira e de se tornarem melhores profissionais”. E nem a pandemia parece ser obstáculo para os profissionais de saúde que querem emigrar: “os processos continuam a mover-se e tenho vários enfermeiros só a espera dos resultados do teste da Covid-19 e que estão ansiosos por partir”, continua.

Sara, enfermeira portuguesa no Reino Unido.
Sara, enfermeira portuguesa no Reino Unido.

  “É irónico, porque a formação de base aqui é muito inferior à formação universitária em Portugal. O país é bom a formar-nos mas depois é péssimo a reconhecer-nos as competências que nos ensinou”, nota Sara.  

Sara concorda: “A relação entre medicos e enfermeiros é menos hierárquica que em Portugal. Infelizmente, no nosso país as oportunidades em Portugal para enfermagem são inexistentes, independentemente da formação que se faça. Em Inglaterra podemos aspirar: fazendo formação e trabalhando é possível progredir na carreira”.

“É irónico, porque a formação de base aqui é muito inferior à formação universitária em Portugal. O país é bom a formar-nos mas depois é péssimo a reconhecer-nos as competências que nos ensinou”, conclui.

Denise, enfermeira portuguesa no Reino Unido.
Denise, enfermeira portuguesa no Reino Unido.

  “O meu ordenado [em Portugal] ao final de 10 anos era igual ou menos do que quando comecei. Pensei, porque não? Se me podem dar estudos, desenvolvimento pessoal, progressão na carreira”, queixa-se Denise.  

Também Denise Sousa emigrou em 2011 para o Reino Unido, depois de uma década de trabalho no SNS, por estar descontente com a sua situação profissional em Portugal. “O meu ordenado ao final de 10 anos era igual ou menos do que quando comecei. Pensei, porque não? Se me podem dar estudos, desenvolvimento pessoal, progressão na carreira”, relembra.

“Comecei em hospitais privados e em unidades de cuidados intensivos e agora estou a trabalhar num centro de doação de sangue em Londres”. Com a pandemia, o dia a dia de Denise mudou: o centro onde trabalha ajuda agora a processar plasma convalescente de doentes recuperados da covid-19.


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“Os hospitais já não precisam de tanto sangue porque tudo o que era cirurgias programadas foi cancelado. Reduzimos esse lado e implementámos a colheita do plasma”, diz Denise. A carga de trabalho continua a aumentar, e a instituição planeia já abrir mais horas e mais centros noutros locais do país.

Sobre a experiência, a enfermeira sublinha uma enorme quantidade de novas directivas a que tiveram de se adaptar “demasiado depressa” e uma grande carga emocional, “por estar responsável por elementos de equipa que estão preocupados não so com os doentes, mas com a sua própria segurança e famílias”.

Também as saudades dificultaram o processo: “tem sido difícil a nível pessoal não estar com amigos e manter os mesmos afectos regulares, mas trabalhar está de certa forma a manter-me sã”.

Na linha da frente

O Governo conservador do Reino Unido, que é já o país mais afectado da Europa pelo novo coronavírus, tem visto a sua resposta a pandemia amplamente criticada, tendo sido questionado sobre as consequências do distanciamento social tardio e da falta de preparação do pais em termos de testes e rastreamento de contactos.

  "Ninguém se prepara para uma pandemia que fecha o mundo", lembra Sara.  

O serviço de urgência do hospital em que Sara trabalha teve que ser dividido em área para doentes covid-19 e doentes não covid-19 e só a mudança na disposição espaço “acabou por ser um agente de stress”. Lidar diariamente com os doentes, naturalmente receosos, e o sentimento de impotência perante os limites da medicina agravou a situação. “Fazer o nosso melhor não estava ser suficiente”, recorda.


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“Inicialmente ninguém estava preparado. Quando tiramos o curso fala-se em epidemias, situações de catástrofe, incidentes major, mas ninguém se prepara para uma pandemia que fecha o mundo. Era como se isso tivesse ficado no passado, quando a medicina ainda não era o que é hoje”, conta Sara.

“No primeiro mês notava-se um ambiente muito pesado: as pessoas quase não falavam e quando falavam era, como se diz em português, de desgraças. Entretanto, houve um ponto em que os utentes deixaram de vir tanto ao serviço de urgência, portanto o fluxo de trabalho diminuiu. A carga emocional continuou a aumentar”, acrescenta

“Somos profissionais de saúde mas também somos seres humanos e à medida que íamos falando com colegas e ouvindo casos de médicos e enfermeiros infectados, muitas perdas, o clima de medo crescia.” Apesar do stress, sente-se apoiada: “temos encontros semanais online para falarmos de novas directivas num ambiente descontraído - cada um em sua casa, no sofá ou onde for - ou também ou situações emocionais, que tenham mexido mais connosco, e desabafar.”

Para Nuno Pinto, os enfermeiros são peritos a gerir o stress. “A situação não é tão grave como a pintam”, desdramatiza. “E aqui estão muito bem preparados para isso. Existem departamentos próprios de saúde ocupacional, linhas anónimas do próprio hospital de apoio, bem como as do NHS e outras instituições como o Royal College of Nursing que dão apoio psicológico ao enfermeiros”.

O Royal College of Nursing (RCN) tem mais de 420.000 membros e é a maior associação profissional de enfermeiros e estudantes de Enfermagem no mundo. Para além de fornecer apoio a nível de emprego, saúde, segurança e desenvolvimento pessoal, o RCN também oferece um serviço de consultoria de imigração para cidadãos não-britânicos. O guia publicado pela instituição foi partilhado pela Ordem dos Enfermeiros, que assegurou na altura não visar “promover a emigração” mas apenas partilhar informação clara e precisa sobre as condições necessárias para trabalhar no Reino Unido.

André, enfermeiro português no Reino Unido.
André, enfermeiro português no Reino Unido.

  “Uma das coisas que o RCN está a lutar seriamente é precisamente a falta de 40 mil profissionais de enfermagem no NHS", alerta André. 

André Santos, 32 anos, é enfermeiro em West Suffolk, e steward do RCN, ou seja, apoia, aconselha e representa membros do RCN nos seus locais de trabalho em questões de direito laboral - “O RCN tem uma responsabilidade civil, de ajudar os enfermeiros, dar treino, apoio jurídico”, conta.

“Uma das coisas que o RCN está a lutar seriamente é precisamente a falta de 40 mil profissionais de enfermagem no NHS. Em 2019, fizemos uma campanha chamada “Safe staffing saves lifes” e eu tive a sorte de poder ir ao parlamento em 2019, falar com o MP da minha zona, Bury St Edmunds , a Jo Churchill”. Para André, a necessidade de enfermeiros no NHS é evidente e provada por casos como o Nightingale hospital, hospital de campanha montado num centro decongressos em Londres, que fechou por falta de staff.

  "Quando eu acabei o curso, não havia trabalho nenhum [em Portugal] - e o que havia eram condições precárias. 7€/hora pagos a recibo verde”."  

Formado pela Escola Superior de Enfermagem de Lisboa, acabou o curso em 2010 e, em plena crise, teve dificuldade em arranjar trabalho: “Em Portugal, durante os anos 90, havia poucos enfermeiros então decidiram abrir escolas privadas. Passamos a formar a volta de 5.000 enfermeiros por ano - o SNS não tinha vaga para todos. Quando eu acabei o curso, não havia trabalho nenhum - e o que havia eram condições precárias. 7€/hora pagos a recibo verde”.


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Há cerca de 10 anos em Londres, André não pensa voltar a Portugal. “Claro que tenho uma certa mágoa por não ter conseguido vingar no meu pais, mas o que ganhei aqui em termos de desenvolvimento pessoal valeu a pena. Além disso, nunca teria as mesmas condições se voltasse.”

   “Claro que tenho uma certa mágoa por não ter conseguido vingar no meu pais", diz André com tristeza. 

A concorrer para uma posição de chefia de serviço, André entende que dificilmente conseguiria alcançar este patamar aos 32 anos se estivesse ficado em Lisboa, de onde é natural, mas que “o sucesso dos enfermeiros portugueses no estrangeiro (como o enfermeiro Luís Pitarma, também formado na Escola Superior de Enfermagem) demonstra a qualidade de ensino do nosso país”

Apesar de tudo, dizer estar “muito orgulhoso da resposta do Governo português e do SNS a pandemia”, acrescenta André, “nos sabemos que o nosso serviço nacional de saúde e precário e que tem poucos recursos, o que prova que a mais valia do SNS são mesmo os profissionais”.  

Regina Nogueira

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