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Covid-19. Do que o mundo precisa agora
Sociedade 7 min. 01.07.2020

Covid-19. Do que o mundo precisa agora

Covid-19. Do que o mundo precisa agora

Foto: AFP
Sociedade 7 min. 01.07.2020

Covid-19. Do que o mundo precisa agora

Telma MIGUEL
Telma MIGUEL
Uma vacina em tempo recorde e 27,8 mil milhões de euros para um programa em várias frentes contra o coronavírus.

“A ambição tem que ser enorme, nunca vimos um desafio desta dimensão”, sustenta Andrew Witty, que foi o diretor geral da farmacêutica GlaxoSmithKline durante dez anos, e agora é enviado especial para o ACT-Accelerator, uma iniciativa liderada pela Organização Mundial de Saúde (OMS), e com a parceria de governos e da Comissão Europeia, entidades privadas e públicas na área da saúde e do desenvolvimento como o Welcome Trust, ou o Banco Mundial, e destacados filantropos como Bill e Melinda Gates.

O ACT foi lançado no final de abril e é descrito como a maior coligação de sempre na área da saúde, e um empreendimento a nível planetário com uma escala e uma ambição que equivale à de levar o homem à lua, mas com mais urgência. O objetivo destas entidades que juntaram forças é nada mais simples do que livrar rapidamente a humanidade da covid-19, “não deixando ninguém para trás”. E isso através daquilo a que se chama de quatro pilares: a criação de vacinas, o de desenvolvimento e distribuição de diagnósticos, o terapêutico e o de fortalecer os sistemas de saúde nos países em vias de desenvolvimento.

Na passada sexta-feira, dia 26, foi apresentado o orçamento do ACT, ao mesmo tempo que foi lançado um pedido a toda a comunidade internacional para que enchesse os cofres desta aliança. Para os próximos 12 meses vão ser precisos 27,8 mil milhões de euros, dos quais três mil milhões já tinham sido reunidos, faltando então 24,8 mil milhões de euros. Desses, 12 mil milhões de euros, segundo os responsáveis do ACT, são urgentes.

Miley Cyrus pede ajuda

No passado sábado, dia 27, quando, durante o concerto Global Goal, Miley Cyrus cantou Help dos Beatles num estádio vazio nos Estados Unidos estava a pedir ajuda para que se reunisse o dinheiro para o ACT. O concerto que durou duas horas – e que contou também com a participação dos Coldplay e de Shakira – foi o culminar de uma petição internacional co-patrocinada pela Comissão Europeia em que foram angariados 6,5 mil milhões de euros, doados por governos, empresas e fundações. O Luxemburgo contribuiu com 800 mil euros para o pilar de terapias.

Sob a iniciativa Resposta Global ao Coronavírus (que tinha sido lançada a 4 de maio) foi reunido um total de quase 16 mil milhões de euros para o ACT, em menos de 2 meses. É dinheiro que cobre as despesas urgentes. Mas será necessário muito mais no médio prazo para erradicar a doença que já matou meio milhão de humanos.

Salvar o mundo, mas todo ao mesmo tempo

O ACT, que na sigla inglesa significa “Acesso às Ferramentas Covid-19”, pretende acelerar o desenvolvimento de vacinas, testes e terapêuticas que beneficiarão todo o mundo mas, ao mesmo tempo, garantir que estejam acessíveis aos países em vias de desenvolvimento e às comunidades mais pobres, sem compassos de espera. “O ser equitativo é um fator determinante”, disse a responsável científica da OMS, Soumya Swaminathan, numa conferência na passada sexta-feira. A ideia base do projeto é que “ninguém estará a salvo enquanto toda a gente não o estiver” e, por isso, os países em vias de desenvolvimento terão acesso ao mesmo tempo e de forma equitativa às melhores ferramentas com que se está a lutar contra a covid-19.

No relatório que foi apresentado, calcula-se até meados de 2021 a distribuição para os países em vias de desenvolvimento de 245 milhões de doses de tratamentos. E ainda a compra de dois mil milhões de vacinas, dos quais mil milhões serão distribuídos para os países mais pobres, tudo financiado pelo ACT. Só para comprar estes dois mil milhões de doses de vacinas vão ser precisos 16 mil milhões de euros.

Mas não é só as vacinas (se as houver) que terão que ser fornecidas aos países em vias de desenvolvimento. Como disse um responsável pelo pilar diagnósticos, “para muitos países de baixos rendimentos, o confinamento não é viável e os equipamentos de saúde são muito precários. Aqui a única possibilidade é detetar, testar e isolar e para isso é necessária uma quantidade enorme de diagnósticos”. A estimativa é de 500 milhões de testes no próximo ano e mais 10 mil trabalhadores de saúde treinados a trabalhar nestes países.

A corrida à vacina

Se haverá vacina ou não, é uma questão de fazer a pergunta a pessoas diferentes. A responsável científica da OMS, Soumya Swaminathan, está “bastante otimista que se vai descobrir uma vacina em tempo recorde”. Acredita que em oito meses poderá haver uma vacina para distribuir em primeiro lugar aos grupos de maior risco (normalmente considerados os profissionais de saúde da primeira linha, os idosos, e as pessoas com outras vulnerabilidades). Mas, ainda assim, afirma que só com um esforço hercúleo de toda a comunidade científica e das farmacêuticas, de entidades públicas e privadas e com um grande investimento será possível reduzir todas as etapas para chegar à distribuição em massa das primeiras doses no primeiro trimestre de 2021. “Se não chegar aos que precisam e quando precisam, não terá grande utilidade”, considerou.

Até ao momento, a vacina a ser descoberta mais rapidamente foi criada para o zica, levou apenas dois anos, mas ainda não chegou a ser usada. A segunda mais rápida foi a do ébola, que levou cinco anos a desenvolver, mas cuja aplicação em massa fez com que o surto de ébola na República Democrática do Congo que começou em agosto de 2018 tivesse sido agora dado como extinto, no passado dia 25 de junho.

Mas o desafio agora da covid-19 tem outra magnitude. E, por isso, segundo a responsável científica da OMS, de momento há cerca de 200 projetos de vacina no mundo inteiro e, desses, 15 estão na fase de testes clínicos.

De todos, a vacina do laboratório inglês AstraZeneca, também conhecida como a vacina da Universidade de Oxford é a que está na linha da frente, tendo já começado testes em humanos, no Brasil. “Acredito que eles sejam o principal candidato, tendo em conta a fase em que estão”, disse. “É possível que tenham resultados bastante rapidamente”.

No segundo lugar está a vacina do laboratório norte-americano Moderna. “Sabemos que a vacina deles também vai passar para a fase três de testes clínicos, provavelmente a meio de julho, e, portanto, não está muito atrás”. Também este mês a vacina da chinesa CanSino Biologics foi aprovada para ser usada nos soldados do país.

Abertura de espírito

Mas a eficácia de uma vacina contra o SARS-CoV-2 não é um dado adquirido. “É um vírus bastante novo e a abordagem da vacina ainda está para ser provada”, considera Andrew Witty. “E mesmo se levasse 18 meses, seria uma coisa sem precedentes, o desenvolvimento mais rápido de sempre de uma vacina. Mas até termos sucesso temos que ser muito humildes e manter a aposta nas várias respostas”. Ou seja, incrementar diagnósticos, desenvolver tratamentos mais eficazes e continuar a apostar na deteção precoce, e no desenvolvimento de sistemas de saúde mais robustos nos países onde eles não existem.

Para Andrew Witty, todo o projeto do ACT de acelerar o desenvolvimento de vacinas e tratamentos e de os distribuir equitativamente ao mundo que não pode pagar requer “um esforço científico e político incrível” e uma “tremenda abertura de espírito”.

Há um novo paradigma de solidariedade, considera Soumya Swaminathan: “companhias que são rivais estão a partilhar os seus conhecimentos. E há também um bom acordo entre políticos para que uma nova vacina seja um bem público. E isto vai ser uma lição sobre os próximos vírus”.

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