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Covid-19. Dentro da bolha: a vida nas cidades encerradas
Sociedade 6 min. 16.03.2020

Covid-19. Dentro da bolha: a vida nas cidades encerradas

Milão Vazia

Covid-19. Dentro da bolha: a vida nas cidades encerradas

Milão Vazia
Foto: Federico Thoman
Sociedade 6 min. 16.03.2020

Covid-19. Dentro da bolha: a vida nas cidades encerradas

Ricardo J. RODRIGUES
Ricardo J. RODRIGUES
Em Macau, Madrid e Milão, metrópoles onde foi já foi decretada total quarentena, as mudanças no quotidiano são profundas. Três jornalistas contam os problemas e as soluções que os habitantes das suas cidades encontraram para lidar com a pandemia.

“Foi preciso parar com tudo para as pessoas perceberem que este é um momento histórico, sem precedentes”, diz Juan Calleja Gonzaléz, jornalista da Prensa Ibérica, maior grupo de jornais regionais espanhóis, e colaborador do El País. Neste sábado, o governo decretou o estado de alarme em todo o território nacional e Madrid, a frenética Madrid, silenciou-se como nunca antes tinha acontecido. “A semana passada os bares e restaurantes estavam cheios. Agora é um silêncio total. Arrepia.”

Sair à rua é agora uma atividade restrita – e estão a polícia e o exército espalhados pelas cidades para garantir precisamente isso. Exceção feita a quem não tem outra forma de se movimentar que não seja acompanhado, apenas pessoas sozinhos podem agora sair de casa – e apenas para se deslocarem aos supermercados, às farmácias e aos empregos que não permitam teletrabalho. Há multas e penas de prisão para quem não cumprir estas ordens. Não foi afinal a política nem a economia, foi a saúde pública a suspender a democracia.

Consciência espanhola

O jornalista Juan Calleja GonZález em Madrid.
O jornalista Juan Calleja GonZález em Madrid.

“As pessoas só acordaram verdadeiramente para o problema após o primeiro-ministro falar”, diz González. “Não se interrompe a vida de um país de ânimo leve e acredito que foi só quando isso aconteceu que os espanhóis acordaram todos.” Metade dos bares decidiram fechar quando o governo suspendeu as aulas, há uma semana. Os outros estavam abertos e cheios. “Na quinta o Atlético de Madrid ganhou ao Liverpool e as pessoas abraçavam-se livremente. E depois ia toda a gente lavar as mãos.

Agora o cenário é diferente, Espanha parece em estado de sítio. As varandas tornaram-se nos pontos possíveis de encontro social, com a população a organizar encontros pelas redes sociais, tributos a médicos e enfermeiros, sessões de canto e Djing. Há amigos que jantam juntos, mas por videochamada. “Muita gente saiu da cidade e várias pessoas fazem planos de isolamento caso alguém no agregado familiar contraia o vírus”, diz o jornalista espanhol. Oferece o seu próprio exemplo: se ele ou a namorada ficarem infetados, o que estiver bem muda-se para a casa da irmã de Juan, que saiu da cidade para uma residência de praia na aurora da pandemia.

Há outra coisa que o jornalista espanhol refere: o exemplo dos chineses que vivem na capital espanhola. “Foram os primeiros a fechar as lojas e os restaurantes, voluntariamente. Foram os primeiros a usar máscaras e andaram a distribuí-las gratuitamente à porta do metro.” Um artigo do El País da semana passada falava disso mesmo. A palavra de ordem na comunidade asiática é que não vale a pena dinheiro sem saúde. Então há madrilenos que contactam as rádios e os jornais chineses da capital a pedir conselhos. O lugar onde a infeção começou também parece ser o que lhe respondeu mais eficientemente.

A ordem chinesa

Carlos Picassinos, editor da Rádio Macau.
Carlos Picassinos, editor da Rádio Macau.

"A população asiática foi rápida a acatar as ordens. Não se assistiu a pânico algum, foi tudo bastante tranquilo", diz Carlos Picassino, editor de informação na Rádio Macau. "Mas é importante não esquecer que a população de Macau estava habituada à exposição a doenças respiratórias. Houve a gripe das aves, houve outro coronavírus em 2003, o SARS, que não fez vítimas no território mas preparou de alguma forma as pessoas para uma situação de emergência."

A região administrativa especial chinesa, aliás, é vista pelo mundo como um exemplo. A 5 de fevereiro havia dez casos de infeção de Covid-19. A 6 de março estavam todos curados. Agora, a deteção de um novo caso (uma cidadã sul-coreana que viajou do Porto) está a voltar fazer subir os receios e todos os estrangeiros que entrem em Macau ficam agora de quarentena.

Macau tem 670 mil habitantes, em 2019 recebeu 40 milhões de visitantes. O governo foi implacável – poucos dias depois de Pequim fechar totalmente a província de Hubei, cuja capital é Wuhan, Macau decidiu fechar os seus casinos durante duas semanas. “Foi algo inédito. Entre casinos, restaurantes, hotéis e pequenos negócios adjacentes, o jogo representa 90% da economia macaense. E no entanto houve a coragem de travá-lo. Isto só aconteceu porque Macau é pequeno e tinha uma almofada financeira que lhe permitia tomar uma medida destas”, diz Carlos Picassinos.

Agora as coisas começam a voltar à normalidade. “Durante semanas não se via praticamente ninguém na rua, havia a sensação de que vivíamos numa pequena aldeia de edifícios altos.” A imprensa seguia os briefings diários do governo, mas houve problemas que ficaram em grande medida por cobrir. "Como os trabalhadores precários que estavam a ser mandados para casa, de férias ou simplesmente despedidos". 

Nesta parte da China nunca houve histeria, insiste o editor da rádio Macau. O desaparecimento do movimento nas ruas foi muito mais imediato do que na Europa. O açambarcamento nunca chegou verdadeiramente, só se notou uma corrida maior aos supermercados na semana do Ano Novo Chinês. A cidade hibernou tranquilamente.

Agora é como se despertasse de um longo sono. As repartições públicas abriram, mas ainda só se pode aceder a elas depois de se medir a temperatura corporal e usando máscara de proteção. Os casinos voltaram a funcionar, com menos gente e uma perspetiva de quebra histórica nos lucros. Voltam a abrir portas lojas, bares, restaurantes. As crianças ainda não voltaram à escola, fa-lo-ão gradualmente até 20 de abril. A quarentena de 5 de fevereiro passou, mas algo mudou e ninguém tem certezas se a vida voltará a ser o que era. "As marcas do isolamento estão longe de terem passado”, diz Picassinos.

A calma assustada dos italianos

Federico Thoman tem reportado das ruas de Milão.
Federico Thoman tem reportado das ruas de Milão.

Em Itália, diz Federico Thoman, o deserto já é uma evidência cimentada. O jornalista da Upday, uma aplicação de notícias da Samsung, tem feito reportagem em Milão mas ainda não se habituou às imagens das ruas vazias da cidade. “Continua a parecer que vivemos num filme, num cenário pós-apocalíptico que nunca pensámos tornar-se real. Mesmo quando a infeção despontou estávamos longe de imaginar que íamos viver assim. Fechados em casa, a ouvir os relatos do número de mortos que crescem exponencialmente, preocupados com quem perde familiares e nada pode fazer para os ajudar.”

O ponto de viragem na consciência italiana, acredita Federico, veio logo depois do encerramento das escolas, a 26 de fevereiro. “Foram proibidos beijos, abraços e apertos de mão. É uma coisa estranha para os italianos, somos habitualmente afetuosos mas acho que foi nesse momento que caímos em nós.” Histórias de contágio em cidadãos saudáveis começaram a circular pela imprensa, e mudaram a maneira de pensar nos perigos. “Subitamente este era um problema de todos.”

Tal como em Madrid e Macau, foi a mão forte do governo que fez os milaneses caírem em si. “Não se fecha uma cidade ou um país, nem se interrompe a economia, de ânimo leve. A passagem da descontração total ao pânico total foi muito rápida.”

Dá este exemplo: “No mercado abastecedor de Milão muitos trabalhadores decidiram por sua iniciativa colocar-se em isolamento, o que causou embaraços no abastecimento de alimentos.” Com a passagem dos dias foi descendo aquilo a que ele chama de uma “calma assustada”. Os italianos permanecem em casa, organizam homenagens aos serviços médicos, fazem crowdfundings para apoiar hospitais e só saem (“a medo”) para ir a supermercados, farmácias e perfumarias (estão abertas para vender álcool e desinfetante). “Mantêm-se as distâncias obsessivamente”, conta o jornalista italiano. “E depois toda a gente corre para casa.”

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