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Coronavírus é uma crise conduzida por cegos
Editorial Sociedade 2 min. 11.03.2020 Do nosso arquivo online

Coronavírus é uma crise conduzida por cegos

Coronavírus é uma crise conduzida por cegos

Editorial Sociedade 2 min. 11.03.2020 Do nosso arquivo online

Coronavírus é uma crise conduzida por cegos

Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Apenas uma sociedade que tenha como base princípios ecológicos e de justiça social poderá responder de uma forma eficiente a este tipo de crises e tragédias.

Creio que foi o comediante John Oliver que traçou uma linha de bom senso na crise do coronavírus que estaria entre otimismo imbecil, incluído no ato de lamber os varões do metro, e o pessimismo trágico daqueles que se propõem beber lixívia para matar o vírus. A distinção parece lógica, embora os últimos tempos tenham feito abanar muito daquilo que nos parece um comportamento normal.

Donald Trump acabou de nomear, para combater o coronavírus nos EUA, o seu vive-presidente, Mike Pence, conhecido por ser contra a vacinação e negar a teoria da evolução. É a mesma coisa que nomear como comandante da resistência do gueto de Varsóvia, Himmler das SS.

Para já, todos os números desta crise são desencontrados e as explicações pouco claras e nada tranquilizadoras. Não se sabe ainda o alcance da contaminação e os resultados dela. Por exemplo, no fim de semana passado, a edição dominical do Times garantia que o governo britânico previa um impacto devastador do ponto de vista humano desta pandemia. O governo britânico estaria a trabalhar, de acordo com o Sunday Times, num cenário que aponta para uma estimativa de 100 mil mortes devido ao novo coronavírus.

Um membro do gabinete do primeiro-ministro, Boris Johnson, confirmou ao The Times que os especialistas consideram este número “exato”. O presidente do Royal College of Physicians britânico, Martin Marshall, advertiu que, na sua opinião, essa projeção reflete um dos piores cenários possíveis. “É muito difícil de determinar. Sabemos que cerca de 17 mil pessoas morrem todos os anos de gripe e por isso entendemos que este tipo de vírus pode ser muito grave. 100 mil é provavelmente o pior cenário, espero”, afirmou numa entrevista ao canal Sky News.

Se os números são previsões que felizmente podem não se verificar, há já algumas conclusões que podemos tirar do aparecimento deste tipo de vírus e da gestão desta crise.

A exploração desenfreada do planeta tem permitido e multiplicado estes casos. Depois de 1949, centenas de micróbios patogénicos apareceram em regiões, em que na maior parte das vezes, nunca tinham sido detetados. É o caso do vírus da imunodeficiência humano (VIH), o Ébola na África Ocidental, ou ainda o Zika no continente americano. A maioria desses vírus, cerca de 60%, são de origem animal, muitos deles provenientes de espécies selvagens.

O problema é que a desflorestação, urbanização e industrialização selvagem ofereceram a esses micróbios os meios de chegarem ao corpo humano.

A segunda questão é que é preciso estruturas de saúde públicas capazes para combater estas situações. As privatizações dos vários serviços nacionais de saúde e a sua descapitalização progressiva colocaram o mundo numa situação mais fraca para combater estes fenómenos.

Apenas uma sociedade que tenha como base princípios ecológicos e de justiça social poderá responder de uma forma eficiente a este tipo de crises e tragédias.

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