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Coronavírus. “A cidade está num silêncio ensurdecedor”, dizem os portugueses em Wuhan.
Sociedade 10 min. 30.01.2020 Do nosso arquivo online

Coronavírus. “A cidade está num silêncio ensurdecedor”, dizem os portugueses em Wuhan.

Coronavírus. “A cidade está num silêncio ensurdecedor”, dizem os portugueses em Wuhan.

Foto: AFP
Sociedade 10 min. 30.01.2020 Do nosso arquivo online

Coronavírus. “A cidade está num silêncio ensurdecedor”, dizem os portugueses em Wuhan.

Ana B. Carvalho
Ana B. Carvalho
No dia 23 de janeiro, as autoridades chinesas começaram por proibir as entradas e saídas de Wuhan, cidade com mais de 11 milhões de habitantes e capital da província de Hubei. Wuhan foi considerada o epicentro da contaminação humana do coronavírus e, logo a seguir, mais duas cidades da mesma área foram isoladas.

Silêncio e Ano Lunar Chinês não costumam rimar. A celebração anual de reunião familiar a Oriente, onde famílias inteiras se deslocam para juntas darem início a um novo ciclo, dá origem à maior migração interna do planeta. Segundo o ministério chinês dos Transportes, estimava-se que mais de três mil milhões de viagens internas fossem feitas em todo o país durante esta data, para que famílias se reunissem para celebrar o início do novo ano. 

O movimento é intrínseco à data e quem não tem família no país costuma aproveitar a ocasião para viajar, graças aos sete dias de feriado nacional que este ano começaram no dia 24 de janeiro. As celebrações tradicionais do novo ano costumam durar dezasseis dias, começando na véspera do ano novo lunar até ao Yuán Xiāo jJé, ou Festival das Lanternas, este ano a celebrado a 5 de fevereiro. Este ano, porém, todas os planos sofreram alterações inesperadas. 

As tradições foram postas de lado perante a propagação do novo coronavírus que até esta quinta-feira havia, segundo dados oficiais, causado 132 vítimas mortais e infetado mais de 5900.  No dia 23 de janeiro, as autoridades chinesas começaram por proibir as entradas e saídas de Wuhan, cidade com mais de 11 milhões de habitantes e capital da província de Hubei. Wuhan foi considerada o epicentro da contaminação humana deste vírus e, logo a seguir, mais duas cidades da mesma área foram isoladas. 

Na internet, circulam vídeos de residentes de Wuhan que denunciam hospitais incapazes de dar resposta ao número de pessoas, os supermercados foram esvaziados para recolha de mantimentos e nas ruas é raro ver-se vivalma. “É um silêncio ensurdecedor, um silêncio absoluto, total mesmo”, descreve ao Contacto Miguel Matos, de 43 anos, natural de Caldas das Taipas e há um ano e meio a viver em Wuhan. “As autoridades decidiram encerrar a cidade, o aeroporto está encerrado, as estações de comboio também, as auto-estradas também. Neste momento estamos todos de quarentena como forma de prevenção da não propagação do coronavírus”. A voz está calma, segura e não dá espaço para medos "há que esperar, aguardar novas indicações, estamos em casa a esperar que tudo se resolva pelo melhor. Eu acredito que não está a haver excesso de zelo. Se as autoridades tomaram esta medida de fechar a cidade, é porque acharam que seria realmente o melhor, por isso há que respeitar e aguardar serenamente.

Miguel, que é o treinador de guarda-redes do Hubei Chufeng Heli, clube que compete na terceira divisão chinesa de futebol diz estar agradecido à China por lhe dar as condições que Portugal não lhe conseguia oferecer e daí estar a “adorar” viver em Wuahn. “A cidade é boa com boa qualidade de vida e estou a fazer aquilo que mais gosto que é trabalhar no futebol”, comenta.

Está há um ano e meio a trabalhar em Wuhan e estavam há quarenta dias fora da cidade devido a trabalhos de pré-época. Nesta altura, é costume irem estagiar para o sul da China, para um clima “mais agradável, mais ameno”. Segundo Miguel, “nesta altura em Wuhan o clima é frio, chuvoso chegando, por vezes, a nevar”. Miguel Matos, havia regressado para Wuhan na quarta-feira e preparava-se para viajar para as Filipinas no dia seguinte, onde ficaria cinco dias para as celebrações do Ano Lunar Chinês. “Aqui na China toda gente faz pausa nos trabalhos, são as férias, é o equivalente ao Natal português em que toda gente circula para poder estar com as suas famílias, só que infelizmente já não me foi possível viajar, já estava o aeroporto encerrado”.

O treinador que mora com outros três colegas portugueses no mesmo condomínio, descreve que assim que souberam do encerramento da cidade tentaram abastecer a casa, com alguns mantimentos. “Foi aí que nos deparamos com uma situação mais preocupante. Os supermercados estavam completamente abarrotar de gente, a tentar comprar o máximo de mantimentos, por acaso conseguimos comprar quase tudo que queríamos, só não conseguimos comprar legumes”. Enquanto na manhã de quinta-feira o cenário era de caos, Miguel conta que da parte da tarde sentiram completamente o oposto. Miguel diz que “as pessoas levaram a sério as indicações das autoridades e não se via praticamente ninguém na rua.  Wuhan é uma cidade grande com 11 milhões de habitantes, uma cidade bastante agitada, com muito trânsito e muitas pessoas na rua, mas na quinta-feira à tarde e na sexta de manhã tornou-se um “silêncio ensurdecedor, um silêncio absoluto, total mesmo”.

Miguel diz que nunca entrou no mercado em que se julga ter sido o início da propagação do vírus e  que fica a aproximadamente cinco quilómetros da sua área de residência. “Nunca entrei nesse mercado, já passei por lá”, segundo o treinador português “nesses mercados mais tradicionais é normal vermos vender esse tipo de animais, alguns até selvagens”.

O presidente da câmara de Wuhan, Zhou Xianwang, que admitiu ter escondido informações sobre a gravidade da situação, disse que as regras impostas por Pequim limitavam o que ele poderia divulgar sobre a ameaça representada pelo vírus, sugerindo que o governo central era parcialmente responsável por uma falta de transparência que prejudicou a eficiência da resposta à crise de saúde em rápida expansão.

Os comentários de Zhou Xianwang foram transmitidos na rede de televisão estatal da China horas depois da chegada do primeiro-ministro Li Keqiang à cidade para conhecer pacientes infectados e profissionais de saúde da linha de frente - uma tentativa de conter a crescente frustração pública em relação à forma como as autoridades locais lidaram com o surto de coronavírus.

O Governo português anunciou querer retirar por via aérea os portugueses retidos em Wuhan, num comunicado dirigido aos cerca de 20 portugueses que residem na cidade, a embaixada portuguesa esclareceu que iniciou "de imediato todos os passos" para retirar por via aérea, recorrendo a um avião civil fretado que efetuará o transporte entre Wuhan e Portugal.

Segundo o que avançou o jornal Público, espera-se que os portugueses a viver em Wuhan sejam retirados esta sexta-feira, no segundo voo do Mecanismo Europeu da Proteção Civil.  Segundo o mesmo jornal, cinco portugueses recusaram-se a sair da cidade capital da província de Hubei. A directora-geral da Saúde disse à Lusa que os portugueses a retirar de Wuhan serão avaliados à chegada a Portugal para determinar o risco de exposição ao novo coronavírus e só depois serão tomadas eventuais medidas de isolamento social.

Entre os vários portugueses que aguardam indicações da embaixada, está António Rosa, professor de design, diz que já previa toda esta situação e até já se tinha precavido com alguns mantimentos antes de terem encerrado a cidade. “Fechei-me um bocadinho antes dos outros, porque já estava sob aviso quando comecei a ver isto tudo, e fiquei à espera da minha namorada em casa à espera de só sair para o aeroporto e apanhar o voo, mas isto não aconteceu. Por isso aqui estamos todos à espera de outras noticias”. António, tem 37 anos de idade e vive em Wuhan há cinco. Antes de emigrar para o Oriente, tinha sempre quatro a seis semanas de férias durante o período de Inverno “dando-se a oportunidade de viajar pelo mundo”. Nessa altura, quando chegou à China achou “piada à ideia de começar uma carreira como professor” no novo país. Começou como professor de inglês, depois lecionou arte e agora o seu foco é o design. 

A sua experiência de viajante à volta do mundo, onde foi explorando diferentes áreas de profissão, começou há doze anos e, precisamente por ter visto tantos lugares e convivido com tantas culturas diferentes, às quais garante sempre ter sabido adaptar-se, é que sente que “não é qualquer pessoa que consegue viver na China”.  António, que fala pausadamente, diz que o país “é complicado”, a dificuldade passa pelas grandes diferenças culturais “as pessoas são muito diferentes, a cultura é diferente, é preciso ser uma pessoa especial para conseguir viver cá”. Apesar de tudo “o saldo de Wuhan é positivo”. 

Estava de viagem marcada para o Vietnam com a namorada e já pressentia que “isto poderia acontecer”, porém o coração falou mais alto e em vez de se encontrarem lá, decidiu esperar por ela. Nunca chegaram a apanhar o voo para o Vietname, tendo este sido cancelado e obrigando a que ficassem os dois retidos em zonas diferentes da cidade “ela ficou na zona de Hankou e eu na zona de Hanyang”, conta ao Contacto. Wuhan é uma cidade “composta por três metrópoles mais pequenas, separadas pelo rio Yangtze: Hanyang, Hankou e Wuchang”. Segundo António, os portugueses a morar na cidade estão divididos pelas três áreas, “estamos separados mas unidos  pela internet”. Conta que depois de serem contactados pela embaixada, os portugueses a morar em Wuhan criaram um grupo de Weixin, também conhecido por WeChat, uma app chinesa com mais de um milhar de milhão de utilizadores que aglomera uma porção de funcionalidades digitais entre as quais pedir comida, consultar um médico, reservar viagens, comprar produtos ou até mesmo chamar um táxi.

Com o voo cancelado no dia anterior, António ficou retido em casa.“Obviamente que não fiquei contente, tinha acabado o meu ano lectivo, queria ir de férias e fico fechado em casa”. Foi comprar o “máximo de coisas que conseguia, abastecer pelo menos para o período do Ano Novo Chinês e esperar que as coisas mudem um bocadinho a nível de abastecimento. Vamos ver como é que é, espero que comecem a abrir os serviços e os supermercados e mini-mercados que vendem vegetais, frutas e legumes”. Enquanto esperam notícias da embaixada, a atitude a manter é a mais positiva e calma possível. “Nestas coisas uma pessoa tem de fazer o máximo possível, ficar em casa, quando sair rentabilizar as saídas, fazer o máximo de coisas que uma pessoa tenha de fazer, evitar o contacto com pessoas contaminadas, usar a máscara, usar luvas, lavar as mãos e ter uma higiene frequente. Resguardar em casa o mais possível, manter a sanidade mental lendo livros, vendo filmes, fazendo aquelas coisas que as pessoas podem fazer em casa”.

António, que admite já estar cansado de falar sobre o assunto, diz que “isto vai ser só um episódio mau nas nossas vidas, um pesadelosito mas esperamos que isto não demore muito tempo e que se consiga encontrar uma vacina o mais depressa possível”.

A China elevou hoje para 132 mortos e mais de 5.900 infetados o balanço do novo coronavírus detetado em dezembro na cidade de Wuhan, capital da província de Hubei, no centro do país.

 A Organização Mundial de Saúde (OMS) decidiu voltar a convocar, na quinta-feira, o Comité de Emergência para determinar se o surto do novo coronavírus, com origem na China, deve ser uma emergência de saúde pública internacional.

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