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Conto de Natal
Opinião Sociedade 3 min. 12.12.2020

Conto de Natal

Conto de Natal

Foto:Pixabay
Opinião Sociedade 3 min. 12.12.2020

Conto de Natal

Filipa MARTINS
Filipa MARTINS
Genuflexão feita. À argumentação em causa, Jorge Solheiro, autarca, casado e pai, respondeu com um silêncio mordido e um cumprimento sem rapapé ou vénia, entalado entre a referência a obrigações matrimoniais e uma saída rápida.

Pelo caminho, foi verbalizando em voz sumida os argumentos que iria utilizar quando chegasse a casa, em véspera de Natal, depois das sete badaladas. O que mais ocupava a cabeça deste presidente de câmara, eleito por maioria sufragada e monárquico clandestino, era um relógio de pêndulo colocado sobre a renda de bilros que cobre o móvel de madeira escura da sala. 

Era nele que dois olhos pequeninos e muito maquilhados, retocados nos traços da idade pelo avançar da indústria de cosmética, estariam pousados, dado o adiantado da hora. Dona de uma voz afiada, Carlota Assis não tinha tomado posse do nome de família do marido, mas tomara-lhe conta da vida, dos vícios, dos serões amigáveis entre o fumo e as cervejas, das grelhadas em tronco nu no jardim, da crença clubista na equipa da terra, das gravatas de fantasia, dos garfos de carne que o autarca usava para comer pargo, das análises à glicose, dos projetos de alargamento e requalificação da Escola Básica 2+3 e de todos os outros que estavam sob a tutela do gabinete de presidência da autarquia, fossem eles do foro público ou particular. 

Juntando estes afazeres à retificação e supervisão das intervenções do marido na Assembleia Municipal, à execução do projeto camarário para quatro anos de mandato e à lida da casa, apesar da presença de uma governanta e de duas criadas de quarto, facilmente se discorre que pouca energia sobrava a Carlota para se assemelhar à outra de Bourbon na sua ninfomania.

A visão do marido de costas, frente ao espelho, de peúgas presas a elásticos moles e roupa interior sobre a penugem e a pele pálida, numa incapacidade, motivada talvez por uma alteração de cromossomas, de unir as casas e os botões da camisa, não alimentava a libido, que se mantinha coberta pelo roupão de lã de caprino. Há muito que tinham acordado o repouso em quartos separados, decisão tomada depois de Carlota Assis ter diagnosticado ao marido apneia do sono incurável e começar a padecer de sonolência diurna.

Os pingos grossos castigavam-lhe os ossos fracos e sabia-os fracos porque esse também tinha sido o juízo conhecedor da mulher, que já lhe ajuizara outras maleitas com igual certeza. Já à porta, o autarca pisava sem dar por isso a soleira de pedra torta pelo uso, preso na indecisão. No interior da casa aquecida, de limpeza exemplar, centros de mesa de azevinho repousariam rodeados por animais recentes na morte e doces vários. Sabia que teria direito a uma rabanada e os sonhos seriam comidos de forma clandestina.

(Os sonhados também eram sonhados de forma clandestina)

Bocejou. No outro lado da rua, parou um carro. Jorge Solheiro hesitou entre fazer rodar a chave e virar o tronco, até que sentiu alguém a aproximar-se. Uma mulher, cópia fiel da Laetitia Casta com um ligeiro sotaque carioca, estava perdida e precisava de indicações.

Ao terceiro dia de ausência, Carlota Assis mandou chamar a polícia e colocou a fotografia no jornal. Na legenda, lia-se: procura-se homem de meia idade com camisa mal abotoada e gravata de fantasia, poderá ser encontrado com o guardanapo preso na goela.

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