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Conspiração contra a América
Opinião Sociedade 4 min. 13.01.2022
Democracia

Conspiração contra a América

Vista do Capitólio, em Washington DC, nos EUA.
Democracia

Conspiração contra a América

Vista do Capitólio, em Washington DC, nos EUA.
Foto: AFP
Opinião Sociedade 4 min. 13.01.2022
Democracia

Conspiração contra a América

Raquel RIBEIRO
Raquel RIBEIRO
6 de Janeiro de 2021 parece ter sido muito mais do que mero um motim instigado por Donald Trump. Estará em curso o desmantelamento das estruturas democráticas nos EUA.

Tudo parece indicar que é na palavra que descreve a violência que tomou o Capitólio a 6 de Janeiro de 2021, durante a confirmação da vitória de Joe Biden nas eleições, que reside o processo de desmantelamento gradual das estruturas democráticas nos EUA. Foi um motim, uma insurreição, uma sedição, um golpe, uma sublevação?

Todas elas pareceram, à época, um grande exagero, habituados que estamos a filmes de Hollywood com violência gratuita. Os depoimentos de funcionários do Capitólio, dos seguranças aos congressistas, às lágrimas de Alexandria Ocasio Cortez, por chocantes que soassem, não eram diferentes de testemunhos mais ou menos regulares nesse país habituado ao culto das armas, a tiroteios, ou à retórica racista de Trump.

O académico canadiano, Thomas Homer Dixon, dizia em Dezembro estarmos a assistir a uma re-organização significativa de forças conservadoras e neo-fascistas nos EUA, que estão não só a trabalhar para a re-candidatura de Trump, mas sobretudo a garantir que ele vencerá as eleições: "Em 2025, a democracia norte-americana poderá colapsar, causando instabilidade política doméstica extrema, incluindo violência civil generalizada. Em 2030, se não antes, o país poderá estar a ser governado por uma ditadura de extrema-direita."

É precisamente na garantia de que Trump vencerá as eleições que está um dos pontos chave da conspiração contra a América. A Atlantic trazia em Dezembro um longuíssimo ensaio explicando como o golpe de 2024 "já começou" na reorganização legislativa em Estados republicanos: "A verdadeira insurreição foi aquela liderada por Trump e seu círculo de bajuladores na Georgia, Wisconsin, Nevada, Michigan, Pensilvania e Arizona."

Os EUA têm, desde a sua fundação, procedimentos profundamente anti-democráticos, desde logo pela sua estrutura política, social e económica assente na segregação racial que nunca foi desmantelada.

No Público, Teresa de Sousa lamentava que a "democracia americana está a ser posta à prova nos dias que correm e como isso é assustador para os homens e mulheres de boa vontade no mundo". Mas a analista esquece-se que a "democracia" não depende muito da boa vontade dos homens. E que os fascistas não são uns tolos com chifres e bandeiras na escadaria do Capitólio. São pessoas com muito dinheiro sentados precisamente dentro do Capitólio a escrever leis e a distribuir poder e capital.

Os EUA têm, desde a sua fundação, procedimentos profundamente anti-democráticos, desde logo pela sua estrutura política, social e económica assente na segregação racial que nunca foi desmantelada. Jason Stanley, professor em Yale, explicava no Guardian como a semente do fascismo nos EUA vem das práticas racistas e de apartheid do Jim Crow pós-esclavagista. Nos últimos 25 anos, a reorganização do movimento fascista no país está ligada a "interesses oligárquicos para quem o bem público é um impedimento, como os do negócio dos combustíveis fósseis, bem como um movimento social, político e religioso com raízes na Confederação".

A lista é imensa para uma democracia supostamente consolidada: o país tem, de longe, a maior percentagem de encarceramento do mundo. Em vários Estados a legislação permite uma total limitação e manipulação do acesso livre ao voto. Leis aprovadas contra direitos reprodutivos têm ultrapassado qualquer marca de regimes democráticos. A criminalização do protesto está em curso, sobretudo após o movimento Black Lives Matter. "Estamos agora na fase legal do fascismo", explica Stanley, "45 Estados consideraram 230 projetos de lei criminalizando protestos, com a ameaça de rebelião violenta esquerdista e negra sendo usada para os justificar".

Enquanto no topo o poder se reorganiza na conspiração das oligarquias, do capital financeiro e dos media, por todo o país há uma explosão de protestos laborais, greves, sindicalização em massa, reivindicações e mobilização de trabalhadores, numa democracia que tem das leis sindicais mais coercivas do mundo. Certo é que perante o golpe em curso, também parece haver uma força negra, de esquerda e trabalhadora a preparar-se para o embate.

(Autora escreve segundo o antigo Acordo Ortográfico.)

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