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Confirme humanidade
Opinião Sociedade 2 min. 27.05.2021

Confirme humanidade

Confirme humanidade

Foto: Pixabay
Opinião Sociedade 2 min. 27.05.2021

Confirme humanidade

Filipa MARTINS
Filipa MARTINS
Finalizo a encomenda de um cabaz de fruta e legumes para entrega em casa. Devido à excessiva procura, o pedido chegará em meados de junho. No último passo, o ecrã interpela-me: 'Confirme humanidade: antes de finalizar a compra, precisamos de confirmar que você é um ser humano'.

A mensagem funcionou como um alçapão, que me engoliu. Um desafio moral que me recompensará com dois quilos de clementinas, batata doce e abóbora biológica.

Tenho diante de mim o quadro composto dos prédios vizinhos. Anoiteceu. As fachadas são paredes de luz. E luz significa vida. Cada janela iluminada é, em plena noite, uma casa habitada, prova da presença de consciência humana. Naquela, uma criança disputa com o irmão o último quadrado de chocolate. O vizinho do lado pendura o quadro que, por outros afazeres, ficou adiado, encostado a uma parede. 

No andar de cima, talvez haja um espírito aristotélico, talvez se discuta a ilusão salvífica de que a vida pode fazer sentido. A mãe, que corta o pão em fatias finas e harmoniosas, dá-nos a esperança da sequência lógica das coisas.

Estas luzes, em conjunto, ainda são um rebanho. As janelas iluminadas nas fachadas dos prédios – ponto, traço, ponto, ponto, espaço, traço - anunciam uma mensagem comum, esperançosa, em código morse. Mas até quando? E quando esta miríade de luzes encaixilhadas deixar de ter um significado coeso, passar a ser uma mensagem desconexa, obscura ou, mais grave, agressiva? Há que confirmar que cada luz que brilha à janela não é a luz proscrita de uma estrela humana já extinta. Há que manter a humanidade, sabendo que somos, em potência, armas mortíferas.

Cá em casa, recebemos a notícia da morte de um ente querido e não houve carne para abraçar. Houve palavras de conforto. Estarão as palavras à altura do que lhes é exigido? Poderá transportar a palavra beijo temperatura e humidade? Poderá a palavra cuidado apertar, ao de leve, as artroses de uma mão de pele fina? 

Conheci um homem que, nos seus últimos dias de vida, decidiu ler o dicionário de ponta a ponta, porque não teria tempo para ler todos os clássicos que desejaria. Tinha a vista cansada quando terminou, mas o que o incomodara mais foi o poder das palavras. As palavras, ao contrário das facas, já detêm o golpe e não são apenas lâmina. Basta dizer 'tirano' e o alvo se sentirá déspota. Basta dizer 'para' e o sentido da marcha extingue-se.

A sessão expirou, durante as minhas hesitações. Outras encomendas empurraram a entrega do meu pedido de frutas e legumes para o final de junho. Na dúvida, confirme humanidade.


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