Escolha as suas informações

"Compreender o vírus é essencial em qualquer estratégia de saúde pública"
Sociedade 6 min. 22.10.2020

"Compreender o vírus é essencial em qualquer estratégia de saúde pública"

"Compreender o vírus é essencial em qualquer estratégia de saúde pública"

Foto: DR
Sociedade 6 min. 22.10.2020

"Compreender o vírus é essencial em qualquer estratégia de saúde pública"

Paula SANTOS FERREIRA
Paula SANTOS FERREIRA
Criar um mapa da circulação do Sars-CoV-2 em tempo real no Luxemburgo, e associar o código postal às variantes do vírus são duas das novas “armas” em breve disponíveis para combater a epidemia no País, anuncia o microbiologista Tamir Abdelrahman, do LNS nesta entrevista exclusiva ao Contacto.

 Desde que o primeiro caso de covid-19 foi registado no Luxemburgo, em março, chegado da Europa, que o vírus da pandemia, o SARS-CoV-2, se tem vindo a modificar desenvolvendo novas estirpes de ‘nacionalidade luxemburguesa’, para continuar com sucesso a infetar os residentes no País. Identificar e sequenciar todas as variantes do genoma do vírus que circulam no território é fundamental para prever a explosão de novos surtos e seguir o rasto da infeção das variantes no Grão-Ducado e no mundo, fatores importantes para travar contágios e adotar medidas de saúde pública eficazes no combate à epidemia. E da forma mais rápida possível. Nesta entrevista exclusiva, o investigador Tamir Abdelrahman, chefe do departamento de Microbiologia do Laboratório Nacional de Saúde do Luxemburgo explica como o novo coronavirus ganha novas características e mantém o poder de ser altamente transmissível. As sequências do genoma do Luxemburgo estão incluidas no estudo sobre a “Distribuição geográfica e temporal do clade da SARS-CoV-2 na Região Europeia da OMS”, vitais para a elaboração de uma vacina eficaz.

Quantos genomas do Sars-CoV-2 já foram sequenciados no Luxemburgo desde o início da epidemia?

Nós desenvolvemos um fluxo de trabalho de sequenciação para a SARS-CoV-2 nos nossos laboratórios em março. Estamos a produzir tecnologia de sequenciação profunda que nos permite compreender os pormenores do vírus detetado em qualquer amostra positiva. O nosso plano era o de sequenciar todas as amostras positivas no Luxemburgo, o que nos permite perceber as dinâmicas virais e informar as autoridades de saúde pública sobre o aparecimento de novas variantes na comunidade. No Laboratório Nacional de Saúde, temos atualmente genomas de entre 5% e 10% dos casos positivos no Luxemburgo, o que nos coloca alguns entraves à capacidade de cumprir o nosso objetivo. Até agora sequenciámos 600 amostras.

As primeiras sequenciações identificaram os genomas importados do estrangeiro. Os genomas do vírus são agora todos “nascidos” no Luxemburgo?

Os primeiros casos positivos detetados no Luxemburgo enquadram-se na definição de casos importados com uma história de viagem a regiões identificadas pela OMS, em termos de circulação do SARS-CoV-2. No entanto, à medida que o tempo passa, notámos a existência de aglomerados locais no Luxemburgo, onde a transmissão do vírus teve lugar localmente e desenvolveu algumas variantes específicas luxemburguesas ou que estão a circular na região.

Através das vossas fórmulas de sequenciação, é possível distinguir os genomas por regiões do País? Se, por exemplo, em Esch, onde há mais casos, os genomas diferem muito das regiões com menor incidência do vírus?

O vírus SARS-CoV-2 é um vírus ARN, ou seja, tipicamente evolui e sofre mutações a um certo ritmo, sendo fácil caracterizar e diferenciar a propagação geográfica ao longo do tempo. Nas amostras que foram alvos de sequenciação, não notámos muitas variações e as diferenças limitadas nas variantes a circular não nos permitem alcançar essa granularidade dentro do país. Mas é possível diferenciarmos entre países ou regiões em certas ocasiões, e existem atualmente sistemas de classificação distintos que podem responder a esse problema.

Que sistemas de classificação são esses?

Estamos a trabalhar com os nossos colegas na Universidade do Luxemburgo para ligar cada sequência viral a um certo código postal ou cidade, porque isto envolve dados pessoais, para os quais necessitamos de uma aprovação específica para obter, e esperamos poder concluir este estudo em breve.

No regresso ao país, após as férias no estrangeiro, as sequências de genomas puderam indicar a existência de infeções importadas de outros países? Por exemplo, descobriram genomas específicos de Portugal?

A taxa de positividade nas amostras referentes ao LNS tem sido bastante baixa, desde junho de 2020, e a maioria dos novos casos são detetados noutros laboratórios, e infelizmente não temos conseguido obter acesso a estas amostras atempadamente para executar os exercícios necessários de sequenciação. Estamos atualmente a trabalhar com os nossos colegas dentro do País para construir uma epidemiologia em tempo real para o SARS-CoV-2, onde todas as amostras positivas no país seriam submetidas ao Laboratório Nacional de Saúde para sequenciação semanalmente. Quando esta abordagem for adotada, poderemos abordar esta questão.

Os genomas luxemburgueses são semelhantes aos de outros países europeus?

Os genomas luxemburgueses que encontrámos até ao momento enquadram-se na estirpe europeia, onde a estirpe B é a dominante entre os vírus em circulação no Luxemburgo.

Tem sido possível prever aglomerados ou surtos através das sequenciações por país e agir antecipadamente?

Até ao momento, a investigação epidemiológica que é feita pela Inspeção Sanitária é a forma mais eficiente de identificar possíveis aglomerados e a partir daí informar os atores da saúde pública. No Luxemburgo temos um sistema muito eficiente de rastreio dos contactos. Esperamos que quando introduzirmos a epidemiologia em tempo real, utilizando dados de sequenciação, que esta seja mais uma ferramenta para o nosso sistema de saúde pública.

Explique a importância do conhecimento dos genomas do novo coronavírus no Luxemburgo no combate à epidemia.

Compreender o vírus é essencial em qualquer estratégia de saúde pública. Não só para a monitorização de como o vírus evolui, e para o relato de quaisquer casos de infeciosidade e transmissibilidade elevadas, este conhecimento também é fundamental no desenvolvimento de uma vacina ou potenciais antivirais. Além da gestão de pacientes. O SARS-CoV-2 tem apresentado vários desafios quanto à previsão de dinâmicas de transmissão e ao desfecho da doença clínica. A sequenciação é a ferramenta principal em termos de elucidar estes aspetos e as várias mutações que começaram a surgir em correlação com a gravidade.

A sequenciação dos genomas do novo coronavírus do Luxemburgo também contribui para o melhor conhecimento da doença na Europa, dado que está incluída na base de dados europeia da Organização Mundial de Saúde (OMS).

Enquanto laboratório nacional, contribuímos para a compreensão da pandemia de várias formas, e, claro, partilhar o conhecimento que obtemos através das sequências também faz parte. A nossa equipa tem reuniões regulares semanais com os nossos colegas do Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças (ECDC) e na OMS, em que partilhamos os nossos dados. Também unimos esforços, como na iniciativa GISAID, que possibilita a rápida partilha de dados sobre os vírus da gripe e da covid-19. Assim, compartilhamos uma base de dados de sequências global, o que constitui um recurso importante para o combate à covid-19 a nível mundial. Quero também salientar o nosso trabalho na produção de relatórios médicos com mutações clinicamente significantes que foi apresentado recentemente no congresso europeu sobre a covid-19.

O SARS-CoV-2 vai se modificando estando continuamente a decorrer alterações nos genomas do vírus. Estas mudanças dão alguma indicação sobre a aceleração da epidemia no Luxemburgo e na Europa?

Desde que apareceu em cena, em 2019, o SARS-CoV-2 tem sido muito difícil de prever. Os dados de sequenciação que analisámos até agora, de entre março e junho, não mostraram nenhuma evolução do vírus, ainda que 95% carregam a mutação DG14G, que está associada com transmissibilidade elevada. No inverno, poderemos ser confrontados com variantes distintas, mas isso apenas dá ênfase a quão essencial é a genómica viral na nossa luta contra a COVID-19. 

Siga-nos no Facebook, Twitter e receba as nossas newsletters diárias.


Notícias relacionadas

“Este coronavírus contagia muito mais do que os anteriores”
O investigador português Vítor Borges, do INSA que está a colaborar com o LNS do Luxemburgo explica em entrevista exclusiva como o vírus da pandemia se comporta e altera para continuar a contaminar o planeta. Uma investigação fundamental para a criação da vacina eficaz.
O investigador português Vítor Borges do INSA