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Como vamos reaprender a socializar convivendo com o medo do vírus e do outro
Sociedade 7 min. 14.05.2020

Como vamos reaprender a socializar convivendo com o medo do vírus e do outro

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Como vamos reaprender a socializar convivendo com o medo do vírus e do outro

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Foto: AFP
Sociedade 7 min. 14.05.2020

Como vamos reaprender a socializar convivendo com o medo do vírus e do outro

Ana TOMÁS
Ana TOMÁS
A necessidade de contacto social aumenta com as crises ou desastres, explica a socióloga portuguesa Bárbara Barbosa Neves. Mas a pandemia da covid-19 traz incertezas.

O Luxemburgo entrou esta segunda-feira numa nova fase de desconfinamento, com o levantamento de mais algumas restrições. Contudo, continua a haver limitações e o contacto com os outros mantém-se regrado e definido por um conjunto de novos preceitos que implicam ainda distanciamento físico e social. Num cenário ainda incerto, que pode a qualquer momento ser revisto e levar a novo confinamento, até que ponto o isolamento poderá dificultar o processo de voltar a socializar com os outros no espaço físico real?

"Ainda não temos evidência suficiente para perceber qual será o impacto concreto nas competências sociais das pessoas. Contudo, sabemos que crises e desastres usualmente trazem necessidades de contacto social mais aprofundado", explica ao Contacto a socióloga portuguesa Bárbara Barbosa Neves. 

A professora da Universidade de Monash, na Austrália – país que no final de 2019 enfrentou uma vaga inédita e destrutiva de incêndios – traça a comparação possível, face às poucas evidências que ainda existem sobre o impacto da covid-19 em termos de socialização.


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Os investigadores da Universidade do Luxemburgo, que estão a conduzir um inquérito à população, acreditam que a continuação do distanciamento social mudará a forma como vivemos as nossas vidas e nos relacionamos uns com os outros. Mas mesmo com as alterações impostas pelo momento atual, Bárbara Barbosa Neves lembra que os estudos demonstram que "o apoio social é um dos fatores importantes de sobrevivência em desastres e crises" e que o confinamento imposto pode trazer uma necessidade redobrada desse apoio. 

"A maioria das pessoas estarão agora a sentir os efeitos negativos do isolamento e até de alguma solidão e é provável que haja uma vontade acrescida de sociabilidade, de nos encontramos face-a-face e com mais frequência com familiares e amigos, de partilharmos mais momentos de qualidade com outros".

Apesar disso, admite que qualquer evento que implique um isolamento social obrigatório, em que as pessoas se habituaram a estar fechadas e ganharam, em alguns casos, medo de voltar à rua, pressupõe um "período de transição". "É normal que algumas pessoas (embora normalmente uma minoria) demonstrem algum receio de voltar a um estado 'normal', sobretudo aquelas que possam ter perdido algum familiar nesta pandemia ou que estejam inseridas num grupo de risco". Porém, para a socióloga isso não significa que nos tenhamos desabituado da presença uns dos outros e sublinha que a importância do contacto social é de tal forma fundamental para os seres humanos que a "OMS alterou a terminologia de 'distanciamento social' para 'distanciamento físico' para reiterar a sua importância".


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Mas se é certo que essa é uma necessidade humana, também é verdade que a possibilidade de se ser contagiado por terceiros e o medo daí decorrente terá consequências na forma e no grau de sociabilidade atuais. "Não sabemos quem tem o vírus e sabemos que o distanciamento físico é fundamental para combatermos a pandemia, logo é normal que haja alguns momentos de desconfiança social", reconhece a investigadora portuguesa, ressalvando que ainda não existem dados suficientes para saber a representatividade do 'medo' entre as pessoas. 

"A investigação preliminar que temos mostra que a maioria está ansiosa para voltar a socializar e não o contrário. Contudo, em algumas pessoas que, por exemplo, sofrem de solidão prolongada (não diretamente associada com a pandemia), vemos comportamentos que se pautam por alguma passividade nos relacionamentos".

Bárbara Barbosa Neves reforça que é preciso lembrar o impacto das ligações sociais nas diferentes vertentes da vida humana. "Para termos boa qualidade de vida, bem-estar e prevenir um conjunto de doenças é extremamente importante. É também importante percebermos como sociedade que a solidão pode afectar qualquer um de nós e tem causas e consequências sociais".

Mas porque o medo, ainda que expectável, não tem de ser mais forte que a necessidade da sociabilidade, a investigadora dá como exemplo as ações de solidariedade espontâneas e voluntárias que se têm constituído em paralelo. "Embora culpar o 'outro' seja mais fácil, pois dá-nos algum controlo social sobre a nossa própria situação e cria algo ou alguém externo que possamos acusar, a verdade é que na maioria dos casos temos assistido a grande solidariedade social dentro de comunidades. Claro que as crises podem trazer à superfície o pior e o melhor de nós. Porém, depois de alguns momentos iniciais de individualismo e egoísmo (como adquirir quantidades desnecessárias de alimentos) que aumentam desigualdades sociais, temos visto solidariedade social".

Evitar a elitização e marginalização de pessoas

As novas regras de desconfinamento impõem também profundas alterações na partilha social do espaço público. Os ajuntamentos são limitados a um número máximo de pessoas (20, no caso do Luxemburgo) e os acessos às estruturas culturais entretanto reabertas obedecem igualmente a restrições numéricas.

Com o aproximar do verão começa a desenhar-se, a regra e esquadro, em vários países, a possibilidade de se frequentar as praias e ir a banhos. Em Portugal, tirando as poucas áreas concessionadas para a utilização paga de chapéus de sol e toldos, o restante acesso ao areal era até aqui totalmente gratuito e democrático. Mas com a necessidade de distanciamento social, a sua capacidade para acolher pessoas – e facilidade de em a esgotar – irá variar com a sua extensão e o com o grau de proximidade de centros urbanos e de transportes públicos disponíveis. O desafio passará então por evitar que às restrições sanitárias se juntem as de natureza socioeconómica.


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"É preciso garantir que políticas de distanciamento físico e restrições de espaços públicos não contribuam para aumentar ou perpetuar desigualdades sociais no acesso e usufruto de espaços e equipamentos públicos. Isto implica ponderação, monitorização, avaliação e ajustamento dinâmico deste tipo de políticas sociais", defende a investigadora.

Idosos também têm direito ao desconfinamento

O mesmo se aplica a alguns dos chamados grupos de risco, para quem tem havido uma dupla penalização. "Políticas gerais de confinamento direcionadas às pessoas idosas têm que tomar em consideração os riscos do isolamento social e solidão para alguns grupos dessa faixa e colocar em ação planos complementares que aliviem esses riscos. Além disso, a comunidade tem que ser envolvida nesses planos, pois todos podemos fazer a diferença". De visitas a programas de apoio social, as iniciativas comunitárias podem ajudar a combater essa solidão e isolamento, que nos idosos, lembra a socióloga, "são bastante prejudiciais" em termos de saúde, "porque aumentam o risco de um conjunto variado de doenças que obrigam a hospitalização e a cuidados prolongados, desde dor crónica a doenças neuro-degenerativas. A investigação na área mostra que a solidão aumenta em mais de 40% o risco de demência nas pessoas idosas".

A família também deve encontrar formas de contacto à distância (telefonar mais vezes, escrever cartas ou organizar atividades online) sempre que não é possível o contacto físico, para que os idosos não se fechem ainda mais em si, reprimindo queixas.


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"O que descobri na minha investigação é que a maior parte das famílias nem sequer sabe que os seus idosos estão a sentir solidão. Muitos deles não querem dizer, para não serem aborrecidos, negativos ou serem vistos como um fardo". O estigma da idade, alerta, "também interliga com esse estigma da solidão". Mas a socióloga, que tem dedicado a sua carreira a estudar a população mais velha,  lembra que a solidão é um problema social marcado por vários factores e que, por isso, não está associado a uma faixa etária em exclusivo, da mesma forma que não estão os fatores de risco da covid-19. 

A concentração de casos mais graves e de óbitos na população mais idosa explica-se por ser uma população que tem normalmente já outras doenças associadas, o que aumenta a gravidade da infeção. Sem esses problemas, um idoso só pelo facto de o ser não estará necessariamente mais exposto aos sintomas severos que pessoas de outras idades. 

"É preciso entender que nem todos os idosos são iguais e que é um indicador de uma sociedade idadista (que discrimina baseando-se na idade) achar que se trata de um bloco populacional homogéneo. Nem todas as pessoas idosas têm problemas de saúde ou fragilidades. Este grupo etário é um dos mais heterogéneos", nota Bárbara Barbosa Neves que defende que as políticas sociais "têm que tomar em consideração essa evidência".

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