Escolha as suas informações

Como se diz trillion em português?
Opinião Sociedade 5 min. 03.02.2021

Como se diz trillion em português?

Como se diz trillion em português?

Foto: Pixabay
Opinião Sociedade 5 min. 03.02.2021

Como se diz trillion em português?

Raquel RIBEIRO
Raquel RIBEIRO
Apesar das desigualdades acentuadas pela covid-19, sabemos que há quem esteja constantemente a facturar.

Recebo o alerta do The Guardian e do Público, quase em simultâneo, sobre Jeff Bezos. Diz que vai abandonar a liderança da Amazon. Até nisso a linguagem da gente com muito dinheiro nos confunde: o Público escreve na entrada que Bezos vai sair no "último quadrimestre de 2021". Depois, no texto, a informação revela que sai "a partir do terceiro trimestre". Até para perceber quando sai temos de fazer contas: lá para Outubro, parece.

Antes disso ainda vai acumular muito dinheiro. Procurei pela mais recente fortuna da Amazon, mas os resultados acumulados em 2020 eram tão exorbitantes que me fiquei pelo simples artigo da Forbes sobre a riqueza combinada dos 660 milionários dos EUA, que aumentou 38.6% face a Março de 2020. São 4.1 trillion dólares, mas eu nem sei como isso se diz em português: mil mil milhões? Em média, a fortuna dos 15 milionários mais ricos aumentou 58.7%, e alguns, como Elon Musk, o homem dos carros eléctricos, das estrelas artificiais e do golpe de estado na Bolívia, cresceu 500%. Talvez por extenso tenha mais impacto: quinhentos por cento. A Forbes diz que, no total, também aumentou o número de milionários: mais 40 e tal, mas para nós 620 ou 660 não faz diferença nenhuma. A verdade é que há quem esteja a lucrar com a nossa miséria. E parece ter-se acentuado com a pandemia.

O Business Insider revela, contudo, que os trabalhadores dos EUA perderam 3.7 trillion dólares durante a pandemia. Basta uma conta simples: se os milionários ganharam 4.1 e os trabalhadores perderam 3.7, há uma fatia que foi directa para os milionários e sobram 0.4. Grave é que os mais jovens e as mulheres, isto é, os trabalhadores mais precários, foram os que mais perderam em salários, emprego, poder de compra. Eles são os mais pobres nesta escala de fragilidade. E é também neles que está hipotecado o futuro da recuperação.


Dez mais ricos do mundo aumentaram a fortuna em 400 mil milhões durante a pandemia
Só o fundador da Amazon acumulou 70 mil milhões de dólares desde março.

Sabíamos que a pandemia ia trazer destruição efectiva de empresas e de trabalho. Mas se, no início, se pensou que isso poderia equivaler à destruição efectiva de capital, hoje sabemos que não é bem assim. Analistas têm discutido como, desde Março, a transação de capitais em bolsa continua em alta. Um investidor dizia recentemente na CNBC que a pandemia acentuou a ideia da bolsa como "mecanismo de previsão". Os investidores continuam "perguntando-se como é que a bolsa consegue uma performance tão forte quando a economia, o mercado laboral e os vencimentos enfrentam tantos desafios. É mais sobre expectativas futuras do que sobre condições correntes. É algo sobre o qual os investidores estão sempre vagamente cientes." "Vagamente ciente" é uma condição em que investidores gostam de "estar" enquanto jogam na roleta do capitalismo financeiro de casino que é este estágio último que nos calhou viver.

Os investidores continuam a repetir este mantra desde 2008: "A bolsa de valores não é a economia". Mas os super professores e analistas de mercados amados e respeitados pelo New York Times e o Expresso, como Paul Krugman e Robert Reich, têm alertado: "Os 0.1% mais ricos têm 17% dos stocks. Os últimos 50% têm 0.7% dos stocks. Repita comigo: a bolsa de valores não é a economia", lembrava Reich no Twitter. 

A performance diária da bolsa tem pouco efeito na economia do dia-a-dia, e, portanto, na nossa vida. No entanto, da mesma maneira que os investidores da Gametsop souberam apostar na queda do valor de uma empresa, também os mercados de capitais continuam a apostar – e a ganhar, constantemente – em dívidas acumuladas de países, nas impossíveis recuperações económicas, na queda de acções de empresas. A ideia de comprarmos acções como quem aposta num cavalo que vai ganhar a corrida e, por isso, ganharmos dinheiro, não existe mais. O que a bolsa faz é apostar na nossa derrota, na nossa miséria.

Um dos mais recentes gurus da desigualdade é Gary Stevens, um jovem de Londres de origem operária que estudou na London School of Economics e trabalhou na City em especulação bolsista e financeira, antes e depois do crash de 2008. Gary tem um canal nas redes sociais em que explica coisas de alta finança a pessoas que simplesmente trabalham para pagar contas. Explica como os milionários estão a enriquecer à custa da covid e como a desigualdade se continuará a acentuar se não começarmos a taxar heranças, especulação financeira e transações de capitais.

Segundo Stevens, a crise da covid é talvez o último assalto ao que sobra dos nossos direitos. Em tempos normais, e em moldes simples, os ricos têm e gastam muito dinheiro – em investimentos, salários e consumo. Os pobres pagam rendas, contas, hipotecas. O dinheiro regressa assim às mãos dos ricos. Mas, neste momento, os ricos não podem consumir (viagens, restauração, consumo estão limitados); os pobres que não perderam trabalho continuam a pagar rendas, contas e hipotecas; e os que perderam o emprego receberam subsídios do Estado para continuar a pagar rendas, contas e hipotecas. 

Para onde vai o dinheiro que os ricos, que agora não gastam, estão a acumular? Os Estados, diz Gary, estão a endividar-se nos bancos centrais e a pôr dinheiro diretamente nas mãos dos ricos, mas a economia está paralisada. Neste momento, os ricos têm tanto tanto capital acumulado e não taxado que estão literalmente a jogar no casino especulativo. Além de acções das farmacêuticas que, sabemos, é o que está a dar, nunca as acções de prata e ouro estiveram tão altas nos últimos oito anos. Todos sabemos que bolhas especulativas criaram as últimas grandes crises do capitalismo. Estamos só à espera que aconteça. Para quem paga rendas, contas, hipotecas é mais do mesmo.

(Autora escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico.)





Siga-nos no Facebook, Twitter e receba as nossas newsletters diárias.