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Comentário: A angústia do regresso às aulas para uma mãe portuguesa

Comentário: A angústia do regresso às aulas para uma mãe portuguesa

Foto: AFP
Sociedade 4 min. 18.09.2013

Comentário: A angústia do regresso às aulas para uma mãe portuguesa

Há quem viva uma nova e não menos importante passagem de ano em Setembro, assim que as escolas abrem as suas portas ao seus alunos. Para quem, como nós, é emigrante, este acontecimento revela-se de ainda maior importância.

Quando soubemos que iríamos emigrar, muitas dúvidas e medos surgiram nas nossas cabeças: onde viver, encontrar um emprego, tratar da burocracia cá e lá, conseguir criar novas rotinas. Mas a mim o que realmente me preocupava era outra coisa: a entrada do nosso filho numa creche fora do nosso país. Quanto mais pensava nisto, mais angústia sentia. Imaginava que ele tivesse fome, sede, que ele sentisse alguma dor e não o pudesse expressar às educadoras senão na sua língua. Imaginava que se iria sentir ainda mais abandonado por nós, num lugar em que não entendia o que lhe diziam e não podia fazer-se entender. Restava-me o consolo de quem me dizia que as crianças se adaptam rapidamente a diferentes realidades.

Chegámos ao Luxemburgo há um ano e meio e uma das nossas primeiras preocupações foi encontrar uma creche para o nosso filho. Não foi fácil, tal como esperávamos, mas é um sítio agradável, francófono e onde o miúdo se sente feliz. Pouco tempo depois, ele encarregou-se de me fazer ver como todos os meus medos eram infundados: enquanto brincávamos em casa, nomeava as coisas não só em português mas também em francês e ainda hoje, nas menos esperadas das ocasiões, nos surpreende com esse conhecimento. Integrou-se perfeitamente na creche, de onde vem grande parte do seu francês. Já anseio com a sua entrada na precoce para iniciar o luxemburguês, o que ao mesmo tempo me alegra (para que se integre totalmente no país onde escolhemos viver) e me assusta (o meu conhecimento da língua é nulo).

A enorme vantagem de estudar no Luxemburgo é, para mim, o ensino das línguas. Formar alunos que são, na prática, trilingues é algo que nunca me passaria na cabeça em Portugal, onde as línguas, salvo o inglês, são quase sempre facultativas. É claro que isto pode não ser uma vantagem se os alunos não quiserem continuar os estudos no Luxemburgo, mas é incrivelmente importante para quem deseja ingressar no mercado de trabalho. Lembro-me dos primeiros dias à procura de emprego e de me sentir desmoralizada com a exigência línguistica de grande parte das ofertas: é que, apesar de falar fluentemente mais de três línguas, estas não são o francês, o alemão e o luxemburguês, que ainda está na minha lista como algo que preciso de aprender e depressa. Mas há também o reverso da moeda: tenho colegas que se viram obrigados a mudar os filhos para uma escola belga para conseguir que os miúdos terminassem a sua escolaridade sem o enorme fardo das línguas. Há também a possibilidade das escolas internacionais para quem acha que tantas línguas são um problema, mas é uma solução que não cabe certamente em todos os bolsos.

Foi também necessário chegar ao Luxemburgo para compreender um dos fenómenos mais injustamente satirizados sobre os emigrantes que passam férias em Portugal. Todos conhecemos a anedota do emigrante que chama a atenção do filho em francês ("Michel, viens ici!”), até que, perturbado pela falta de resposta do filho, começa a desabafar em português ("Raio do miúdo, nunca ouve o que lhe dizemos!”, ou algo um pouco menos cordial). Em Portugal, interpreta-se o francês que se usa primeiro como uma demonstração de vaidade ou de presunção. Só ninguém pensa que essas crianças foram educadas noutro país, noutra língua em que vivem imersos todos os dias e que mesmo os pais se vêem obrigados a adoptá-la, melhorá-la e aprendê-la todos os dias. Como em tantas outras coisas, faz falta passar pela experiência ou, pelo menos, imaginá-la para a poder compreender.

Aqui em casa, o pequeno reage melhor às instruções dadas em francês, porque é o que ouve o dia todo. Eu não me admirava nada, daqui a uns anos, de ser essa emigrante que grita na praia em francês ou, suprema vaidade, em luxemburguês, para o nosso filho multilingue!

Marisa Maurício