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Cláudio. "Aos oito anos comecei a notar que a minha orientação sexual era diferente"

Cláudio. "Aos oito anos comecei a notar que a minha orientação sexual era diferente"

Foto: Shutterstock
Sociedade 4 min. 25.04.2019

Cláudio. "Aos oito anos comecei a notar que a minha orientação sexual era diferente"

Cláudio (nome fictício), adolescente português no Luxemburgo, sabe desde menino que gosta de pessoas do mesmo sexo. Nesta entrevista realizada por alunas do Ensino de Português no Luxemburgo para o suplemento Contacto Júnior, o jovem fala sobre as suas dificuldades, o medo do 'bullying' e os sonhos de quem só quer o direito a amar sem ser julgado.

Contacto Júnior - Quando é que percebeste que a tua orientação sexual era diferente?

Cláudio (nome fictício), 15 anos - Aos oito anos comecei a notar que a minha orientação sexual era diferente. Foi praticamente quando os meus colegas começaram a ter namoradas e namorados.

Como é que vives a tua homossexualidade no quotidiano? Quando é que assumiste?

Hoje em dia admito que já lido melhor com o facto de ter outra orientação sexual, mas nem sempre foi assim. Durante o sétimo ano de escolaridade tinha um colega que me perguntava sempre se eu era gay, mas, com medo, eu pensava que ele o fazia só para gozar comigo, mas não era o caso. Eu detestava-o. Tínhamos os mesmos amigos/amigas os quais eram muito próximos de mim. Um ano mais tarde, quando já estava no oitavo ano de escolaridade, uma amiga confidenciou-me que ele era gay. Nesse dia não falei com ninguém, pois comecei a pensar que ele fazia aquele tipo de perguntas por já ter algum interesse, cheguei à conclusão de que não estava sozinho neste barco e que era possível ser gay sem bullying e em paz. Quando cheguei a casa telefonei à nossa amiga e desabafei tudo o que sentia e a partir dai assumi que era gay. Chorei imenso, mas, não me perguntes porquê, sentia uma mistura de sensações. Com o tempo comecei a habituar-me ao facto de gostar de rapazes, e hoje sei como é ser amado e amar alguém.

Tens alguma experiência marcante relacionada com situações de discriminação ou exclusão, por exemplo, pela família, na escola, no grupo de amigos ou noutras situações?

Não considero que tivesse muitas dificuldades em me encontrar e de saber o que quero, mas sei que havia algumas situações com as quais me sentia diferente e comecei a perguntar-me o porquê de não ser como os outros. Desde pequeno muitas pessoas diziam que eu era gay, mas, no começo, não quis aceitar ou acreditar. Inicialmente, senti alguns problemas quando entrei no liceu, mas o que realmente sentia era medo de ser uma vítima de 'bullying'. Felizmente, não foi esse o caso. Nunca fui discriminado, sempre tive a sorte de estar rodeado de boas pessoas.

Ainda não fiz o 'outing' (ato de divulgar a minha orientação sexual) completo na minha família. Só a minha mãe e a minha irmã é que sabem.

A tua família tem conhecimento? Se sim qual foi a sua reação?

Ainda não fiz o 'outing' (ato de divulgar a minha orientação sexual) completo na minha família. Só a minha mãe e a minha irmã é que sabem. No início, a minha irmã pensava que era só uma fase, mas, agora, aceita que eu seja gay. Em relação à minha mãe, ela tem conhecimento de que sou homossexual, mas não falamos muito sobre isso, noto que ela evita tocar no assunto, e isso para mim representa que ainda não aceitou, apesar de não o dizer abertamente.

Porque é que, na tua opinião, em determinados contextos as pessoas com orientação homossexual a omitem?

Omitem-na com medo de não serem aceites pelos seus amigos e de virem a ser vítimas de 'bullying'.


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Tem namorada, mas num país em que "até o primeiro-ministro é homossexual", já viveu experiências terríveis. "Já fomos perseguidas por homens que queriam que nos beijássemos à frente deles", contou ao Contacto Júnior a jovem de 17 anos. Mas a maior dificuldade continua a ser contar aos pais. Uma entrevista realizada por alunas do Ensino de Português no Luxemburgo para o suplemento juvenil do Contacto.

Como é atualmente vista a comunidade homossexual pela população em geral?

Apesar de no geral ser aceite no Luxemburgo, a homossexualidade deveria ser um tema encarado de outrra forma pela sociedade. Tenho conhecimento de que existem casos de violência física, assim como perseguição psicológica aos homossexuais, o que é inadmissível. Parece-me que as lésbicas são mais aceites do que os gays, mas não sei porquê.

O que poderá facilitar a integração social dos homossexuais?

Não esconder tanto o assunto, e que não seja visto como tabu.

A religião tem como objetivo criar a paz entre os seres humanos, mas em vez disso prefere transmitir uma imagem errada do que é a homossexualidade. Com isso levam os crentes a encarar mal algo tão simples e bondoso, como é o amor entre duas pessoas.

Consideras que a sociedade luxemburguesa é heterossexista, isto é, vê a heterossexualidade como a norma?

Penso que a maior parte dos habitantes do Luxemburgo são muito abertos no que toca à homossexualidade. Claro que a norma para eles será a heterossexualidade, mas aceitam bem o facto de nem todos sermos iguais.

Em relação às instituições, consideras que têm contribuído para que se privilegie a heterossexualidade (por exemplo a religião, o Estado, a família, a escola, os meios de comunicação social)?

Creio que instituições como a igreja devem começar a respeitar e a aceitar que toda a gente é diferente. Na minha opinião têm de parar de agir como se tivéssemos todos de ser iguais e seguir os mesmos padrões. A religião tem como objetivo criar a paz entre os seres humanos, mas em vez disso prefere transmitir uma imagem errada do que é a homossexualidade. Com isso levam os crentes a encarar mal algo tão simples e bondoso, como é o amor entre duas pessoas.

Entrevista realizada pelas alunas Vera Lúcia Pereira Sofia e Catarina Pereira Torres, do 10° ano, para o suplemento "Contacto Júnior" de 24 de abril, produzido mensalmente pelos alunos do Ensino de Português no Luxemburgo.

Leia também a entrevista a Marisol, de 17 anos: "O maior problema para os adolescentes homossexuais é serem aceites pelos pais"


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