Escolha as suas informações

Cinco olhos e uma facada nas costas
Opinião Sociedade 3 min. 21.09.2021
Caso dos submarinos

Cinco olhos e uma facada nas costas

Caso dos submarinos

Cinco olhos e uma facada nas costas

Foto: AFP
Opinião Sociedade 3 min. 21.09.2021
Caso dos submarinos

Cinco olhos e uma facada nas costas

Hugo GUEDES PINTO
Hugo GUEDES PINTO
'Five eyes' – cinco olhos – é o mais abrangente acordo de espionagem de sempre, celebrado no final da II grande guerra entre os países anglo-saxões, e que desde sempre serviu para espiar os 'outros países amigos e aliados' – ou seja, nós.

Uma das melhores editoras portuguesas – a Quetzal – lançou a tradução para a nossa língua do romance histórico de Laurent Binet, "Civilizações". No livro, Binet diverte-se a imaginar o que aconteceria se os "descobrimentos", momento-charneira na História do mundo, tivessem acontecido ao contrário; ou seja, Colombo fracassa e morre, e é o último imperador inca, Atahualpa, quem atravessa o Atlântico para oriente até desembarcar na "terra do Sol nascente"... ou seja a Lisboa do ano 1531.

Atahualpa encontra um continente dilacerado por monarcas corruptos e gananciosos, populações esfomeadas e analfabetas, conflitos religiosos entre adoradores de "um deus pregado a dois pedaços de madeira", guerras nacionalistas, piratas e cidades sitiadas. O inca aproveita a divisão e os pequenos egoísmos europeus para atirar as "tribos" umas contra as outras e implacavelmente ir conquistando territórios: primeiro Portugal, em seguida Espanha (depois de um massacre em Toledo), França, Itália, Alemanha...

Se não gosta de romances históricos, também pode experimentar "Civilização" (no singular): um clássico dos jogos de computador onde podemos encarnar a pele de um(a) grande líder histórico(a) e guiar a nossa gente à glória eterna, mas para isso serão sempre necessárias grandes doses de astúcia e maquiavelismo, entre guerras, alianças e traições pontuais.

O drama geopolítico destes dias parecia saído de um destes dois magníficos produtos culturais. Em poucas palavras: a China, confiante nas suas vestes de "superpotência do século XXI", domina o Pacífico de forma cada vez mais agressiva; a Austrália sentiu que era hora de contra-atacar e negociou uma encomenda de submarinos (movidos a diesel) com a França; na quarta-feira, e sem qualquer pré-aviso, a Austrália rasgou esse contrato com a França e no mesmo dia assinou uma aliança com os EUA e o Reino Unido para submarinos – só que desta vez, movidos a urânio enriquecido, o material usado desde 1945 para fabricar bombas atómicas e ao qual a Austrália, orgulhosa parte ratificante dos tratados de não-proliferação nuclear, não tinha acesso.

'Five eyes' – cinco olhos – é o mais abrangente acordo de espionagem de sempre, celebrado no final da II grande guerra entre os países anglo-saxões, e que desde sempre serviu para espiar os 'outros países amigos e aliados' – ou seja, nós.

Foi uma manobra pérfida, brutal e 'trumpiana' – o presidente muda, mas a América é a mesma – e a França está, justamente, enraivecida. O embaixador francês em Washington foi chamado de volta, pela primeira vez desde a independência dos EUA. A reacção vinda de Paris é característica de quem se vê atraiçoado por um parceiro em quem confiava, e daí as palavras do ministro dos Negócios Estrangeiros: "é uma facada nas costas".

Mas são os olhos a parte da anatomia que melhor serve de metáfora a este imbróglio. "Five eyes" – cinco olhos – é o mais abrangente acordo de espionagem de sempre, celebrado no final da II grande guerra entre os países anglo-saxões, e que desde sempre serviu para espiar os "outros países amigos e aliados" – ou seja, nós.

E como também já foi repetido nestes textos, este é (mais) um momento "abre os olhos" para a Europa, completamente mantida no escuro sobre temas cruciais para o nosso futuro num mundo repartido entre Washington e Pequim. A Europa que no mesmo dia do anúncio desta aliança que a ignora tinha previsto uma apresentação da sua "estratégia para o Indo-Pacífico" (desactualizada antes mesmo de ser conhecida).

A Europa que continua dividida, titubeante – e indefesa, agora que a NATO está mais que moribunda. Ainda há tempo para a "Autonomia Estratégica" desta Europa, mas cada vez há menos.

(Este autor escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico).


Siga-nos no Facebook, Twitter e receba as nossas newsletters diárias.