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Cientistas querem ressuscitar mamute extinto há 4.000 anos
Sociedade 8 min. 22.09.2021
Biodiversidade

Cientistas querem ressuscitar mamute extinto há 4.000 anos

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Cientistas querem ressuscitar mamute extinto há 4.000 anos

Foto: AFP
Sociedade 8 min. 22.09.2021
Biodiversidade

Cientistas querem ressuscitar mamute extinto há 4.000 anos

Ana B. Carvalho
Ana B. Carvalho
Uma nova empresa de biociências e genética, Colossal, angariou 13 milhões de euros para trazer de volta à vida o mamute lanoso que está extinto. Ou, pelo menos, um animal híbrido semelhante a este.

Geneticistas liderados por George Church, um dos maiores investigadores da área da genética, da Escola Médica de Harvard, pretendem trazer de volta à vida o mamute lanoso. O animal desapareceu há 4.000 anos mas os cientistas querem agora recriar o animal que viveu durante a Idade do Gelo.

"O Parque Jurássico imaginou um futuro no qual era possível trazer os dinossauros de volta à vida. Agora, essa ficção pode tornar-se realidade à medida que os cientistas especializados em genética procuram ressuscitar o mamute lanoso", escreveu a National Geographic em 2017. 

Na altura, a propósito da reunião anual da Associação Americana para o Progresso da Ciência (AAAS) em Boston, o cientista que lidera a missão da "de-extinção" afirmou que a equipa de Harvard estaria a apenas dois anos de criar um embrião híbrido, no qual as características dos mamutes seriam programadas para um elefante asiático.

"O nosso objetivo é produzir um embrião híbrido de elefante-mamute", disse George Church ao The Guardian há quatro anos atrás. "Na verdade, seria mais como um elefante com uma série de características mamute. Ainda não estamos lá, mas pode acontecer dentro de alguns anos".

Isto deve-se ao facto do genoma do mamute lanoso ser 99% semelhante ao do elefante asiático, pelo que o laboratório de Church acredita que se um mamute lanoso acasalasse com um elefante asiático, seria possível ter uma cria.

"Ao contrário do Parque Jurássico, não se está a clonar um elefante mamute lanoso", explicava à National Geographic, em 2017, o autor do livro "Woolly: A Verdadeira História da Busca para Reviver uma das Espécies Extintas Mais Icónicas da História", Ben Mezrich. "O material dentro das carcaças foi degradado entre 3.000 a 12.000 anos devido à radiação e a más condições. Em vez disso, sintetiza-se os genes, coloca-se no embrião de um elefante asiático, volta-se a colocar o embrião num elefante asiático, e o elefante asiático dá então à luz o mamute lanoso. O laboratório de Church está também a trabalhar num útero sintético. O objetivo será ter a primeira cria em dois ou três anos".


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A equipa de investigação analisou os genomas de 23 espécies de elefantes vivos e mamutes extintos, disse Church. Os cientistas acreditam que terão de programar simultaneamente "mais de 50 alterações" ao código genético do elefante asiático para lhe dar os traços necessários para sobreviver e prosperar no Ártico.

Quatro anos em espera

Em 2021, quatro anos depois, os avanços têm sido significativos. Em fevereiro deste ano, um dente de mamute que percorreu a estepe (terras de pastagem) siberiana há mais de um milhão de anos deu origem à mais antiga sequência de ADN do mundo. É a primeira vez que o ADN foi recuperado de restos de animais com mais de um milhão de anos de idade. A amostra mais antiga até à data era a de um cavalo que viveu entre 560.000 e 780.000 anos atrás. 

Os esforços receberam um grande impulso a 13 de setembro com o anúncio de um investimento de cerca de 13 milhões de euros no projeto. Os defensores dizem que trazer de volta o mamute de uma forma alterada poderia ajudar a restaurar o frágil ecossistema da tundra ártica, combater a crise climática, e preservar o elefante asiático ameaçado, com o qual o mamute lanoso está mais intimamente relacionado. No entanto, é um plano ousado e repleto de questões éticas.

O objetivo, segundo os cientistas, não é clonar um mamute, já que o ADN que os conseguiram extrair dos restos de mamute lanoso congelado no pergelissolo (tipo de solo existente na região do Ártico) é demasiado fragmentado e degradado, mas sim criar através da engenharia genética um híbrido vivo de elefante-mamute andante que seria visualmente indistinguível do seu predecessor extinto. "O nosso objetivo é ter as nossas primeiras crias nos próximos quatro a seis anos", disse o empresário técnico Ben Lamm, com quem Church cofundou a Colossal, uma empresa de biociência e genética para apoiar o projeto.

"Nunca antes a humanidade foi capaz de aproveitar o poder desta tecnologia para reconstruir ecossistemas, curar a nossa Terra e preservar o seu futuro através do repovoamento de animais extintos", referiu o cofundador da nova empresa, Ben Lamm.


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"Nós podemos, mas devemos?"

À Euronews, Douglas McCauley, ecologista da Universidade da Califórnia, Santa Barbara afirmou que a conversa até agora tem estado centrada em saber se seria ou não possível concretizar este projeto. "Agora, estamos a progredir na direção do: "C'um caraças! Nós podemos, mas devemos?".

Em 2016, McCauley forneceu uma diretriz para a de-extinção, que concluiu que qualquer plano deste em grande escala seria demasiado caro e contraproducente. 

Os investigadores que debateram os custos dos programas de extinção argumentam que o dinheiro poderia ser melhor gasto noutros locais, nomeadamente nos esforços para evitar a extinção das plantas e animais do mundo de hoje. Atualmente, mais de 30% das árvores em todo o mundo estão em risco de extinção e a ONU alertou que um milhão de espécies estão hoje em risco, no total. 

Mas as preocupações vão mais longe, já que trazer de volta à vida espécies extintas acarreta o risco de trazer à superfície patogénicos desconhecidos, em que vírus e bactérias podem ser capazes de infetar seres humanos ou outros animais sem aviso prévio.

"A ideia de conceber novas formas de vida em laboratórios pode parecer a alguns como a Frankenscience ou uma tentativa de brincar a Deus", escrevia a National Geographic em 2017 enquanto questionava as questões éticas e biológicas deste empreendimento científico. 

"Essa é uma grande questão. É preciso pensar nestas coisas em grande medida antes de as concretizar, porque a ciência pode antecipar-se à ética. Neste caso, acredito - e penso que a maioria dos conservacionistas concorda - que trazer de volta uma espécie extinta como o mamute é menos fazer de Deus do que corrigir algo que fizemos. E os cientistas fazem-se de Deus todos os dias", respondeu Ben Mezrich. 


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"Quando se tenta curar o cancro ou livrar-se da malária, tomam-se decisões sobre a vida em grande escala. O mais assustador é que não existe um verdadeiro corpo de supervisão. Há laboratórios em todo o mundo que fazem coisas como esta. A maioria dos cientistas pensa que é necessário haver alguma supervisão, quer seja dentro da própria comunidade ou numa base governamental. É difícil, porque há muitos países envolvidos", acrescentou.

Matthew Cobb, professor de zoologia na Universidade de Manchester, disse ao The Guardian, no mesmo ano, que "a proposta 'de-extinção' dos mamutes levanta uma enorme questão ética - o mamute não era simplesmente um conjunto de genes, era um animal social, como é o elefante asiático moderno. O que irá acontecer quando o híbrido elefante-mamute nascer? Como será saudado pelos elefantes?", questionou.

"Talvez seja divertido exibi-los no jardim zoológico. Não tenho um grande problema com isso se quiserem pô-los num parque algures e, sabem, fazer com que as crianças se interessem mais pelo passado", disse à CNN Love Dalén, professor de genética evolutiva no Centro de Paleogenética em Stockholmmamute. O cientista acredita que existe valor científico no trabalho que está a ser realizado por Church e a sua equipa, particularmente quando se trata da conservação de espécies ameaçadas de extinção que têm doenças genéticas ou uma falta de variação genética como resultado da consanguinidade".


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Alguns acreditam grande que, antes da sua extinção, animais de pasto como os mamutes, cavalos e bisontes mantinham as pastagens em níveis-chave a norte do planeta e mantinham a terra congelada por baixo, derrubando a relva, derrubando árvores e compactando a neve. Nessa ordem de ideias, reintroduzir os mamutes e outros mamíferos de grande porte a estes locais ajudaria a revitalizar estes ambientes e a abrandar o degelo do permafrost e a libertação de carbono. 

Contudo, tanto Dalén como Tori Herridge, bióloga evolutiva e especialista em mamutes no Museu de História Natural em Londres, consideram que não existem provas que sustentassem esta hipótese, e é difícil imaginar manadas de elefantes adaptados ao frio a causar qualquer impacto num ambiente que se debate com fogos selvagens, cheio de lama e aquecido mais rapidamente do que em qualquer outro lugar do mundo. 

"Não há absolutamente nada que diga que colocar mamutes lá fora terá qualquer efeito sobre as alterações climáticas", afirmou Dalén.

Lamm, o co-fundador do projeto, disse à CNN que há "pressão zero" para que se ganhe dinheiro, apostando no esforço que resulta em inovações que têm aplicações na biotecnologia e nos cuidados de saúde. Comparando-o à forma como o projeto Apollo levou as pessoas a preocuparem-se com a exploração do Espaço, mas também resultou em muita tecnologia incrível, incluindo o GPS. 

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