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China condena criação de bebés geneticamente manipulados. Apesar de o permitir
He Jiankui e a sua equipa anunciaram o nascimento de duas gémeas cujo ADN foi alterado para prevenir uma possível infeção por VIH/Sida.

China condena criação de bebés geneticamente manipulados. Apesar de o permitir

Foto: Anthony Wallace/AFP
He Jiankui e a sua equipa anunciaram o nascimento de duas gémeas cujo ADN foi alterado para prevenir uma possível infeção por VIH/Sida.
Sociedade 3 min. 29.11.2018

China condena criação de bebés geneticamente manipulados. Apesar de o permitir

Catarina OSÓRIO
O governo chinês condenou hoje o trabalho de um cientista chinês que diz ter criado os primeiros bebés geneticamente manipulados. O caso está a gerar choque e indignação entre a comunidade científica mundial.

O vice-ministro da Ciência e Tecnologia da China, Xu Nanping, condenou hoje o trabalho de uma equipa de cientistas da University of Science and Technology, em Schenzen (China), que revelaram afirmaram esta semana ter criado os primeiros bebés geneticamente manipulados, duas gémeas, Lulu e Nana. He Jiankui e a sua equipa anunciaram o nascimento de duas gémeas cujo ADN foi alterado para prevenir uma possível infeção por VIH/Sida.

Segundo Xu Nanping o incidente "violou as leis chinesas", da mesma forma que "ultrapassou as barreiras éticas por que a comunidade académica deve reger-se. É chocante e inaceitável", afirmou o vice-ministro à televisão estatal chinesa CCTV. O anúncio de Jiankui à agência de notícias Associated Press é igualmente chocante: "Sinto uma grande responsabilidade para que não seja apenas a primeira vez e que se torne um exemplo. A sociedade decidirá o que fazer a seguir".

A investigação chinesa ainda não terá sido revista pela comunidade científica ou muito menos publicada em algum jornal académico. O governo chinês chegou mesmo a pedir a suspensão das atividades científicas e tecnológicas de He e, mesmo a Universidade de Schenzen afirmou não ter conhecimento da experiência científica. Também o comité ético do Harmonicare Shenzhen, ao qual o investigador terá pedido um parecer, negou o envolvimento na investigação.

A palavra 'choque' não é um termo exagerado para caracterizar o feito. Mesmo a comunidade científica chinesa mostrou-se incrédula e pediu regulação mais apertada para impedir casos semelhantes no futuro. "Não consigo sequer acreditar que a equipa dele levou a experiência até ao fim e que nasceram duas pessoas fruto daquela gravidez", revela Kiran Musunuru, da Universidade de Harvard, ao Expresso. "Tal como muitos outros especialistas e investigadores, fiquei chocado quando ouvi falar sobre isto", afirma Hugh Whittall, diretor do Nuffield Council on Bioethics.

Poderá dizer-se que não é novidade que este seria um acontecimento há muito esperado mas que, na verdade, ninguém estava verdadeiramente preparado para a sua chegada. O que já não choca é que a China tenha sido pioneira. O país é um dos poucos que permite a modificação genética com recurso à técnica Crispr. O Crispr ou Crispr-Cas9 permite identificar, e modificar ou eliminar, certas 'peças' de ADN. O governo considerou aliás a manipulação genética humana como uma indústria chave para 2016 e 2020.

A técnica não é considerada ética visto que tem profundos impactos no nascimento de bebés e em gerações futuras. E mesmo tendo apostado nela, a China não previu as reais implicações éticas. A única coisa que existe é um documento de 2013, uma espécie de guia de ética sobre o uso de embriões de laboratório na reprodução humana mas não inclui qualquer punição sobre possíveis violações.

"VIH na China é um grande problema"

Não foi a primeira vez que He Jiankui manipulou geneticamente seres, mas até recentemente só tinha acontecido apenas em embriões humanos de laboratório, ratos e macacos. Em entrevista à Associated Press o investigador justificou o feito com a incidência do VIH/Sida na China, onde milhares de pessoas ficam sem emprego ou são descriminadas pelas autoridades médicas caso seja sabido que são portadoras da doença.

E foi exatamente num grupo de apoio aos direitos dos portadores de VIH/Sida que He conseguiu recrutar casais para a sua experiência. Através de fertilização 'in vitro' os cientistas utilizaram uma técnica - CRISPR-cas9 - em que é possível alterar o ADN para implementar um gene novo ou bloquear um existente qus esteja na origem de uma futura doença. Só os homens eram portadores do VIH. A ideia era então a de permitir que o filho de um casal em que um dos pais seja portador do vírus não seja infetado pela doença.

"Agora que a porta está aberta nunca mais irá fechar-se. É um ponto de não retorno na história", acredita William Hurlbut, bioeticista na Universidade de Stanford, em declarações ao jornal The Guardian.

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