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Abre os olhos
Opinião Sociedade 3 min. 20.07.2021
Cheias na Europa

Abre os olhos

Alemanha foi o país mais afetado pelas intempéries de julho.
Cheias na Europa

Abre os olhos

Alemanha foi o país mais afetado pelas intempéries de julho.
Foto: AFP
Opinião Sociedade 3 min. 20.07.2021
Cheias na Europa

Abre os olhos

Hugo GUEDES PINTO
Hugo GUEDES PINTO
O extraordinário filme de Alejandro Amenábar "Abre os olhos" e a sua sequela americana "Vanilla Sky" começam ambos da mesma forma: um despertador que acorda o protagonista com a voz de Penélope Cruz repetindo incessantemente "Abre os olhos! Abre os olhos!"

A Europa central teve o seu despertador "abre os olhos" com as cheias da semana passada, as piores em pelo menos dois séculos. Os danos humanos e materiais catastróficos no Luxemburgo, Bélgica, Países Baixos, Suíça, Áustria e sobretudo Alemanha já estão explicados em pormenor noutras páginas deste premiado jornal; vou só repetir alguns factos arrepiantes. 

Mais de 180 pessoas perderam a vida, com outras ainda desaparecidas enquanto escrevo isto. Em menos de dois dias, caíram em algumas zonas 148 litros de água – equivalente ao total para os meses de Julho e Agosto. Colónia registou 154 mm de precipitação durante 24 horas, estilhaçando o anterior recorde de 95 mm (uma subida de 61%). 

No início deste mês em Lytton, no Canadá, cidadezinha de floresta mais habituada a neve e temperaturas negativas, o termómetro atingiu 49,6 ºC – e a cidade desapareceu, envolta em chamas. Há somente dez dias, na Califórnia, foi registada a temperatura possivelmente mais alta de sempre à superfície do planeta: 54,4 ºC.

É estupidamente óbvio (e todos os dados o confirmam, com margens de certeza de mais de 99%) que estes fenómenos extremos estão ligados à emergência climática que vivemos; e que esta é provocada pela acção humana, que aquece o planeta a um ritmo crescente. 

(...). até as nuvens mais negras têm uma borda prateada. Esta, neste caso, é forçar-nos a REAGIR, a nós bando de avestruzes tontas.

Os sete anos mais quentes da História foram... os últimos sete, e o mais quente foi o último. Uma atmosfera mais quente retém mais humidade, o que provoca mais chuva; e se já eram esperados mais fenómenos extremos, a intensidade que estamos a viver é inesperada e ultrapassa as previsões francamente pessimistas.

Quem costuma ler estes textos sabe que um tema recorrente aqui é a oportunidade que a mudança sempre encerra – mesmo quando essa mudança é terrível. Por outras palavras, e para usar a metáfora gasta, até as nuvens mais negras têm uma borda prateada. Esta, neste caso, é forçar-nos a REAGIR, a nós bando de avestruzes tontas.

De visita a uma das cidades esventradas pelas torrentes, Angela Merkel afirmou "a Alemanha tem de subir o ritmo da luta contra as alterações climáticas". A boa notícia é que "subir o ritmo" a partir de quase imóvel não é difícil. Caso não se recordem, a chanceler é a pessoa mais poderosa no país mais poderoso da Europa vai para 16 anos; e grande parte desse tempo foi passado a comprar gasodutos russos e a beneficiar sempre que possível a suja indústria automóvel alemã, verdadeiro governo-sombra europeu. Mesmo admitindo, com dúvidas, que as suas palavras não são vazias de conteúdo, para Merkel já é demasiado tarde para abrir os olhos. Mas os votantes podem bem fazê-lo nas eleições de Setembro – e dar o governo aos Verdes.


Comissão Europeia. 15 leis para travar o aquecimento global
A Comissão Europeia apresenta esta semana o "Fit for 55". O pacote legislativo destina-se a reduzir as emissões em 55% até 2030. Vai ser "difícil como o raio", admitiu Timmermans, o "comissário verde" europeu.

A notícia mais esperançosa da semana veio de Bruxelas, onde (um dia antes das piores cheias) a Comissão apresentou o seu pacote de medidas "Aptos para os 55" (% de redução de emissões até 2030) que ambiciona transformar a economia e o ambiente europeus durante esta década, colocando a responsabilidade – e o custo – sobre os cidadãos comuns. Este tema ainda vai dar muito pano para mangas.

(Este autor escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico).


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