Chamava-se Graciosa. Foi assassinada.
Chamava-se Graciosa. Foi assassinada.
Na verdade, não se chamava Graciosa. Nome ficcionado como se lê nos jornais. A propriedade privada não é privilégio de todos e muitos há que só têm deles o nome. Que se mantenham donos disso. Tinha outro nome, um daqueles compridos que as miúdas, depois do primeiro beijo, garantem nunca vir a dar aos filhos por ser nome de avó. O respeito pela idade só se ganha com a idade. Morava numa casa de dois andares, com paredes descascadas pela chuva, e, quando a chuva descascava as árvores, arranjava-se para tapar a solidão. Lápis preto nas rugas dos olhos, as pálpebras da cor da écharpe roxa, cabelo acobreado e ralo sob a boina francesa a três quartos, num limbo entre a elegância e a decadência. Uma joia na lapela de um bairro em perpétuo luto, quando a idade, dizem, pede sobriedade e discrição. E as vizinhas:
(Pouco respeito pelo marido, morreu ao volante a conduzir, foi o coração, ainda há três anos levado a enterrar)
A casa cheia para encher os vazios. O corredor, com móveis dos dois lados, não dava espaço a desvios no caminho, a hesitações: louceiros, luminárias em curto-circuito, mesas de pé-de-galo, madeira boa, maciça. Não é mobiliário que se deite fora. O corredor desembocava na sala sem uso. O sofá tapado com uma manta escura, por causa das nódoas, por causa do pó, por causa dos pelos da cadela, destapado para as visitas. Nunca destapado.
(De que cor é o sofá?)
A Princesa dormia-lhe aos pés. Com o seu levantar lento e velho, a cadela já tinha hábitos de rainha-mãe. Os retratos dos netos eram soldadinhos de chumbo enfileiradas na cómoda da televisão. Na cómoda da televisão, os netos são sempre pequeninos, vermelhos de choro perante a insistência do fotógrafo.
(Não houve maneira de lhes arrancar um sorriso, daqueles que mostra o primeiro dentinho a despontar.)
Aos sábados, acordava cedo. A sombra roxa, o lápis escuro, o colar que não usava durante a semana para ir ao café, um rasto de perfume e de naftalina. No patamar, garantia que ia passar o fim-de-semana a casa da filha, o feriado, o Dia de Reis. Mas, à noite, a sombra roxa, o lápis escuro, o colar, o caneco da sopa ao lume e o concurso na televisão do quarto, com a Princesa aos pés.
Pouco quis saber dela, recusando os penduricalhos de Natal que me impingia na maçaneta da porta, tendo vertigens perante os anjos barrocos das paredes da entrada do prédio. Criaturas emolduradas que me olhavam na penumbra, quando subia as escadas. A forma como se debruçava para me espreitar a decoração da sala-de-estar, farejando companhia, afligia-me. Às vezes, pagava-lhe a renda a horas, outras atrasava-me por descuido. Em conversas, surpreendia-me a vasculhar a memória, procurando-lhe o nome. Quando ela morreu, estava de férias entre Jaipur e os bazares de Velha Deli. Os bazares de Velha Deli são como as pinturas num rosto velho, os tecidos e a missangagem fazem com que vejamos melhor a sujidade e as ratazanas.
Pouco quis saber dela, até que a Polícia Judiciária me disse a hora do óbito, entre as três e as quatro da tarde, já as sirenes estavam caladas e aguardava-se o médico legista. E as vizinhas.
(Só deram com ela no dia seguinte)
O corpo preso à cadeira da sala e a Princesa no terraço, na sua placidez de rainha-mãe, confusa nas horas que tardam para o concurso da televisão. O polícia insiste.
(Lamento, não lhe conhecia os hábitos)
O polícia insiste.
(Lamento, não lhe conheço amigos)
O polícia insiste.
(Éramos vizinhas, porta com porta, mas pouco sei, lamento)
Pouco quis saber dela foi o que faltou dizer.
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