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Chama-se Sybilla e quer ajudar o Luxemburgo a produzir o "hidrogénio do futuro"
Sociedade 4 min. 17.09.2020

Chama-se Sybilla e quer ajudar o Luxemburgo a produzir o "hidrogénio do futuro"

Chama-se Sybilla e quer ajudar o Luxemburgo a produzir o "hidrogénio do futuro"

Foto: Lex Kleren/Luxemburger Wort
Sociedade 4 min. 17.09.2020

Chama-se Sybilla e quer ajudar o Luxemburgo a produzir o "hidrogénio do futuro"

Catarina OSÓRIO
Catarina OSÓRIO
O Luxemburgo deu esta quarta-feira mais um passo na produção de hidrogénio proveniente de fontes renováveis. O projeto do Luxembourg Institute of Innovation (LIST) conta com a ajuda de Sybilla, uma máquina da empresa francesa 3D-Oxides que vai ajudar a converter energia solar em hidrogénio verde.

Como é possível produzir energia limpa a partir de hidrogénio? O desafio é "tremendo", afirmou o diretor do departamento de Materiais do LIST, Damien Lenoble, na apresentação do novo projeto do instituto de investigação, em Belvaux. Desta vez, a equipa de cientistas do LIST conta com a ajuda de uma máquina gigante para o efeito.

A Sybilla é uma espécie de decompositor de partículas que permite monitorizar e descobrir novas propriedades materiais das moléculas. Neste caso em particular, vai fazê-lo a partir da energia solar e tentar convertê-las em hidrogénio verde. Um processo denominado como "separação fotoeletroquímica (PEC) da água através de fotões solares (partículas de luz)", explica o diretor tecnológico da 3D-Oxides, empresa detentora da máquina, Giacomo Benvenuti. "A ideia é separar o hidrogénio do oxigénio a partir das moléculas da água. "Fazer isto é um grande desafio porque estes materiais químicos ainda não são conhecidos, bem como a forma mais eficiente de o fazer", acrescentou Damien Lenoble.

Foto: LIST

Simplificando. "De um lado temos água e do outro temos a energia solar. Mas estes dois por si só não são suficientes para produzir hidrogénio. É preciso um terceiro elemento que terá de ser um material especial que é capaz de captar a energia da luz solar e convertê-la em descargas elétricas que induzem, por sua vez, a separação da água", explicou Emanuele Barborini, um dos investigadores líderes do projeto. Desta forma, a Sybilla "vai ajudar-nos a encontrar esse novo material", acrescentou Benvenuti da 3D-Oxides.

"A máquina consegue gerar entre 50 a 100 combinações de materiais por dia", o que significa que o projeto tem potencial para "acelerar a transformação de hidrogénio verde", acredita o diretor de Materiais do LIST. O projeto está dividido em dois sub-projetos de investigação do LIST – HEPHOTO e STONB - ambos com o objetivo de encontrar os materiais mais adequados para o processo de criação do hidrogénio amigo do ambiente.

"Transição para a metalurgia verde"

A equipa de dez investigadores vai estar sediada no Luxemburgo e espera ter os primeiros resultados já em 2024. "Mas só por volta de 2030 poderão começar a ser aplicados em larga escala", estima Damien Lenoble. A equipa espera poder ter um protótipo que poderá então começar a ser testado sobretudo pela indústria, nomeadamente empresas ligadas às energias renováveis, química, transportes, e mesmo o setor siderúrgico. Neste último, um dos setores-chave da indústria luxemburguesa, "o projeto poderia mesmo ajudar na transição para a metalurgia verde", acredita o CEO do LIST, Thomas Kallstenius.

O custo total do projeto é de 1,5 milhões de euros financiados pelo LIST e pela 3D-Oxides, e não se sabe ainda se haverá envolvimento do governo. "Informámos ambos os ministérios responsáveis da iniciativa mas ainda estamos muito no início", refere o diretor do departamento de Materiais Do instituto ao Contacto.

Em 2019, quando questionado sobre o uso de hidrogénio verde no Luxemburgo pelo deputado Laurent Mosar, o na altura ministro da Energia, Turmes, e o dos Transportes, François Bausch admitiam que esta fonte de energia teria um papel pequeno no que toca aos transportes e mobilidade mas que no geral poderia ajudar o país a atingir a meta dos 23 a 25% de consumo de energias renováveis em 2030.

Produção de hidrogénio verde ainda não é competitiva

O hidrogénio é umas apostas energéticas da UE para os próximos anos, e um dos fatores para atingir as metas do Pacto Ecológico Europeu rumo à descarbonização. Os especialistas da Comissão Europeia (CE) acreditam mesmo que esta nova forma de energia ajudará a Europa a reduzir a emissão de gases poluentes até cerca de 55% em 2030. Mas ainda há um longo caminho até lá chegar. O hidrogénio verde apresentado como a atual grande estrela da transição energética, não é "uma solução mágica". Mas seria impossível atingir o objetivo europeu sem se apostar na sua produção em larga escala, disse Frans Timmermans, o vice-presidente da Comissão Europeia responsável pelo Pacto Ecológico Europeu, em julho passado.


Hidrogénio verde. A "rock-star" da transição energética na Europa
Para atingir a neutralidade carbónica em 2050, a Comissão Europeia aposta na produção em larga escala de hidrogénio verde, com aplicações que vão dos transportes à produção de aço. Frans Timmermans, o comissário do Clima, apresentou na quarta-feira a Estratégia de Integração dos Sistemas Energéticos e a Estratégia do Hidrogénio.

Mas, a sua produção hoje em dia ainda está longe de ser sustentável, adverte o CEO do LIST, Thomas Kallstenius. Atualmente, 90% do hidrogénio que é produzido provém dos combustíveis fósseis como o carvão, gás natural ou petróleo. E a "produção de hidrogénio mais sustentável não é ainda competitiva o suficiente em relação à produção gerada através dos combustíveis fósseis", pode ler-se num relatório publicado pela CE em julho deste ano. Os analistas citados pela CE estimam mesmo que o hidrogénio verde poderá sustentar 24% da procura de energia a nível mundial por volta de 2050.

O novo projeto do LIST é atualmente suportado por um outro que já está a decorrer na organização que conta com financiamento europeu, do Conselho de Investigação Europeu (ERC, na sigla inglesa) com a mesma ambição. O acordo celebrado esta quarta entre o instituto e a 3D-Oxides vem assim dar mais um passo na odisseia mundial pela transição energética limpa e pelo "hidrogénio do futuro", acredita o CEO do LIST. E termina com um 'cotovelaço'. "Sinal dos tempos", remata com um encolher de ombros.

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