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Carnaval de Aalst. Após saída da UNESCO, a sátira aos judeus continua
Sociedade 18 6 min. 24.02.2020

Carnaval de Aalst. Após saída da UNESCO, a sátira aos judeus continua

Carnaval de Aalst. Após saída da UNESCO, a sátira aos judeus continua

Thierry Monasse
Sociedade 18 6 min. 24.02.2020

Carnaval de Aalst. Após saída da UNESCO, a sátira aos judeus continua

Telma MIGUEL
Telma MIGUEL
Aalst proclama a sua inocência e fez uma parada com mais shtreimel e mais virulenta. As organizações judaicas pedem sanções contra a cidade flamenga.

Pior a emenda que o soneto. Depois das acusações de anti-semitismo que levaram o governo de Israel a pedir há dias o cancelamento preventivo do popular corso carnavalesco de Aalst - uma pequena cidade a 30 km de Bruxelas - a paródia contra os judeus ortodoxos foi este domingo ainda mais intensa e generalizada do que na edição anterior. E as reações indignadas dos grupos judaicos subiram igualmente de tom. Sophie Wilmès, a primeira-ministra belga, - que tinha respondido anteriormente ao ministro dos Negócios Estrangeiros de Israel que o desfile de Aalst era um assunto interno da Bélgica – acabou por juntar-se ontem ao coro de organizações judaicas que se consideram indignadas com a "grotesca paródia anti-semita".

O Museu do Holocausto norte-americano chegou mesmo a criticar o desfile na rede social Twitter (em baixo). A instituição relembrou que 24 mil judeus belgas foram assassinados durante a Segunda Guerra Mundial e que "eventos como estes que promovem o anti-semitismo e a violência devem ser denunciados por todos os segmentos da sociedade". 

Outras organizações pediram mesmo à Comissão Europeia que investigasse os acontecimentos, ao abrigo do artigo 7 do Tratado da União, por violação dos valores europeus.

O Carnaval da cidade flamenga, com uma tradição de 91 anos, foi classificado pela UNESCO em 2010 como Património Imaterial da Humanidade e acabaria por ser em dezembro de 2019 desclassificado na sequência do último desfile, onde um dos carros do corso exibia um conjunto de judeus ortodoxos com narizes aduncos e sentados sobre sacos de moedas de ouro. Uma das figuras exibia também uma ratazana sobre as vestes.

Na sequência de queixas logo após o desfile, a UNESCO iniciou procedimentos para retirar as festividades, que duram três dias, da lista onde estão por exemplo o fado ou os caretos de Podence. Em dezembro de 2019, num braço de ferro com a Organização das Nações Unidas (ONU), o burgomestre de Aalst, Christoph D’Haese, do partido nacionalista N-VA, pediu a retirada imediata do Carnaval de Aalst da classificação da UNESCO. A medida serviu também, disse, como prova de que os intrépidos habitantes de Aalst fariam o Carnaval à sua maneira.

Contra as pressões de travar os ímpetos satíricos, D’Haese afirmou que se tratava de uma questão de liberdade de expressão e que a festa sairia à rua como todos os anos. Na iminência de confrontos, as autoridades belgas enviaram um reforço de policiamento para as ruas da cidade flamenga.


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Este domingo, com a terceira tempestade seguida num fim de semana a percorrer a Bélgica, os carros alegóricos partiram uma hora mais tarde, sob chuva. Mas partiram. "É tudo um exagero", dizia uma das responsáveis pelo serviço de imprensa que este ano teve que lidar "com muitos pedidos da  imprensa internacional devido ao excesso de atenção". A cidade estava na mira de muitos.

"As pessoas de Aalst adoram o Carnaval e são muito mordazes, toda a gente sabe que isto é uma brincadeira e está no espírito da época", explicou ao Contacto um habitante da cidade que referiu que "há um sentido de orgulho". "Temos um dialeto próprio, e temos uma característica: se nos disserem para não fazermos, é garantido que iremos fazê-lo", acrescentou mesmo.

Kevin é um dos milhares de homens e rapazes que desfilam com roupas de mulher, seios falsos e cabeleiras postiças vistosas. Em Portugal seriam chamados de matrafonas. Aqui são as jeanettenstoet. E têm uma particularidade, usam um abat-jour, de preferência velho e estragado, sobre a cabeça. "Começou nos anos 40, quando o Carnaval era uma coisa para burgueses com dinheiro que podiam comprar disfarces bonitos. Os pobres também queriam participar e mascaravam-se com o que tinham à mão: a roupa das mulheres, das mães ou tias e punham um abat-jour na cabeça para ter um ar mais chique". Kevin é também um dos muitos habitantes de Aalst que é não só um participante ativo das brincadeiras como acha tudo um "mal-entendido". O que aconteceu no ano passado, explica, "foi que um dos grupos não tinha dinheiro para fazer um carro e então aproveitou um velho e adaptou as figuras como judeus, fazendo a ligação com o empréstimo de dinheiro", disse. "Não é verdade que as pessoas de Aalst sejam anti-semitas. Isto é só brincadeira", disse Kevin, protestando a inocência dos seus conterrâneos.

A tradição, segundo os habitantes, é gozar com tudo, sob a licença temporária que os três dias por ano permitem. Ontem, no desfile que durou mais de quatro horas com condições atmosféricas desagradáveis, a paródia atacou a família real belga (que não é em geral amada pelos flamengos) com uma especial incidência no escândalo da filha ilegítima do rei Alberto II. Outras "vítimas" foram também Greta Thunberg, a ativista belga Anuna de Weber – com um carro alegórico em que era chamada de Anuna Matata. O papa Francisco também teve direito a figurar num carro que para um católico roçava certamente o mau gosto e o insulto. Outro exercício nas margens do bom senso era o de um grupo de chineses vestidos de chineses a espalhar o Covid-19.

Mas é verdade que, entre todos os temas, nenhum foi tão prevalecente como o das representações da comunidade judia ortodoxa ou ainda da despromoção do evento pela UNESCO. E, para muitos dos críticos, a questão é tanto mais sensível quando há uma renovada onda de anti-semitismo a percorrer a Europa. No ano passado, o então porta-voz da Comissão Europeia, e hoje comissário, Margaritis Schinas disse que "devia ser óbvio que 74 anos após o Holocausto, uma parada destas nas ruas europeias devia ser impensável".

Particularmente criticado nos comentários online e no Twitter, foi o desfile de um grupo de uma dezena de homens com os típicos shtreimel (chapéus forrados a pele dos judeus ortodoxos casados) que empurravam um alegado Muro das Lamentações e cujo corpo representava uma formiga, uma forma de desumanização que o Fórum das Organizações Judaicas na Bégica (FJO) refere como típica dos nazis. Um dos participantes do grupo, que, porém, não quis identificar-se, explicou ao Contacto que "não há nenhuma intenção escondida. Estamos assim porque não aceitamos ordens da UNESCO e vestimo-nos assim porque é uma brincadeira com a palavra flamenga que quer dizer muro e também formiga".

Na parada, uma manifestação popular estridente com desfiles de carros alegóricos - em que a sátira se sobrepõe a valores estéticos - via-se por todo o lado um novo adereço: uma mistura do abat-jour das jeanettenstoet com os shtreimel de Israel e muitos narizes aduncos. Cá fora e nas redes sociais as acusações de que a extrema direita e o anti-semitismo encontraram uma incubadora em Aalst continuam.

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