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Na terra dos cemitérios perdidos
Opinião Sociedade 4 min. 30.06.2021
Canadá

Na terra dos cemitérios perdidos

Centenas de pessoas numa vigília num campo onde foram descobertas mais de 750 sepulturas não marcadas perto de um antigo internato católico para crianças indígenas, no oeste do Canadá.
Canadá

Na terra dos cemitérios perdidos

Centenas de pessoas numa vigília num campo onde foram descobertas mais de 750 sepulturas não marcadas perto de um antigo internato católico para crianças indígenas, no oeste do Canadá.
Foto: AFP
Opinião Sociedade 4 min. 30.06.2021
Canadá

Na terra dos cemitérios perdidos

Raquel RIBEIRO
Raquel RIBEIRO
O coração das trevas dos impérios coloniais não ficou, como muitos nos querem fazer crer, no passado. Tudo parecia enterrado: mas há valas comuns a serem literalmente descobertas.

Na mini-série documental para HBO, "Exterminate all the Brutes", o realizador Raoul Peck (dir. "I’m not your negro") lembra uma frase de Barack Obama em que o ex-presidente dos EUA, numa entrevista em 2009 na negociação do Processo de Paz da ocupação da Palestina por Israel, diz: "Por vezes cometemos erros. Nem sempre fomos perfeitos. Mas se olharem para o nosso historial, os Estados Unidos não nasceram como um poder colonial."

Peck traça importantes paralelos entre diferentes extermínios/genocídios coloniais em diferentes períodos históricos: da conquista da América ao genocídio indígena, da escravatura aos impérios coloniais europeus em África, do genocídio judeu na Europa à ascensão imperial dos EUA, do culto da supremacia branca aos impérios neo-coloniais na própria América, nomeadamente no Haiti, que é a nacionalidade do realizador.

Lembra que não só os EUA nasceram para ser um poder colonial, como a sua própria fundação enquanto nação, desde a independência à expansão consolidada no final do século XIX, foi feita sobre o extermínio de milhões de indígenas nos territórios onde hoje são os EUA (e o Canadá). Já antes, portugueses e espanhóis tinham feito o mesmo na América Central e do Sul.

Quando os povos não se confrontam com a sua história ela sempre regressa para os assombrar.

Não há nenhuma superioridade moral nessa "ignorância", como diz Peck: a superioridade dos ignorantes que inventaram para si mesmos a história de uma nação que nasceu gloriosa, tocada por Deus, sem sangue derramado. A mesma superioridade ignorante que fez com que, lembra Peck, os Estados Unidos tivessem a mão em golpes de estado, ditaduras sanguinárias e genocídios, um pouco por todo o mundo. A mesma superioridade ignorante que faz com que portugueses continuem de cabeça na areia a repetir que foram pioneiros na Abolição da escravatura, que não havia trabalhos forçados nas colónias até aos anos 60, ou que o império português era um grande oceano de amor inter-racial lusotropical.

Quando os povos não se confrontam com a sua história ela sempre regressa para os assombrar. Recentemente, o New York Times publicou uma reportagem sobre paisagens no Louisiana onde uma árvore ou um terreno estranhamente impossível de cultivar revelavam sítios que há 200 anos eram cemitérios de escravos. "Quando algo se torna invisível ou imperceptível, é mais fácil garantir-se que não existe", diz uma investigadora que está a mapear estes sítios de pertença e memória de toda uma comunidade, que agora as petrolíferas querem furar.

No Canadá, a descoberta, no mês passado, de uma vala comum com 215 corpos de crianças indígenas num orfanato, e as 751 campas anónimas de outra escola descobertas esta semana trouxeram literalmente à tona a política de extermínio do país nos últimos 200 anos. Não foi "só" no processo de "colonização": até ao final dos anos 90, o Canadá tinha como política retirar jovens indígenas às suas famílias para os educar, assimilar, aculturar em orfanatos religiosos, cortando ligações familiares, de língua e de cultura. Crê-se que 150 mil crianças indígenas tenham sido separadas das suas famílias.

Candelabros e bandeiras assinalam os locais onde foram encontrados os restos mortais de 751 pessoas na província de Saskatchewan.
Candelabros e bandeiras assinalam os locais onde foram encontrados os restos mortais de 751 pessoas na província de Saskatchewan.
Foto: AFP

O antigo diretor da Comissão de Verdade e Reconciliação, Murray Sinclair, um dos primeiros juízes indígenas do país, disse: "Precisamos de saber quem morreu, como morreram, quem foi responsável pelas mortes ou ao cuidado de quem estavam quando morreram. Precisamos de saber por que razão as famílias não foram informadas. E precisamos de saber onde as crianças foram enterradas." Murray avisou que o Canadá é uma espécie de terra de cemitérios perdidos e que as verdades enterradas podem ser bem mais devastadoras do que o que se imagina. Ou bem mais reais do que as mentiras que o país contou a si mesmo.

(Autora escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico.)


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