Campanha informativa no Luxemburgo

“A depressão é uma verdadeira doença”

Foto: Shutterstock

A depressão pode matar. Em 70% dos casos de suicídio, as pessoas sofrem de depressão. Para prevenir a doença que já foi considerada a epidemia do século, o Ministério da Saúde do Luxemburgo lançou uma campanha informativa sobre a depressão, integrada no Plano Nacional contra o Suicídio. Chama-se “Depression: Let’s talk” (“Depressão: Vamos falar”), e vai prolongar-se até final de 2018.

Em entrevista ao Contacto, Elisabeth Seimetz, responsável da Liga Luxemburguesa de Higiene Mental, mandatada para conduzir a campanha, desmistificou algumas ideias feitas sobre a depressão.

Quantas pessoas sofrem de depressão no Luxemburgo?

Segundo estimativas da Organização Mundial de Saúde, em 2015 havia cerca de 5% da população que sofria de depressão, ou seja, cerca de 25 mil pessoas.

Este número já inclui as chamadas “cifras negras”? Em muitos casos, as pessoas não procuram tratamento.

Sim, só cerca de 35% das pessoas que sofrem de depressão recebem um tratamento adequado.

É uma doença com grandes riscos. Sabe-se que na maioria dos casos de suicídio, as pessoas sofriam de depressão.

Sim, em cerca de 70% dos casos.

Quais são as ações previstas nesta campanha?

Vamos difundir cartazes e brochuras junto de médicos, farmácias e clínicas, mas também em empresas, nas escolas e nos serviços sociais no Luxemburgo. E vamos também organizar discussões em locais públicos.

Têm também um site com um teste de diagnóstico e informações úteis, em francês e alemão, mas há mais línguas previstas, incluindo português. Quando é que a versão em português vai estar disponível?

Infelizmente ainda não temos uma data prevista, mas em princípio durante o primeiro trimestre de 2018. Mas já temos uma brochura em português.

Quais são os principais sintomas de depressão?

Um dos primeiros sinais é que o humor da pessoa muda. A pessoa sente-se triste ou sem esperança. Há uma perda de interesse ou de prazer pelas coisas que a pessoa apreciava antes, há uma perda ou aumento de apetite, perturbações de sono. E pode haver uma agitação ou um abrandamento psico-motor, nas depressões graves. Há uma perda de energia. Frequentemente, a pessoa tem sentimentos de desvalorização e de culpabilização. São sentimentos que não se percebem do exterior, a menos que se fale com a pessoa. Outra coisa é que a atenção e a concentração diminuem: a pessoa pode esquecer-se de coisas e parecer estar mais ausente. E nos casos mais graves a pessoa pode ter pensamentos suicidas.

A depressão também tem sintomas físicos?

Sim. Sabemos que pode agravar a diabetes tipo II ou as doenças cardíacas, e vice-versa: estas doenças também agravam o risco de sofrer de depressão.

Apesar disso, muitas pessoas continuam a achar que não é uma verdadeira doença. Alguém que parte uma perna sabe que está doente, mas no caso da depressão, as pessoas ouvem muitas vezes que “têm de ser fortes”, “fazer um esforço”, apesar de isso não depender delas.

Sim, e é por isso que um dos objetivos da nossa campanha é aumentar os conhecimentos do grande público sobre esta doença e informar sobre a sua gravidade. É uma verdadeira doença clínica. As pessoas pensam muitas vezes que a culpa é delas, que não são suficientemente fortes, e não é assim. Queremos realmente passar a mensagem de que as pessoas não devem hesitar em pedir ajuda. Como diz, uma pessoa que parte uma perna sabe que tem de ser ajudada, mas infelizmente na depressão não pensam assim. Um dos principais objetivos da campanha é mostrar que é uma doença e que há tratamentos eficazes.

Quando se conhece alguém que sofre de depressão, o que se pode fazer para a ajudar?

Desde logo, ouvi-la, perguntar-lhe como está. O simples facto de a ouvir e de estar presente sem a julgar, pode aliviar a pessoa: ela sente-se menos só, mais compreendida, mais apoiada. Depois podemos informá-la, dar-lhe por exemplo uma das nossas brochuras, e dizer-lhe que há possibilidades de a ajudar. Mas às vezes é difícil convencer alguém a ir ao médico. É importante sublinhar que estamos presentes e dispostos a acompanhá-los. No nosso site há uma lista de contactos de várias estruturas, de hospitais e de serviços de consulta e terapia.

Na semana passada esteve em Portugal, no Porto, para participar num congresso europeu de saúde mental. Trouxe novidades de lá?

Fomos apoiados nesta campanha pela European Alliance Against Depression, formada por especialistas de vários países, nomeadamente para o conteúdo do site. No Porto houve a assembleia-geral da organização, com todos os Estados-membros. Eles trabalham neste momento na criação de uma ferramenta online para gerir a depressão ligeira, um programa de auto-gestão, e gostaríamos de trabalhar com eles para adaptar esta ferramenta ao Luxemburgo.

Paula Telo Alves