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Brasil: Coração, cabeça e estômago
Opinião Sociedade 4 min. 12.08.2022
Independência/200 anos

Brasil: Coração, cabeça e estômago

Independência/200 anos

Brasil: Coração, cabeça e estômago

Foto: Luis Acosta/AFP
Opinião Sociedade 4 min. 12.08.2022
Independência/200 anos

Brasil: Coração, cabeça e estômago

Raquel RIBEIRO
Raquel RIBEIRO
A viagem do coração de D. Pedro para o Brasil, no bicentenário da independência, continua a dizer muito sobre o quem-é-quem entre colonizador e colonizado.

Em 2005, fui cobrir para o jornal Público a abertura do Centro de Estudos Camilianos, em São Miguel de Seide, Famalicão, mesmo ao lado da Casa-Museu Camilo Castelo Branco, onde Camilo viveu com Ana Plácido, desde 1863 até à sua morte em 1890.

Lá conheci a professora Gilda Santos, especialista em literatura portuguesa e vice-presidente do Real Gabinete Português de Leitura, uma das bibliotecas mais magníficas do mundo, em revivalismo neo-manuelino, no Rio de Janeiro, que me contou do dente de Camilo nos seus arquivos.

Como assim, um dente? A história é algo insólita, ou não fosse camiliana. Nos arquivos camilianos do Real Gabinete estava um conjunto de livros e cartas de Camilo vendidos à biblioteca por um amigo de um familiar do escritor. Tendo ido a Portugal de visita (Camilo acabara de morrer), quis regressar ao Brasil com uma recordação do falecido. Foi a nora do escritor que lhe entregou o dente, explicando que Camilo sofria, por vezes, de dores de dentes tão incapacitantes que não conseguia sequer escrever. E tinha de chamar um médico para lhos arrancar. No Real Gabinete está em exposição essa "relíquia" incisiva, o dente, junto à carta "camiliana" que conta esta história.

Porque Camilo é importante? Porque em depósito na Irmandade da Lapa, no Porto, ao pé do revólver com que Camilo se suicidou, está também o coração de D. Pedro, I do Brasil e IV de Portugal, conservado em formol. E que agora será trasladado para o Brasil para as comemorações dos 200 anos da independência da antiga colónia portuguesa, com honras militares para o Palácio do Planalto, a pedido de Jair Bolsonaro.

A trasladação está a ser aproveitada por Bolsonaro para o seu espectáculo de violência e morte. Circula o abaixo-assinado de intelectuais contra a viagem do coração, que será exibido de forma quase mórbida nas celebrações do bicentenário, num momento crucial da política brasileira, véspera de eleições. O académico Renato Janine Ribeiro recordou o que se passou em 1972, em plena ditadura militar: "A extrema-direita é tão necrófila que, para os 150 anos de Brasil, pediu o cadáver de D. Pedro I – que percorreu o Brasil antes de ser sepultado no Ipiranga, só não passando por Pernambuco, dada a revolta que ainda causava por lá." Cinquenta anos depois do corpo, exibe-se o coração do monarca.


Coração de D. Pedro transladado para o Brasil a 21 de agosto
O coração que D. Pedro IV não está guardado a sete chaves, mas são precisas cinco pessoas e uma complexa operação para o retirar do mausoléu da igreja da Lapa.

É estranho dizer ainda do Brasil "antiga colónia". Mas não para uma ala da direita que, tanto em Portugal, como no Brasil, continua num tom tardo-colonial nostálgico tratando o empréstimo do coração do imperador do Brasil-rei de Portugal como momento solene entre "irmãos". O presidente Marcelo Rebelo de Sousa disse em Julho, em São Paulo, que "por um instante, vários corações portugueses e brasileiros pulsaram emocionados com o risco de o coração não poder vir porque Portugal não queria ceder o coração." Segundo o Presidente, esta relação entre Portugal e o Brasil "deixa o resto do mundo perplexo" porque é "sempre um problema de família".

No mesmo tom segue o presidente da Câmara do Porto, Rui Moreira, que decidiu escrever um delírio quase camiliano contra "os intelectuais de esquerda", atirando com o espantalho de "Cuba, Venezuela, Che Guevara", no fundo, o mesmo usado por Bolsonaro sempre que se fala de Lula e do PT: "Acresce que D. Pedro personifica os valores liberais da liberdade e do pluralismo a que esquerda radical é avessa. Traduzindo-se essa aversão no desrespeito institucional por governos democraticamente eleitos, como o brasileiro."

Nada como continuar a falar do Brasil como uma boa querela do século XIX: o Porto liberal, a guerra civil, Pedro e Miguel, liberais e absolutistas, as primeiras Constituições, a modernidade política, Portugal finalmente "europeu" ou finalmente "brasileiro"?, Brasil "país irmão", o "Reino Unido" de Portugal e do Brasil, o colonizador e o colonizado – e quem é quem, nesse jogo de espelhos?, é a pergunta que fica por fazer.

Ainda esta semana o investigador Gabriel Paquette explicava que "o fim do império não significa descolonização nem a cessação da influência mútua entre a ex-metrópole e a antiga colónia. O conceito de independência pode ocultar mais do que revela."

No entanto, a cobertura noticiosa do lado de cá continua a ladainha do "país do futuro" que falhou, da "democracia" que não se consolidou, do Brasil "por cumprir", esse "imenso Portugal" (cadê o espelho?), que nunca tem em conta essa "família" lusotropical incestuosa, a ausência de ruptura entre colonizador e colonizado, em que a estrutura do poder (de Lisboa para o Rio e, depois, Rio e Lisboa, simultâneo) é a que se mantém, afinal, até hoje. É essa a "democracia falhada" herdeira, afinal, da nossa, tão "liberal" e "moderna", apodrecida em formol como o coração do monarca.

(Autora escreve de acordo com a antiga ortografia.)


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