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Blackface. Crianças mascaradas de escravos num desfile em Tavira estão a propagar o racismo?
Sociedade 10 min. 27.02.2020

Blackface. Crianças mascaradas de escravos num desfile em Tavira estão a propagar o racismo?

Blackface. Crianças mascaradas de escravos num desfile em Tavira estão a propagar o racismo?

DR
Sociedade 10 min. 27.02.2020

Blackface. Crianças mascaradas de escravos num desfile em Tavira estão a propagar o racismo?

Ana B. Carvalho
Ana B. Carvalho

Na passada sexta-feira, dia 21 de fevereiro, mais de mil crianças desfilaram pelas ruas de Tavira para celebrar o carnaval e assinalar o arranque das comemorações dos 500 Anos da elevação de Tavira a cidade. Entre elas, estava um grupo de crianças da Escola-Jardim João de Deus que percorreu o trajecto amarrado por cordas e de caras pintadas de preto. Num cartaz que anunciava o disfarce do grupo lia-se: “Escravos”. A direcção da escola não quis comentar o sucedido. 

Pedro Schacht Pereira, Professor Associado de Estudos Portugueses e Ibéricos na Ohio State University, nos Estados Unidos, considera que o desfile de alunos em blackface - prática de escurecimento da pele para fins de entretenimento e caricatura - e de mãos acorrentadas num desfile de Carnaval “é um desastre e um enorme embaraço público”.  

Para o especialista, mesmo que não haja malícia por parte dos responsáveis esse facto não atenuaria "em nada o caráter pernicioso da prática". O que o sucedido ilustra “é que os professores não receberam formação adequada, e por isso estão agora a reproduzir nas gerações mais jovens a sua monumental ignorância sobre a história do blackface, uma história que está intimamente ligada à desumanização dos africanos e afrodescendentes na Europa e nos EUA”. 

Do seu ponto de vista, a escola expôs "a ignorância autocomplacente de quem promoveu aquele espetáculo" acrescentando-se a "humilhação" dos seus alunos. Pedro Schacht Pereira  considera que no caso de se tratar de uma situação de inocência evidenciada pelos adultos “que deveriam ser responsáveis”, isso não atenua a gravidade da situação, revelando “fonte de perplexidade e enorme preocupação pelo caminho que a educação está a seguir no Portugal de hoje”.

Uma opinião que não é compartilhada por toda a gente, o cómico Ricardo Araújo Pereira, sublinha a ideia que interessa o propósito a a forma como se faz essa imitação. Numa entrevista ao  jornal i em 2016, explicava o seu ponto de vista:   "O  blackface, em rigor, não é escurecer a pele para interpretar o papel de um negro. Blackface é uma caricatura grotesca de um negro, com os lábios grosseiramente exagerados, etc... O segundo ponto, o barulho que se gera à volta disso parece que se insere num ambiente cultural, muito inquietante para mim, em que do lado da esquerda há uma espécie de puritanismo em que há um certo antirracismo que consegue ser racista. O Guardian é uma espécie de bastião dessa maneira de pensar. Houve aquele caso do Bill Cosby [comediante negro que confessou sedar mulheres para as violar] e a Tina Fey e a Amy Poehler imitaram-no, numa cerimónia de entrega de prémios, e fizerem umas piadas sobre ele, enquanto imitavam aquela maneira de falar dele. Uma senhora escreveu um texto no Guardian a dizer o seguinte: 'não me interessa o que ele fez, uma pessoa branca a imitar uma pessoa negra nunca é aceitável'. Este raciocínio: 'eu não imito este senhor porque ele é negro' é obviamente parente do 'eu não cumprimento este senhor porque ele é preto'. Na base dos dois está a ideia que ele não é igual a mim.

Precedentes deste tipo de desfile

Esta não é a primeira vez que uma escola portuguesa desfila com alunos mascarados com caras pintadas de negro. Em 2019, a Escola do Godinho, em Matosinhos foi caso de polémica ao desfilar os seus alunos "fantasiados de africanos" no Carnaval. "Este ano os nossos alunos deverão ir fantasiados de africanos, uma vez que o tema do agrupamento são as raças", lia-se na nota que os pais receberam em casa.

Nota entregue aos pais dos alunos da Escola Básica do Godinho, em Matosinhos
Nota entregue aos pais dos alunos da Escola Básica do Godinho, em Matosinhos
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Para o Professor, os desfiles de carnaval podem justificar a validade pedagógica da prática, desde que uma avaliação cuidada caso a caso tenha sido feita. “O ato de produzir máscaras e disfarces pode ser enriquecedor, sobretudo se for acompanhado de informação de caráter histórico e antropológico que permita aos alunos tirar o máximo proveito dentro de padrões de grande exigência educativa”, algo que considera não ter acontecido em Tavira ou em Matosinhos, casos que evidenciam “que não só os alunos não foram expostos a esses padrões rigorosos, como sobretudo os professores (e os pais) carecem da formação necessária para que o desastre pudesse ter sido evitado”, afirma.

Luís Monteiro, deputado do Bloco de Esquerda, que já no ano passado criticou a escola de Matosinhos, também demonstrou indignação perante a situação em Tavira. "Todos os Carnavais, o Racismo expressa-se das formas mais perversas. A encenação de um ato de escravatura, ainda que caricatural, é a imagem de um privilégio branco que, usando-o, explora a História mas sempre na visão do vencedor e não do vencido, do que explorou e não do explorado", comentou ao Contacto.


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O que é o Blackface? 

Ricardo Vita, pan-africanista radicado em Paris e co-fundador do République et Diversité, escrevia há um ano no Público a propósito do desfile de Matosinhos"É isso o Blackface, pintar a cara de negro, desorbitar os olhos para criar um sentimento de medo e engrossar os lábios com pinturas vermelhas ou brancas. O objectivo é criar uma imagem ridícula do negro e isto tem um nome: racismo".  

O fenómeno blackface é uma prática com origens no racismo. Surgiu há cerca de duzentos anos nos Estados Unidos, num tipo de espetáculo teatral que ficou conhecido como “Minstrel show” onde a comédia, dança e música eram utilizadas por artistas brancos, maquilhados de preto para ridicularizar os afrodescendentes. Pedro Schaht Pereira define-o como “um caso agudo” daquilo a que se chama o "racismo recreativo: uma relativização de uma performance da raça que insiste na desumanização das pessoas negras".

 Jenée Desmond-Harris, num artigo publicado na plataforma norte-americana Vox Media, esclarecia o ato racista por de trás do ato de maquilhar a cara de preto, ao explicar que este tipo de espetáculos surgiram “no contexto de uma sociedade que maltratava e desumanizava sistematicamente os negros, ridicularizavam retratos que reforçavam a ideia de que os afro-americanos eram inferiores em todos os aspectos”. Infelizmente, a prática que recorda Jim Crow e as leis que codificaram a reinstitucionalização da segregação racial nos Estados Unidos da América, chegou a outros meios de entretenimento, incluindo a Broadway. 

Pedro Schacht Pereira, especialista na formação dos discursos imperiais e dos seus legados nas culturas pós-coloniais contemporâneas, na ficção portuguesa e brasileira dos séculos  XIX ao XXI bem como nas relações literárias e culturais entre os mundos de língua portuguesa e espanhola, explica ao Contacto as raízes do fenómeno blackface em Portugal: “Os primeiros espetáculos teatrais em que surgem personagens negras, com Gil Vicente, apostam na degradação e na sátira das pessoas negras por serem negras, quer seja através do exagero de características fenotípicas ou da ridicularização dos padrões do seu uso da língua portuguesa. Nos EUA, esses espectáculos vulgarizam-se antes e depois da abolição da escravatura no séc. XIX, e desde sempre são denunciados por personalidades negras como Frederick Douglass (1818-1895), que denunciou o seu “gosto decadente” e apropriação fraudulenta da dignidade das pessoas negras”, explica.

Para o docente da Universidade de Ohio, a história da prática de blackface é fundamental para elucidar as pessoas que não conseguem identificar maldade no acto de “brincadeira”: “É aí que a história da prática nos EUA é elucidativa e deveria ser mais conhecida. O riso perante uma pessoa de cara pintada de negro é o riso perante uma pessoa negra por ser negra. Não há liberdade de expressão que justifique o insulto racista, que é punido por lei. Num momento histórico caracterizado pela conquista de maior visibilidade das populações racializadas na sociedade portuguesa, a perpetuação desta prática parece-me particularmente perniciosa e antissocial”. 

“É perfeitamente compreensível que a escola quisesse sensibilizar os alunos e até a comunidade sobre aspetos menos edificantes da história comum. Mas a sensibilização dos alunos faz-se em sala de aula, com manuais escolares e materiais pedagógicos cientificamente validados, é para isso que estão habilitados os docentes. Pretender fazê-lo no contexto de uma prática/ritual satírico, isto é, não sério, é desde logo desvalorizar a missão pedagógica da escola através da ligeireza, que não do aligeiramento”. 

 Romantização do Imperialismo Português 

Em 2012, um estudo do Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade de Coimbra concluiu que os livros didáticos da disciplina de História em Portugal "escondem o racismo no colonialismo português e naturalizam a escravatura”.  Pedro Schacht Pereira não tem dúvidas que este discurso continua presente no sistema educativo português. 

“Os estudantes em Portugal não são expostos à história do envolvimento português no tráfico transatlântico de pessoas escravizadas, desde logo porque os seus professores tampouco o são. O campo científico da História da Escravatura é imensamente marginal em Portugal, por razões de ordem ideológica relacionadas com a longa duração da experiência colonial portuguesa em África”, explica. Na sua opinião, os docentes não recebem formação adequada nas faculdades, e por isso “é difícil fazerem um bom trabalho enquanto formadores da juventude no ensino básico e secundário no que a estas matérias diz respeito”. 

Ao Contacto, esclarece que a representação dos africanos em alguns dos manuais escolares circulantes no ensino português “está ao nível do discurso racista que imperava nos EUA em 1863, à época da emancipação dos escravos: são representados como produtos comerciais, não como pessoas a quem a liberdade e a dignidade foram violentamente sonegadas. E são representados também como receptores pacíficos de “civilização” europeia, não como sujeitos atuantes no tempo”. No entanto, refere que tanto nos arquivos, quantos as bibliotecas portuguesas - bem como no espaço público - encontram-se os vestígios daquilo que foi uma história “incrivelmente violenta”, precisamente o contrário daquilo pessoas “dos 7 aos 77 anos reproduzem alegremente” tal como “a ideia do país dos brandos costumes, ou a contradição do “colonialismo humano” e excepcional dos portugueses”. 

O docente garante que “desde o 25 de Abril de 1974 que a escola não fez nada, ou muito pouco, para educar a população portuguesa nos valores democráticos consagrados na Constituição” e daí que a ideia do “colonialismo humano” ter sido “usada precisamente para mascarar a hierarquização racial que sempre existiu em contexto colonial, mas também metropolitanoo”. Considera que esta foi uma manobra ideológica necessária à sobrevivência de um projeto imperial anacrónico. E frisa: “o ensino destas matérias não tem como objetivo promover "atos de contrição" ou de "autoflagelação coletiva"”. Pelo contrário, o contacto com as abundantes fontes primárias disponíveis “no rico património arquivístico nacional deveria servir para mostrar como dispomos de informação que nos permite conceber os antídotos para o alarmante crescimento da intolerância e de novas correntes fascistas na cena política nacional e internacional”.

Pedro Schacht Pereira acredita que o debate “informado, franco e descomplexado sobre a história colonial em todas as suas dimensões é aquilo que permite que a sociedade rejeite novas e/ou persistentes formas de colonização mental e assim possa de facto dar um passo significativo na superação de um longo complexo e na afirmação e aprofundamento da experiência democrática”.

 

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