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Biscoitos e saudades
Opinião Sociedade 4 min. 20.11.2020

Biscoitos e saudades

Biscoitos e saudades

Foto: Raúl Reis
Opinião Sociedade 4 min. 20.11.2020

Biscoitos e saudades

António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
A minha companheira de compras, que de portuguesa só tem os sapatos do Luís Onofre e o facto de gostar mais das praias algarvias do que eu, olhou para mim com aquele ar que só as eslavas conseguem encarnar. É um olhar entre desprezo, surpresa e fim de reino.

Ontem fui ao Auchan e descobri que vendiam Fidalguinhos. Se me tivessem perguntado: se tenho saudades dos Fidalguinhos, eu teria respondido não saber sequer de que se trata. Fidalguinhos? Não estou a ver...

Fui atraído, numa das zonas portuguesa do supermercado, pelos biscoitos da Paupério.

A Paupério era uma instituição quando eu era miúdo. Todos os produtos da fábrica de Valongo me agradavam. Ou, pelo menos, é assim que me lembro.

Entre o sortido da Paupério e as línguas de gato vi os Fidalguinhos. Felizmente, a embalagem era transparente. Pude ver a forma única daqueles biscoitos que fizeram as minhas alegrias de infância e adolescência. Uau! Fidalguinhos, disse excitado.

A minha companheira de compras, que de portuguesa só tem os sapatos do Luís Onofre e o facto de gostar mais das praias algarvias do que eu, olhou para mim com aquele ar que só as eslavas conseguem encarnar. É um olhar entre desprezo, surpresa e fim de reino. Nesses momentos, fico sempre a pensar que acabou tudo entre nós e tenho vontade de perguntar: por causa de um pacote de bolachas?! Tentei explicar. Estes biscoitos eram os meus preferidos quando era miúdo. Não me lembro onde se compravam; não sei com que frequência a minha mãe os trazia para casa; não recordo grande coisa sobre eles, mas a sua forma é inesquecível. Disse ainda que nem sequer me lembrava a que sabem mas que tenho memória de não poder parar de os comer...

Ela não passou cartão – que surpresa – e eu limitei-me a esperar que daqui a uma semana ela não me atire à cara que sou um chato, como naquele dia em que falei de biscoitos durante cinco minutos, sem pensar nas necessidades dela e que a nossa relação é feita de eu, eu, eu, eu, eu, eu, eu (sendo eu o eu que sou egoísta e que não pensa nunca em ela, ela, ela...).

Decidi ignorar os olhares esfíngicos e os meus pensamentos premonitórios.

Ela lá foi para o rayon biológico e eu continuei as minhas compras de biscoitos e chocolates.

Levei para casa um pacote de Fidalguinhos, mais um sortido da Paupério, e línguas de gato para alimentar um batalhão.

Minutos depois, chegado a casa, entrei numa reunião Zoom com amigos portugueses e falei-lhes nas minhas compras Paupério enquanto as arrumava nos armários da cozinha. Um deles, disse: que saudades. O outro, que ainda não tem uma geração de idade perguntou: o que é isso?

Eu e o meu amigo Zé rimo-nos e dissemos que ele era muito novo para saber dessas coisas. É como a Sanjo, disse-lhe eu. Tu não sabes o que são as sapatilhas mais cool de Portugal.

O Luís retorquiu que não era verdade, que quando era miúdo (ou seja, na semana passada) até usou Sanjos mas que se lembra que se estragavam depressa quando jogava futebol com elas.

Estás engando Luís, expliquei, fazendo uso do peso dos meus anos e da minha experiência tanto de Sanjos como de futebol! Não há melhor do que Sanjo, mesmo quando nos cortam a base do dedo grande à medida que andamos com elas. Não tem mal, põe-se um penso rápido. E dizes que se estragam? Compram-se outras.

A nossa reunião virtual transformou-se num debate sobre as razões que nos levam a desenvolver uma nostalgia sobre os produtos da nossa infância. Explanámos teorias sobre os produtos portugueses e a relação que os emigrantes têm com eles. Definimos estratégias de comercialização e promoção de alimentos lusos junto das comunidades. Se alguém do Auchan, do LIDL ou da Bexeb nos estivesse a ouvir teria obtido mais informação útil em cinco minutos do que em anos de relatórios de consultores.

Não vale a pena explicar aos estimados leitores desta coluna os detalhes da conversa, sob pena de merecer da vossa parte um esgar eslavo daqueles que acima descrevi. O que interessa é que eu e os meus amigos, em pouco tempo, fizemos propostas concretas para explicar como e mundo da emigração e dos produtos alimentares funciona e, inclusivamente, concordamos em algumas ideias para tornar o mundo um sítio melhor.

Porque explicar o mundo cansa, e mudá-lo consome ainda mais energia, depois da conversa com o Zé e o Luís decidi jantar.

Confirmando as teorias desenvolvidas minutos antes, fiz umas sandes de fiambre português com manteiga Mimosa. Sentei-me em frente à televisão a ver uma emissão na língua de Camões no YouTube e, de repente, lembrei-me dos Fidalguinhos. Não é tarde nem é cedo. Toca a abrir o pacote.

Comecei distraidamente a comer. Oh, já me lembro do sabor! E recordo as razões que me levavam a consumi-los em série como um alcoólico que se instala debaixo da torneia de uma pipa. São deliciosos e irresistíveis. São como as cerejas, só que não fazem mal à barriga se exagerarmos.

A emissão no YouTube acabou e passei para a Netflix. Tenho uns filmes para ver que já estão na minha watchlist há semanas...

Oh, acabaram-se os Fidalguinhos?! Comi um pacote inteiro! Bolas, nem dei por isso...

Um alerta no telefone recordou-me que tinha de escrever esta crónica. Vamos a isso. De que hei-de falar hoje? Que falta de inspiração. E esta dor de barriga que se está a instalar não ajuda nada. Que terei comido para estar assim empanturrado? Vou beber um calicezinho de licor Beirão que isto passa...

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