Bill Gates. Evitar o desastre climático vai ser a tarefa mais difícil da humanidade
Bill Gates. Evitar o desastre climático vai ser a tarefa mais difícil da humanidade
Num dos capítulos do livro que hoje foi posto à venda em 21 países, o fundador da Microsoft recorda os dois números mais importantes em relação às alterações climáticas. "O primeiro é 51 mil milhões. O outro é zero. 51 mil milhões são as toneladas de gases com efeito de estufa que a humanidade lança para a atmosfera a cada ano. Zero é onde queremos chegar". E se isto parece um objetivo muito difícil, é porque é.
Senão vejamos o que aconteceu em 2020 em que, devido à pandemia, a atividade económica e o movimento de pessoas se reduziram enormemente levando o mundo a emitir muito menos gases.
Mas, em vez de uma mudança drástica, alerta Gates, "a redução terá sido provavelmente de cerca de 5%. Em termos reais, teremos emitido o equivalente a 48-49 mil milhões de toneladas, em vez das 51 mil milhões".
Parar carros, aviões e a economia não chega
O exemplo da pandemia mostra quão difícil será para chegar aos objetivos de manter o aquecimento do planeta abaixo de 1,5ºC estabelecido pelo Acordo de Paris e chegar a emissões zero, no máximo, em 2050.
Por isso, Bill Gates alerta que para evitar a catástrofe climática - que acontecerá dentro de poucos anos se não se conseguir manter o aquecimento controlado - vai ser preciso muito mais que manter a economia semicongelada, os aviões em terra e os carros nas garagens.
A escala do maior problema que a humanidade enfrentou na sua existência, exige que cientistas, empresas e governos, alimentados pela opinião público e por financiamentos gigantescos, mudem setores básicos da economia. E essencialmente o sistema energético, e a produção de cimento e de aço – os grandes responsáveis pelas altas emissões.
Em entrevista ao jornal português Público, Gates refere que "mudar o nível de vida dos países ricos não resolve as alterações climáticas" e que o momento exige um nível de cooperação internacional. É preciso isso e muito mais: "Se o que precisássemos fosse uma redução de 20% ou 30% [das emissões], seria totalmente diferente do que é. Zero é como impedimos a temperatura de continuar a subir. Temos de trabalhar em todas as atividades que geram[emissões]e temos de o fazer em todos os países, incluindo o México, o Brasil, a Índia ou a Indonésia, onde ainda não se satisfazem as necessidades básicas".
O peso do aço e do cimento: prevaricadores pouco conhecidos
E para os países ricos, o mais importante neste momento, segundo Gates é aplicar todos os seus esforços e financiamento no desenvolvimento de soluções radicais que possam ser implementadas em grande escala.
Otimista em relação sobretudo à capacidade de inovação, o fundador da Microsoft, companhia da qual se desligou em 2008, refere que começou a interessar-se por clima e energia quando criou, em parceria com a mulher, a Fundação Bill&Melinda Gates.
Nessa altura derivou a sua atividade de empresário para a de filantropo. Levar a eletricidade aos países em vias de desenvolvimento foi uma das preocupações, mas rapidamente Bill Gates percebeu que teria que ter em conta os constrangimentos climáticos. E, para ele, é agora com a prova de um ano de confinamento, "os automóveis e a eletricidade são apenas cerca de 1/3 do problema".
E é na revolução das indústrias tradicionais do cimento e do aço, grandes geradoras de emissões, que os governos se devem concentrar. No livro explica a sua análise: "Os carros de passageiros representam menos de metade das emissões dos transportes, que pelo seu turno representa 16% das emissões no mundo inteiro. Entretanto, produzir aço e cimento representa cerca de 10% de todas as emissões".
Fissão nuclear: uma boa solução, com má opinião pública
Tal como já tinha dito na série da Netflix, "O Código de Bill Gates", o segundo homem mais rico do mundo defende o desenvolvimento da energia nuclear, em reatores de quarta geração, substancialmente mais seguros e capazes de satisfazer as necessidades cada vez maiores de energia a nível mundial.
Bill Gates refere o seu investimento na TerraPower, uma empresa que criou para desenvolver reatores de quarta geração e que poderão revolucionar a produção de energia em grande escala, quando as renováveis estão longe de corresponder às necessidades e sobretudo em processos industriais, como a produção de aço.
Mas é preciso convencer a opinião pública que a fusão nuclear de quarta geração é mais segura que a mineração de carvão ou os gasodutos de gás natural. Ao Público, refere "a aceitação pública será um enorme obstáculo a que a energia nuclear se torne uma grande parte da solução". Gates referiu que a TerraPower, conseguiu um subsídio da administração norte-americana, e está a construir um reator de demonstração nos EUA.
Bill Gates, salientou ainda ao Público estar muito entusiasmado com o trabalho que está a fazer com a Comissão Europeia, através da Breakthrough Energy (uma aliança que criou para desenvolver soluções energéticas de zero emissões).
E elogiou os planos da União Europeia de estabelecer 35% de investimento para a transição climática e de atingir a neutralidade carbónica em 2050. "Com este novo plano, a Europa tem um compromisso com coisas como o hidrogénio verde e combustíveis verdes para a aviação. É um plano bastante impressionante. É claro que têm de ter todos os países a bordo, incluindo os do Leste, mas o facto de terem estabelecido que um terço dos planos de recuperação é para as questões climáticas é positivo".
Uma missão para os próximos 10 anos
Outro dos motivos do otimismo de Bill Gates reside no facto de a pandemia não ter conseguido desviar a atenção da opinião pública sobre o desastre climático que se desenha no horizonte próximo.
"Quando a economia global entrou em recessão severa em 2008, o apoio público para a ação climática caiu a pique", escreve no Como Evitar um Desastre Climático. "Desta vez é diferente", sublinha. "Aparentemente, as nossas emissões já não são um problema que queiramos atirar para debaixo do tapete".
E a resposta é clara: "Devemos passar a próxima década a focarmo-nos nas tecnologias, nas políticas e nas estruturas de mercado que nos ponham no caminho de eliminar gases com efeito de estufa em 2050. É difícil imaginar uma melhor resposta ao miserável ano de 2020 que passar os próximos 10 anos dedicados a este ambicioso objetivo".
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