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Bilhete. O assassino e o macaco branco

Bilhete. O assassino e o macaco branco

Ilustração: Shutterstock
Editorial Sociedade 2 min. 04.04.2019

Bilhete. O assassino e o macaco branco

Gaston CARRE
Gaston CARRE
Constantemente surgem novas profissões: os assassinos "supremacistas", os "influenciadores" e os seus "followers", interminável cadeia do massacre por macacada.

Em 15 de março, Brent Tarrant massacrou 50 pessoas em Christchurch, na Nova Zelândia. Quem é Brent Tarrant? Os 'média' disseram-no: um "supremacista branco", pudemos nós ler por todo o lado. Supremacista, como diríamos camionista ou dentista. Brent Tarrant, supremacista ultra bright, estava escrito preto no branco.

Constantemente surgem profissões novas, que a coletividade cria em função das suas necessidades, reais ou supostas, das suas pulsões, boas ou más. O assassino de Christchurch é um supremacista, disseram-no os "média", daqui deduzindo eu que estava indicado nos seus artigos – profissão: supremacista. Os "média", desta forma, tranquilizam-nos: tinha uma profissão, este tipo, e uma convicção, era supremacista, o caso teria sido mais grave se Tarrant fosse um ocioso que matasse para se ocupar, massacrasse para matar o tempo.

Precisemos aqui que não convém confundir o supremacismo com o suprematismo, profissão antiga, no domínio da arte, na qual já em 1915 Kasimir Malevitch lançara o movimento, o suprematismo, com o seu quadro "Quadrado negro sobre fundo branco", mostrando a superioridade do quadrado sobre o fundo e do negro sobre o branco. Tudo na vida é questão de golpes e cores.

Outros exemplos de novas profissões: os "youtubers" e "influenciadores". Gosto muito de "influenciadores". O que é que fazes na vida? Influencio. Note-se aqui que o supremacista também é um influenciador – o supremacista influente é um acumulador, que exerce duas profissões e não declara nenhuma. Foram os "média" que o declararam: "O assassino é um supremacista", assegurando um serviço pós-venda em suplemento – o seu site tinha milhares de "followers", assinalam os "média", impressionados –, "é um sucesso", este Tarrant. Os "followers": mais um trabalho novo – que é que fazes na vida? Eu sigo, eu 'follow', logo sou, laudatio ergo sum (1).

Vimos todos que o supremacista de Christchurch estava munido de uma webcam, que se filmou em flagrante, matando em tempo real, ao vivo, se ouso dizê-lo, pelo que estamos perante um supremacista narcisista, supremacista com "C", narcisista com dois "SS". Quem assiste ao reality-show do nosso assassino armado com webcam? Os "followers"! Assim vai o círculo das novas profissões, que se engendram umas às outras, os supremacistas desiquilibrados dão à luz os seguidores, os "followers" convertem-se em influenciadores e os "média" encarregam-se de servir o espelho em que os narcisistas podem contemplar-se.

Porque os supremacistas, afinal, são imitadores, mimos brancos – o homem branco como 'pastiche', como artefacto, já Darwin o dissera: o homem é um macaco, profissão antiga.

1. No original, jogo de palavras entre os dois significados de "je suis", "eu sou" e "eu sigo", que se perde na tradução.

(Tradução: Paula Telo Alves)