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Bem da "maioria cristã" dita a retirada do especial Porta dos Fundos da Netflix
Sociedade 3 min. 09.01.2020

Bem da "maioria cristã" dita a retirada do especial Porta dos Fundos da Netflix

Bem da "maioria cristã" dita a retirada do especial Porta dos Fundos da Netflix

Foto: AFP
Sociedade 3 min. 09.01.2020

Bem da "maioria cristã" dita a retirada do especial Porta dos Fundos da Netflix

Teresa CAMARÃO
Teresa CAMARÃO
Juiz do Rio de Janeiro invocou o " nível de desrespeito, agressividade e desprezo pela fé e os valores dos católicos" da sátira, numa decisão que já mereceu críticas do Supremo Tribunal Federal.

Em declarações à BBC, o porta-voz do gabinete de comunicação da Netflix diz que a empresa ainda não foi notificada da decisão nem pretende comentar o acórdão do juiz desembargador do Rio de Janeiro que ordenou a retirada do especial de Natal do Porta dos Fundos da plataforma de streaming. 

A sátira Primeira Tentação de Cristo causou polémica por colar a imagem de Jesus à homossexualidade. A pedido do Centro Dom Bosco de Fé e Cultura, o magistrado carioca invocou a "honra e a dignidade de milhões de católicos" para censurar a produção. Na queixa que conta com mais de dois milhões de assinaturas, o centro conservador acusa a Netflix de "agredir a proteção à liberdade religiosa" ao lançar e exibir episódio "em que Jesus Cristo é retratado como um homossexual pueril, namorado de Lúcifer, Maria como uma adúltera desbocada e José como um idiota traído por Deus". 

A avaliação do tribunal é que "as consequências da divulgação e exibição da 'produção artística' são mais passíveis de provocar danos mais graves e irreparáveis do que sua suspensão". Citado pela imprensa brasileira, o acórdão vai mais longe e diz que "o nível de desrespeito, agressividade e desprezo pela fé e os valores dos católicos revelados no filme é indizível, sendo especialmente agravado pelo fato de ter sido lançado às vésperas do Natal, data sagrada para os cristãos de todo o mundo".

O magistrado Benedicto Abicair escreve que "estamos diante de um conflito claro entre valores, princípios constitucionais". Argumenta que "de um lado está o direito à liberdade de expressão artística enquanto corolário da liberdade de expressão e pensamento e de outro a liberdade religiosa e a proteção aos locais de culto e suas liturgias, consubstanciadas no sentimento religioso".  

A sátira com mais de 46 minutos foi alvo de críticas também fora do Brasil. Nas redes sociais, o número dois do governo da Polónia, Jaroslaw Gowin, pediu à Netflix a eliminação do episódio especial do catálogo global da plataforma. Anexou ao pedido um abaixo assinado com mais de 1,4 milhão de assinaturas recolhidas no país. 

No sentido contrário, os críticos da decisão não escondem a indignação suscitada pela ordem judicial. O youtuber Felipe Neto diz que "liberdade da cultura do Brasil acabou" e denuncia "o primeiro caso de censura que atinge um projeto gigantesco". Na publicação, o comediante lembra que a "esperança é um desembargador revogar ou o STF (Supremo Tribunal Federal) anular essa decisão estúpida".

 Também no Twitter, o realizador Rafinha Gomes, lembra que o "Brasil é um estado laico" e que, "nesse sentido", a decisão jurídica "é uma censura". 

Em reação à ordemassinada pelo tribunal carioca, o juiz do Supremo Tribunal Federal (STF) Marco Aurélio fala "numa barbaridade" sem amparo na Constituição brasileira. "Os ares democráticos não admitem a censura", disse à Globo.

Porta dos Fundos em silêncio

Até ao momento nenhum dos elementos do Porta dos Fundos reagiu. Numa nota divulgada na sequência do atentado à sede da produtora, em dezembro, os comediantes invocaram a liberdade de expressão.

O Porta dos Fundos "gostaria de reforçar nosso compromisso com o bom humor e declarar que seguiremos mais fortes, mais unidos, inspirados e confiantes de que o Brasil sobreviverá a essa tempestade de ódio, e o amor prevalecerá junto com a liberdade de expressão", escreveram a propósito do caso que também ultrapassou as fronteiras do Brasil com a Interpol a entrar nas buscas do suspeito do ataque executado com um explosivo caseiro. 

De acordo com o El País Brasil, a Polícia Federal pediu a intervenção da polícia de investigação internacional na captura do economista e empresário Eduardo Fauzi. Foragido desde 31 de dezembro, quando as autoridades do Rio de Janeiro tentaram cumprir o mandado de prisão, o principal suspeito do atentado pode ser preso por qualquer força policial do mundo. Estará na Rússia desde 29 do mesmo mês. 

O Ministério da Justiça já terá pedido formalmente ao Ministério das Relações Exteriores do Brasil que avance com o pedido de extradição do suspeito que terá ligações à extrema-direita brasileira.


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