Belmiro Narino, 1930-2017
Belmiro Narino, 1930-2017
O padre Belmiro Narino, que era capelão da comunidade portuguesa no Luxemburgo desde 1978, morreu na madrugada de 11 de janeiro, aos 86 anos, vítima de doença prolongada. O “padre Belmiro”, como era mais conhecido, estava hospitalizado desde outubro no Centro Hospitalar do Luxemburgo em Strassen, acabando por falecer na clínica de Eich, para onde tinha sido transferido dias antes.
Belmiro Nariño Figueira de Campos nasceu em Souto da Casa, concelho do Fundão, em 27 de novembro de 1930. Estudou no Fundão, na Guarda e em Roma, onde se doutourou em Filosofia. Foi ordenado padre diocesano em 2 de agosto de 1953. Foi professor no Seminário do Fundão, depois no Seminário Maior da Guarda e em Lisboa, tendo lecionado Português, Latim, Francês e Inglês, mas sobretudo Filosofia e História da Filosofia. Colaborou em vários jornais e revistas, como o Jornal do Fundão, neste ainda antes de 1974.
Adepto da liberdade e das encíclicas sociais de João XXIII, o seu ensino foi repudiado nos meados dos anos 1960 pelos bispos portugueses que apoiavam a ditadura do Estado Novo. Foi perseguido pela PIDE e constrangido a abandonar o país para o Reino Unido. Regressou clandestinamente e, com a ajuda da embaixada de França e do Núncio Apostólico, foi autorizado em 1965 a residir em Lisboa, na Igreja de São Luís dos Franceses, território da embaixada francesa.
Desiludido com a democracia instaurada pelo Movimento das Forças Armadas (MFA) em 1974, acompanhou a vaga de emigração portuguesa para o Luxemburgo, onde chegou em 1977. No Grão-Ducado foi um dos três primeiros docentes de Língua e Cultura Portuguesa no ensino secundário, a convite do Consulado de Portugal, atividade que exerceu durante 15 anos.
Colaborou entre 1978 e o final de 2016 com o Contacto, enquanto editorialista, tendo sido, durante 15 anos, redator principal. Fundou em 1980 com o apoio de Manuela Aguiar, na altura secretária de Estado das Comunidades, a Escola da Missão, que se destinava à alfabetização de adultos e a preparar para exame do 6° e 9° anos os alunos portugueses. Em 1981, cofundou com Joaquim Pinto de Sousa os Escuteiros de Santo Afonso, primeiro agrupamento português a ser criado fora de Portugal e único lusófono que perdura até hoje no Grão-Ducado. Em 1983, fundou o Centro Social e Cultural Português e o Rancho Folclórico do Centro. Fundou ainda, em 1986, a Conferência de São Vicente de Paulo no Luxemburgo. Iniciou, em 1990, uma ação chamada “Uma Família de Natal para Crianças sem Família”, que todos os anos encontrava famílias de acolhimento no Luxemburgo, durante a quadra natalícia para cerca de 30 órfãos vindos de Portugal. Em 1992, cofundou a Rádio Latina, da qual foi acionista, animador e cronista. Com o apoio do seu amigo, o padre Vítor Melícias, na altura presidente da União das Misericórdias Portuguesas, fundou em 1996, a Santa Casa da Misericórdia do Luxemburgo, onde foi provedor desde a fundação até 2013.
Em 2003 celebrou os seus 50 anos de sacerdócio com uma celebração de Ação de Graças no ’Centre de Loisirs’ em Steinsel, na presença de autoridades portugueseas, luxemburguesas e representantes eclesiásticos e do movimento associativo luso.
Em 2000 lançou o livro de posia “Rebanhos de Pedras e outrtros Poemas”, assinado Belmiro de Campos, e com prefácio do seu amigo de longa data, o padre Melícias. Em 2009 publicou “O Homem à beira do seu destino”, um livro de crónicas, muitas das quais foram editorais no Contacto. Dedicou essa obra aos “portugueses emigrantes no Luxemburgo, meus companheiros de 30 anos e meus concidadãos”, que foi prefaciada por José da Cunha Rodrigues, ex-procurador Geral da República, na altura juiz do Tribunal de Justiça da UE no Luxemburgo, pelo padre Melícias, e por Fernando Paulouro Nunes, diretor do Jornal do Fundão.
Pertencia à Ordem dos Frades Menores (OFM), também conhecida por Ordem dos Franciscanos. Foi distinguido com o grau de Oficial da Ordem do Mérito da República Portuguesa em 1989; recebeu em 2002, pelo seu trabalho na Missão Católica Portuguesa, o diploma de Mérito das Comunidades Portuguesas; em 2003 recebeu do Estado luxemburguês as insígnias de Cavaleiro da Ordem do Mérito, e em 2013 o título de Cavaleiro da Ordem da “Couronne de Chêne” (Coroa de Carvalho). Em 2012, foi entronizado na Real Confraria de São Teotónio, instituição laica, defensora do antigo espírito de cavalaria cristã, com a missão de divulgar a história e cultura de Portugal.
Na quinta-feira, foi celebrada na igreja de Bonnevoie uma missa de corpo presente, celebrada em conjunto pelo arcebispo do Luxemburgo, Jean-Claude Hollerich, e pelo padre Sérgio Mendes, da Missão Católica Portuguesa. A igreja registou lotação esgotada, com mais de uma centena de pessoas a quererem prestar uma última homenagem ao pároco que passou quase 40 anos no Luxemburgo, a exemplo do cônsul de Portugal, Rui Monteiro, e do ministro da Justiça, o lusodescendente Félix Braz.
O funeral teve lugar no sábado na terra natal do padre Belmiro, Souto da Casa (concelho do Fundão), na presença do bispo da Guarda, Manuel da Rocha Felício, e do padre Melícias.
JLC
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