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Avenida da Liberdade: Heróis cívicos
"O poder politico devia ser mais justo e não esquecer aqueles que, por viverem longe, têm a sua capacidade reivindicativa reduzida".

Avenida da Liberdade: Heróis cívicos

Foto: Manuel Dias
"O poder politico devia ser mais justo e não esquecer aqueles que, por viverem longe, têm a sua capacidade reivindicativa reduzida".
Editorial Sociedade 3 min. 25.07.2018

Avenida da Liberdade: Heróis cívicos

Sergio Ferreira Borges
Sergio Ferreira Borges
Chegou o tempo das férias e, com elas, o momento do regresso a Portugal desses heróis cívicos que, no Luxemburgo e noutras paragens, conseguiram fintar as desventuras de um país pobre que nunca lhes deu o que mereciam.

Sou suficientemente velho para me recordar do êxodo dos anos 60 do século passado, quando muitos portugueses voltaram as costas às dificuldades e rumaram aos países do centro da Europa, à procura de um sustento digno que lhes era negado no Portugal de Salazar.

Recordo, já na juventude, a minha primeira viagem a França, num autocarro cheio de emigrantes que me transmitiram a sua experiência e me explicaram qualquer coisa sobre um país que me era absolutamente desconhecido. Comigo, viajava o meu grande amigo Carlos Correia (Boris) que foi, ao longo de muitos anos, o guitarrista de Zeca Afonso. Apesar da juventude, era uma mente lúcida que o levaria à cátedra de Engenharia, na Universidade de Coimbra. Morreu há algumas semanas, deixando-me muitas recordações.

Algumas remontam a essa viagem. Não foram precisas muitas horas de estrada para o Boris me dizer que aqueles homens eram uns verdadeiros heróis, de coração grande. Durante dois dias, vivemos enlatados dentro de um autocarro, comendo e bebendo do farnel dos nossos companheiros e ouvindo as suas histórias de vida. Gostavam da França que os tinha acolhido, mas adoravam Portugal que era a sua casa por direito próprio que, às vezes, parecia não ser reconhecido.

Um deles perguntou-nos se íamos fugir à tropa. Dissemos que não e era verdade, como o futuro de ambos veio a provar. Mas alguém, entre aquela gente, dotado de uma lucidez ímpar, achou que aquilo não era conversa para uma viagem. Sabia que existiam razões de segurança que deviam ser preservadas.

Anos depois, como repórter, fui esperar os nossos heróis à velha estrada de Burgos. Ouvi e reportei histórias de vida épicas e comecei a perceber que os portugueses tinham triunfado, tinham-se imposto, em países como Alemanha, França, Luxemburgo, Holanda e Suíça. A mala de cartão era uma lenda, que já não tinha qualquer correspondência com a realidade. Os emigrantes ganharam então um lugar na minha galeria de heróis cívicos, como já escrevi, nesta coluna.

Neste século, chegou também a minha vez de experimentar o estrangeiro, primeiro no Luxemburgo, depois em França. E aí encontrei uma realidade que Portugal ainda desconhece: comunidades fortes, integradas nas sociedades locais, em muitos casos com um poder económico respeitável que levou muitos a lançar-se na aventura de constituir empresas de sucesso. Conseguiram de tal modo inverter aquilo que parecia ser uma lógica irredutível de vida que passaram a ser eles a dar emprego a franceses e a luxemburgueses.

Muitos outros são hoje quadros superiores em grandes empresas, nas áreas da indústria, da banca e dos seguros. E até o futebol português beneficiou do talento de muitos portugueses nascidos na diáspora.

Portugal continua a ter uma economia débil, apesar de alguns progressos trazidos com a integração europeia. Por isso, continua a precisar do dinheiro dos emigrantes que ainda hoje, com os seus investimentos, remessas e estadias de férias, são o mais sólido fator de desenvolvimento económico de algumas regiões. E precisa de mais. Precisa dos conhecimentos, da experiência, da capacidade realizadora destes portugueses, com o objetivo de criar empresas que contribuam para o crescimento nacional.

Mas até hoje, 44 anos depois do advento da democracia, o país não foi capaz de adotar uma política que estimulasse o regresso dos portugueses. Por exemplo, dar-lhes um conjunto de incentivos fiscais que já são concedidos às multinacionais que se instalam em território nacional. Portugal tinha muito a beneficiar com isso. Nunca o fez e fica-se pela retórica do elogio fácil e circunstancial para depois deixar tudo como sempre esteve. O poder político devia ser mais justo e não esquecer aqueles que, por viverem longe, têm a sua capacidade reivindicativa reduzida.


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