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Ativismo de hashtag
Opinião Sociedade 4 min. 09.12.2020

Ativismo de hashtag

Ativismo de hashtag

Foto: Britta Pedersen/ZB/dpa
Opinião Sociedade 4 min. 09.12.2020

Ativismo de hashtag

Raquel RIBEIRO
Raquel RIBEIRO
Uma campanha de hashtags nas redes sociais serve uma mobilização momentânea. Mas serve sobretudo interesses de grandes corporações donas dessas mesmas redes. Uma crónica de Raquel Ribeiro.

A internet pode ser espaço de consensos mobilizados por hashtags que agregam grupos, interesses e agendas que servem, até certo ponto, de amplificador de vozes geralmente ignoradas – minorias, movimentos identitários ou interseccionais. Mas sabemos como as redes capitalizam das vulnerabilidades desses mesmos grupos que o mainstream mediático gosta de afirmar "à margem". As redes demonstram que o mundo corporativo é maleável e adaptável, incorporando diferença nas suas estruturas. Reduzem a hashtags resistências legítimas – lutas por direitos de mulheres, negros, indígenas, LGBTQ+ –, em campanhas cooptadas por empresas que recolhem os nossos dados, e cujo objetivo é engolir e regurgitar como algo seu um processo de integração que mantém o status quo.

O livro "#HashtagActivism: Networks of Race and Gender Justice" (MIT Press) faz uma apologia do ativismo de hashtag, das Primaveras Árabes ao #metoo, do Occupy Wall Street ao #Blacklivesmatter. O hashtag tem mobilizado redes sociais enquanto espaço alternativo de lutas e reivindicações, dizem. A jornalista Amber A'Lee Frost reagiu, na revista Catalyst, perguntando até que ponto os hashtags se traduzem em vitórias para os movimentos que dizem representar. Com as suas limitações ou instrumentalizações, uma campanha de hashtags é, no fundo, um exercício de networking liberal: "Oferece reconhecimento entre pares, a ilusão de poder, potencial para absolvição moral, e, por vezes, porque é suficientemente conveniente, vantagens profissionais para ascensão na carreira de progressistas colarinho-branco."

É um pouco como quando o objetivo de uma feminista é ser chefe da sociedade de advogados para ter direito a um corner office, e assim passar por cima de anos de lutas de mulheres sobre salário, paridade, licenças de maternidade – hashtag #womensrights. Ou quando a nossa empresa nos exige jornadas de 12h mas depois nos oferece um curso de meditação ou retiro espiritual numa montanha da Escócia – hashtag #mindfulness.

É típico do capitalismo tardio reconhecer dissidência no seu seio, e, através de campanhas de "funcionário do mês" ou hashtags em redes sociais, tragar essa diferença num sistema que inerentemente exclui e desumaniza o pobre, o preto, a mulher, o indígena, o gay. O objetivo é sentirmo-nos integrados, ouvidos, num exercício de distração que nos isola e fragmenta, dando-nos a ilusão de solidariedade quando, no fundo, o sistema perpetua precisamente o adiamento de mudança porque a nossa queixa deu enfim entrada burocrática em secretaria: uma lista, estatística de inquérito, reconhecimento de anomalia, apontada solução, talvez, na nomeação de uma mulher ou um negro para chefia? Acalmam-se ânimos, apaziguam-se exigências. E mudança estrutural do sistema?

O problema do ativismo de hashtag é partilharmos conteúdos desde o nosso sofá. Lá fora, as massas em partidos políticos, sindicatos, associações, NGOs, estão em força contra as investidas brutais do neo-liberalismo, a dar o corpo, por vezes, a vida, em greves, barricadas e protestos que nós só apoiamos em retweets, mudando por horas a nossa foto de perfil, gerindo do conforto do teletrabalho uma indignação com prazo de validade determinado pelo agenda-setting. 

Entre a sopa dos miúdos, pôr a roupa a lavar, scroll no Twitter ou Facebook, facilmente daremos "estrelinhas" a este excelente protesto, pela sua magnitude ou espetacularidade, impacto de imagens ou importância da causa por uma #sociedademelhor. Mas em nenhum momento saltamos do ativismo de hashtag para uma qualquer mobilização que não esteja manipulada pela forma como nos dizem que hoje se deve fazer política.

O movimento Black Lives Matter começou em 2013, após o assassinato de Trayvon Martin e foi significativamente reativado este ano com o assassinato de George Floyd, os protestos que se lhe seguiram, nos EUA, em todo o mundo. O hashtag de 2013 e 2020 é o mesmo: a mesma brutalidade policial, o mesmo modus operandi, as mesmas estatísticas, a mesma violência, sete anos depois. O que mudou para que negros não sejam eliminados às mãos do estado?

O movimento BLM tem, contudo, inúmeras ramificações online. O sindicato a que pertenço, por exemplo, endereçou uma soma significativa para o BLM. Uma pesquisa no Reino Unido diz-me que há, pelo menos, dois BLM-UK. Um gere a página blacklivesmatter.co.uk que diz não ter qualquer associação ao BLM USA, nem com a conta twitter @ukblm, que se registou recentemente como partido político "Black Liberation Movement UK". No entanto, lá está a página do merchandising (tshirts, pins, bonés com #BLM), para doações. O dinheiro do meu sindicato terá ido para campanhas de social networking managers, como agora se diz, de um desses grupos? Talvez, mas eu continuo a ver negros torturados, assassinados impunemente às mãos do estado: no Reino Unido, nos EUA, em Portugal. Nada contra mobilizações espontâneas ou doações generosas, mas o sistema não mudará sem organização política profunda muito para lá do hashtag.

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