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AstraZeneca. Ascensão e má fama
Sociedade 6 min. 07.04.2021

AstraZeneca. Ascensão e má fama

AstraZeneca. Ascensão e má fama

Foto: Matthias Bein/dpa-Zentralbild/dp
Sociedade 6 min. 07.04.2021

AstraZeneca. Ascensão e má fama

Telma MIGUEL
Telma MIGUEL
De melhor esperança contra a covid-19 à luta da Europa pelas doses contratadas. A vacina que deixa o mundo está em suspenso: provoca coágulos mortais ou não?

Quando foi anunciado que em julho de 2020 começaria a ser testada em humanos, a vacina da Universidade de Oxford em parceira com o laboratório anglo-sueco AstraZeneca foi recebida como uma maravilha da ciência. Tinham passado seis meses desde que a Organização Mundial de Saúde (OMS) fora oficialmente notificada de um novo vírus em Wuhan e, no momento – e ainda agora – a vacina era a melhor esperança para o mundo. Hoje, a vacina da AstraZeneca está a ser investigada pela suspeita de que poderá causar coágulos mortais.

Um começo brilhante e um prémio igual ao de Churchill

À frente da equipa, uma virologista com 25 anos de experiência, que trabalhou noite e dia durante meses. Ao jornal inglês The Independent, Sarah Gilbert contou que com a parada tão alta (potencialmente salvar milhões), é fácil encontrar motivação. Isso, a experiência profissional a desenvolver vacinas contra a gripe e novos vírus, e o arcaboiço que cuidar de trigémeos lhe deram.

Criar a vacina foi rápido. Mas porque a preparação para desenvolver um antídoto contra a mítica Doença X (já se sabia que estava a vir uma infeção com potencial de pandemia) não começou com as notícias de Wuhan. Segundo disse Sarah Gilbert à BBC, a luta contra este coronavírus arrancou no final de 2016, quando o surto de ébola no Congo matou 11 mil pessoas, para frustração dos virologistas no mundo inteiro. O Instituto Jenner da Universidade de Oxford começou então a desenhar uma estratégia para enfrentar o desconhecido. 

Quando a covid-19 surgiu e se percebeu que era este o inimigo público número 1 que os cientistas temiam, a estratégia de Oxford já estava em marcha. Em vez de usar a técnica das vacinas convencionais – com vírus mortos ou fragmentos do vírus da doença – os cientistas do Instituto Jenner criaram uma vacina através de um adenovírus de chimpanzé, que é modificado para não infetar os humanos e, ao qual é adicionado o código genético da doença específica contra a qual a vacina quer lutar.

A vantagem da técnica é que é fácil transformar o soro de base para adaptar para os vírus que for preciso. Antes da covid-19, a ChAdOx1 já tinha sido dada a 330 pessoas para lutar contra o vírus do zica, do cancro da próstata e da doença tropical chikungunya.

Na próxima quarta-feira, dia 14, Gilbert irá receber a Albert Medal da britânica Royal Society of Arts (RSA), uma medalha criada em 1864 e destinada a premiar pessoas nos vários campos com contributos extraordinários para a humanidade, como Marie Curie, Stephen Hawkins ou Winston Churchill. Matthew Taylor, diretor da RSA, salientou que a Albert Medal “celebra o melhor da inovação e a vacina de Oxford é um triunfo enorme da criatividade britânica, investigação e desenvolvimento”. Mas as mais recentes avaliações podem ensombrar a cerimónia.

Uma guerra, o brexit, relações azedas

Enquanto no Reino Unido a vacina de Oxford/AstraZeneca era celebrada, na União Europeia foi olhada com suspeita. Desde o início. Primeiro foi o imbróglio jurídico e político. A 29 de janeiro, dia em que foi aprovada pela Agência Europeia do Medicamento (EMA) para uso nos países da União Europeia, já tinha estalado a guerra entre a Comissão Europeia e a farmacêutica. A comissária europeia para a Saúde, Stlella Kyriakides, avisara no dia anterior que "isto não é um talho, em que quem chega primeiro é atendido antes". 

A frase veio a propósito de uma entrevista do CEO da empresa, Pascal Soriot, a um jornal italiano no qual disse que a equipa negocial da UE tinha fechado o contrato três meses depois do Reino Unido e por isso teria menos prioridade. Uma semana antes, Soriot avisara as autoridades que devido a falhas na produção da fábrica belga, a União Europeia não teria direito a todas as doses contratadas para a primeira fase de entregas. A Comissão Europeia salientou que o Reino Unido estava a obter o fornecimento completo, enquanto a Europa estava a ver os navios a passar e, alegadamente, com uma falha de 75 milhões de doses. Com o recente acordo de pós-Brexit ainda na memória, esta luta pelas vacinas tornou-se a primeira grande guerra comercial entre os agora dois blocos.

Quem quer uma Vaxzevria? Investigação e mudança de nome

Mas mal a guerra entre os dois lados do Canal da Mancha tinha acabado, outra começava. A da reputação. No relatório da EMA, a vacina Oxford/AstraZeneca foi avaliada como tendo uma eficácia de 60%. A da Pfizer/BioNTech foi aprovada a 21 de dezembro de 2020, tendo a EMA registado uma eficácia de 95%. E a vacina do laboratório norte-americano Moderna foi aprovada a 6 de janeiro com uma eficácia de 94,1%. Finalmente, a 11 de março, a vacina Janssen foi aprovada, tendo sido registada uma eficácia de 67%. Vantagem competitiva da AstraZeneca: é mais fácil de armazenar, não tendo que recorrer às temperaturas extremamente baixas das vacinas da Moderna e da Pfizer.

A vacina da AstraZeneca sofreu sérios reveses quando foram reportadas mortes com casos raros de coágulos sanguíneos e baixo número de plaquetas. No princípio de março, oito países europeus suspenderam a vacinação com a AstraZeneca, após a morte de uma enfermeira alemã de 49 anos. Ao todo, foram reportadas 9 mortes com casos raros de coágulos, embora não tenha sido na altura clarificada a ligação entre a toma e os óbitos. Finalmente, no dia 18 de março, Emer Cooke, numa conferência seguida por todas as capitais da UE, anunciou que depois de analisados os dados, a vacina não aumenta o risco de coágulos sanguíneos em geral. 

"Mas ainda não podemos excluir definitivamente uma relação com casos raros que surgiram", disse. Tanto a EMA como a OMS consideraram que os riscos de morrer com covid-19 eram muito maiores do que os de morrer com a vacina, e que as campanhas de vacinação deveriam ser retomadas, embora os estudos sobre o que se tinha passado continuassem. No final de março, a vacina da AstraZeneca mudou oficialmente de nome para Vaxzevria.


De chaque flacon AstraZeneca, les infirmiers peuvent tirer 10 doses de vaccin anticovid.
OMS. Benefícios da vacina AstraZeneca superam riscos
Os benefícios do uso da vacina contra a covid-19 da AstraZeneca superam os riscos, de acordo com os dados mais atuais, considera a Organização Mundial de Saúde (OMS), que admite para os próximos dias uma "avaliação mais conclusiva".

Esta terça-feira, dia 6, nova notícia bombástica: Marco Cavalieri, responsável da estratégia de vacinas da EMA, confirmou a existência de um "elo" entre a vacina da AstraZeneca e os casos de trombos atípicos observados após a sua toma e que terão provocado mortes em população abaixo dos 50 anos. E anunciou ainda uma nova reunião de emergência da EMA que terminará a 9 de abril, próxima sexta-feira.

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