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Astrónomos criticam Elon Musk por mudar o céu como o vemos atualmente
Sociedade 5 min. 18.06.2019

Astrónomos criticam Elon Musk por mudar o céu como o vemos atualmente

Astrónomos criticam Elon Musk por mudar o céu como o vemos atualmente

Foto: AFP
Sociedade 5 min. 18.06.2019

Astrónomos criticam Elon Musk por mudar o céu como o vemos atualmente

Bruno Amaral DE CARVALHO
Bruno Amaral DE CARVALHO
Nuvem de satélites que projeto do empresário vai gerar pode alterar irremediavelmente a visão que temos das estrelas.

O mundo da astronomia entrou em estado de alerta devido aos planos da empresa aeroespacial SpaceX, fundada pelo bilionário Elon Musk, de colocar em órbita uma constelação de cerca de 12 mil satélites antes do fim da próxima década, noticiou o El País. 

O projeto, batizado de Starlink, permitirá conexões da internet em praticamente qualquer ponto do planeta, mas também poderá alterar irremediavelmente a visão das estrelas para toda a humanidade. 

Existem hoje cerca de 18 mil objetos de mais de dez centímetros que orbitam a Terra. Desses, dois mil são satélites em funcionamento, sendo que o resto é lixo espacial: satélites desativados, restos de foguetes e fragmentos procedentes de colisões e acidentes. De todos esses artefatos, apenas cerca de 200 podem ser observados a olho nu, explica o jornal espanhol. 

A concretizarem-se os planos de Musk isso significaria, na prática, duplicar o número de objetos na órbita baixa da Terra, onde co-habitam a Estação Espacial Internacional (ISS, em inglês) e o telescópio espacial Hubble. Empresas como a Amazon, Telesat e Oneweb já anunciaram também a sua intenção de criar constelações similares, cada uma delas formada por milhares de satélites. É possível que dentro de dez anos vejamos no céu noturno mais satélites artificiais do que estrelas. 

A SpaceX deu o primeiro passo a 23 de maio passado quando lançou os primeiros 60 satélites a bordo do foguete Falcon 9, de fabricação própria. Cada um dos satélites pesa 227 quilos e conta com um painel solar que carrega as baterias, mas que também pode refletir a luz do sol para a Terra. Dependendo do ângulo de incidência da luz solar, durante alguns instantes o brilho dos satélites poderia superar o de qualquer outra estrela. Embora os planos da SpaceX não sejam secretos, pouco depois do lançamento começou a soar o alarme entre os aficionados da astronomia e os astrónomos profissionais, à medida que vários vídeos dos satélites a cruzar lentamente o céu noturno se tornaram virais. Nesse momento, o brilho era semelhante ao da Estrela Polar. 

Enquanto a indignação se propagava nas redes sociais, Musk afirmou no Twitter que os satélites só seriam visíveis ao amanhecer e ao entardecer, quando ainda refletiriam a luz solar devido à sua altitude; durante a noite, ficariam ocultos pela sombra da Terra. Musk, contudo, pode estar errado.

"A preocupação é que, em certos momentos do ano, os satélites possam ser vistos durante a noite toda", explicou ao El País o cientista norte-americano Patrick Seitzer, da Universidade de Michigan, um dos principais especialistas em monitorização do lixo espacial. De acordo com Seitzer, os satélites de Musk poderiam ser vistos durante toda a noite em algumas ocasiões, dependendo da geometria de sua órbita e da posição do sol em relação à Terra. "No Hemisfério Norte, entre maio e junho, podemos ver a Estação Espacial Internacional passar quatro ou cinco vezes por noite, não só durante o crepúsculo", afirmou. "A ISS é um satélite numa órbita. Se houvesse outros 10 mil ou 15 mil... bom, você entende por que estamos preocupados". 

O investigador explica ainda por que a ideia de Musk pode dificultar a vida aos investigadores astrónomos. Durante as observações astronómicas, costuma-se utilizar tempos de exposição longos, permitindo que os telescópios absorvam luz durante minutos ou até horas. Assim, é possível ver melhor objetos distantes ou pouco luminosos. Se um satélite passar na frente precisamente nesse momento, o que aparece na imagem é uma linha brilhante, tal como os faróis de um carro numa foto noturna. E se isso acontecer, o mais comum é que a imagem fique inutilizada para uso científico e que a observação tenha de ser refeita, o que aumenta os custos e nem sempre é possível. 

O segundo tipo de problema é mais difícil de avaliar e controlar. Trata-se da poluição eletromagnética que esses satélites produzirão ao emitir ondas de rádio para comunicar entre si e enviar o sinal da internet à Terra. Essas ondas poderiam interferir nos radiotelescópios, grandes antenas que captam os sinais de rádio que chegam do universo até nós. Um exemplo desses aparelhos é o telescópio IRAM Pico Veleta em Sierra Nevada, Granada (Espanha), uma antena de 30 metros que integra a rede global de telescópios e que obteve a primeira imagem de um buraco negro, publicada em abril de 2019. Como os radiotelescópios são muito sensíveis à poluição eletromagnética, são normalmente construídos em regiões isoladas, longe de qualquer tecnologia humana. O projeto de Musk ameaça precisamente a existência dessas "zonas tranquilas", já que os satélites darão cobertura a todo o planeta. 

O Observatório Nacional de Radioastronomia dos EUA (NRAO, na sigla inglesa) anunciou que já colabora com a SpaceX para tentar mitigar o possível impacto des projetos como este na radioastronomia. Entre as soluções em estudo estão a criação de 2zonas de exclusão" onde os satélites deixariam de emitir e a não utilização das frequências mais interessantes para os cientistas, refere o El País. Se as constelações de satélites forem desenvolvidas sem controlo poderão ocupar frequências ainda não utilizadas para investigação, mas que seriam exploradas à medida que surgissem novos instrumentos. "Na prática, corremos o risco de que essas constelações preencham janelas de observação que não poderão ser exploradas no futuro", explicou ao jornal espanhol o investigador José Luis Gómez, do Instituto de Astrofísica da Andaluzia (IAA). Segundo Gómez, a situação devia ser discutida entre as empresas interessadas e a União Astronómica Internacional (IAU, na sigla inglesa), principal associação mundial de astrónomos. "Pensava que isso teria sido muito bem negociado, mas vemos que não foi assim", lamentou. 

Mesmo que se chegue a um compromisso para evitar os possíveis danos nas investigações astronómicos, o facto é que algumas empresas privadas têm capacidade de mudar, de uma vez só, o aspeto do céu noturno para toda a humanidade. Até agora, só precisaram de conseguir autorização de um único governo (neste caso o americano), sem que tenha havido nenhum tipo de debate público a este respeito. Já Musk afirmou no Twitter que oferecer conexão da internet a zonas remotas é um "bem superior".  

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