Assegurar o ensino da catequese fora da escola, o novo desafio da Igreja no Luxemburgo

Foto: Shutterstock

A partir deste ano escolar, que arranca na sexta-feira, vai deixar de haver aulas de ensino religioso na escola pública no Luxemburgo, sendo substituídas por uma disciplina de “vida e sociedade”. Um ’murro no estômago’ que a Igreja teve de suportar, no âmbito das reformas do Ensino que o Governo tem vindo a implementar.

Patrick De Rond, diretor da catequese, anúncio da fé e coodenador do catecumenato dos adultos da Igreja no Luxemburgo, assume a ’dor’ provocada pela abolição do ensino religioso, mas garante que “entre setembro e outubro vai ser colocado em prática, nas paróquias, um sistema de catequese em três ciclos para as crianças dos seis aos 12 anos, sem esquecer jovens e adultos”.

Este novo sistema vai ser ministrado por 40 professores, pagos pelo Estado, que davam aulas de religião nas escolas públicas e que optaram por ficar na Igreja, mas cujos vínculos não serão renovados depois de estes atingirem a idade de reforma.

“Este é um desafio importante para a Igreja”, considera De Rond, que vai contar “com o apoio de auxiliares voluntários nas respetivas paróquias”. “Estou a lembrar-me da comunidade portuguesa, que já tem grande experiência na matéria, segundo as diretivas traçadas pelo Arquidiocese. Naturalmente que dentro de 15 ou 20 anos vamos ter de substituir os catequistas titulares pelos auxiliares, que deverão ser acompanhados através de formações que os capacitem a desempenhar da melhor forma as suas funções”.

Para o responsável da catequese da Igreja Católica no Luxemburgo, o novo sistema “constitui uma proposta mais profunda e completa em comparação com o ensino religioso que era ministrado nas escolas”. “Através deste modelo de catequese, pretendemos proporcionar às crianças, jovens e adultos um verdadeiro encontro com Cristo e um maior e mais efetivo aprofundamento da fé”, modelo que vai ser “acompanhado e avaliado nos próximos dois, três anos”.

“A nossa proposta para os jovens vai estar ao mesmo nível de muitas outras solicitações de que a juventude dispõe hoje em dia, como o desporto ou a música, entre outros. A escolha deve ser refletida e assumida também pelos pais. Para os cristãos, a catequese é um complemento de vida que as famílias deverão assumir”, recorda.

Apesar da forte tradição católica do país, a Igreja começa a ser vista por muitos como um entrave ao progresso social, nomeadamente para os três partidos do Governo, que sempre defenderam nos seus programas a separação entre o Estado e a Igreja, sendo o argumento financeiro também evocado.

A pós-modernidade trouxe vários desafios para a Igreja e a prova disso foi a implementação do curso ’vida e sociedade’, baseado na vida em conjunto e adaptação aos novos desafios e valores da sociedade atual.

Patrick de Rond mostra-se “consciente da situação”, mas garante que “a Igreja reagiu e aceitou o desafio de manter a educação da fé”. “É fundamental para o futuro da Igreja iniciar jovens e adultos na fé católica para lhes transmitir a mensagem de Jesus Cristo”.

“Pergunto-me por que é que aboliram as aulas de religião, que eram frequentadas por cerca de 70% das crianças em idade escolar e 60% de alunos dos liceus”, lamenta.

“Pelo que percebi, as aulas de ’vida e sociedade’ são baseadas sobre o viver em conjunto e a adaptação aos novos desafios e valores da sociedade, aflorando de uma forma global todas as religiões. No entanto, nas sociedades da Europa central, são necessários conhecimentos sobre a religião católica para comprender os aspetos culturais onde vivemos. Veremos se esses cursos serão eficazes no futuro”, critica.

A relação entre a Igreja e o Estado “continua a ser boa e sincera, apesar das mudanças efetuadas”, garante De Rond. “Da nossa parte é importante continuarmos em frente com as nossas convicções”, lembrando aos que dizem que a Igreja custa muito ao Estado que “a Igreja católica é a mais representativa e propõe à sociedade um vasto leque de escolhas de atividades”.

“A Igreja está bem viva, como pudemos testemunhar aquando da vinda da imagem peregrina de Nossa Senhora de Fátima ao Grão-Ducado, com especial destaque para a comunidade portuguesa, que tem dinamizado a vida da Igreja no país. É dentro desse contexto que vamos promover duas a três vezes por ano o programa ’catequese para todos’, no qual queremos que os católicos de todas as comunidades e de todas as idades se juntem e compartilhem as suas culturas e experiências de vida para avançarmos juntos na fé”.

Á. Cruz

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