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As veias abertas de Moçambique
Opinião Sociedade 3 min. 30.03.2021

As veias abertas de Moçambique

Habitantes locais no porto de Paquitequete onde se aguarda a chegada de deslocados oriundos das vilas de Palma e Afungi. Estas duas localidades foram alvo de ataques de grupos terroristas armados na última semana.

As veias abertas de Moçambique

Habitantes locais no porto de Paquitequete onde se aguarda a chegada de deslocados oriundos das vilas de Palma e Afungi. Estas duas localidades foram alvo de ataques de grupos terroristas armados na última semana.
Foto: AFP
Opinião Sociedade 3 min. 30.03.2021

As veias abertas de Moçambique

Hugo GUEDES PINTO
Hugo GUEDES PINTO
Só o megacomplexo de liquefacção de gás natural que está a ser construído em Palma, e que se supõe começar a funcionar em 2024, custará pelo menos 23 mil milhões de dólares – isso significa um valor superior ao PIB de Moçambique, e também o maior investimento privado em toda a África.

Ao saber o resultado das eleições americanas de 2008, o grande escritor e jornalista Eduardo Galeano comentou: "Agora que a vai ocupar, espero que Obama nunca chegue a esquecer-se que a Casa Branca foi construída por escravos negros". Poucos meses mais tarde, o recém-empossado Obama participou na Cimeira das Américas e o então líder venezuelano Hugo Chávez aproveitou para o presentear com a obra de mestre Galeano que lhe valeu ser perseguido pelas ditaduras militares de quatro países: "As veias abertas da América Latina".

O livro é implacável, acusatório, arrasador; o autor descreve a história da América Latina como uma sucessão de narrativas de saque, um esventramento constante e contínuo aos seus recursos naturais por parte dos impérios coloniais (sobretudo português e espanhol) e, a partir do século XIX, pelos estados imperialistas (sobretudo os EUA e o Reino Unido). A primeira parte tem o título "A pobreza do Homem como resultado da riqueza da Terra" e é dedicada aos recursos mineiros e às atrocidades cometidas em nome destes; a segunda parte, intitulada "O desenvolvimento é uma viagem com mais náufragos que navegantes", debruça-se sobre a natureza subtilmente desavergonhada das pilhagens contemporâneas.

Lembrei-me do texto ao ver as notícias sobre o norte de Moçambique. Cabo Delgado, um recanto paradisíaco deste planeta, vegetação luxuriante, praias de areia branca e águas turquesa, uma biodiversidade notável... e no subsolo os mais cobiçados rubis e safiras do mundo, carvão, petróleo, gás natural, tudo em quantidades suficientes para abastecer a voracidade energética da China durante décadas.


Português ferido em ataques em Moçambique já foi transferido para Joanesburgo
Na sequência dos mais recentes ataques em Cabo Delgado, foi montada uma ponte área, entre Pemba e Maputo, para retirar 1.300 pessoas.

Só o megacomplexo de liquefacção de gás natural que está a ser construído em Palma, e que se supõe começar a funcionar em 2024, custará pelo menos 23 mil milhões de dólares – isso significa um valor superior ao PIB de Moçambique, e também o maior investimento privado em toda a África. Parece então um paradoxo que nestas zonas com comunidades economicamente paupérrimas, vivendo em casas onde não há água canalizada, luz ou esgotos, e onde metade da população subsiste com um rendimento de dois euros por dia e os restantes com pouco mais que isso, os habitantes tenham tentado resistir à construção do projecto milionário. 

Ainda não está terminado o megaprojecto e já Cabo Delgado se tornou sinónimo de crimes da guerra entre os terroristas islâmicos

Parece contraditório, mas é evidente: os locais desconfiavam que se iria repetir a história, velha de séculos, em que os lucros fabulosos seriam exclusivamente para os exploradores e os políticos comprados na capital, enquanto para eles sobrariam a poluição, a subida de preços dos alimentos e finalmente a expulsão da sua própria terra.

Tinham razão, claro. Ainda não está terminado o megaprojecto e já Cabo Delgado se tornou sinónimo de crimes da guerra entre os terroristas islâmicos – que recrutam facilmente os desocupados jovens locais – e as milícias de mercenários sul-africanos e portugueses contratados pelo governo de Maputo para defender não as populações, mas os investimentos estrangeiros. Desde 2017, a crise humanitária já provocou 700 mil deslocados e mais de duas mil mortes. À hora a que escrevo, crianças e adultos fogem para a Tanzânia pelo meio do mato; muitos não conseguem e morrem ali, de veias bem abertas.

(Este autor escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico).

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