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As regras quando nascem são para todos?
Opinião Sociedade 3 min. 11.01.2022
Novak Djokovic

As regras quando nascem são para todos?

Novak Djokovic

As regras quando nascem são para todos?

Foto: Kelly Defina/POOL/AFP
Opinião Sociedade 3 min. 11.01.2022
Novak Djokovic

As regras quando nascem são para todos?

Hugo GUEDES PINTO
Hugo GUEDES PINTO
Claro que cada um tem o direito de pensar como quiser, mas tem também a obrigação de assumir as consequências dessas opções. A crónica semanal sobre o caso polémico à volta do tenista Novak Djokovic.

A senhora de 50 anos que ainda está à espera de mais estudos sobre os efeitos das vacinas. O desempregado que está furioso com o sistema, só acredita no facebook e vai votar na extrema-direita. O jovem de 20 e poucos que faz desporto e tem cuidado com a alimentação que acha que é só "uma gripezinha". A mulher imigrante, de uma minoria étnica, que tem razões antigas para desconfiar de tudo o que lhe digam as autoridades. O homem que conhece um amigo de um amigo que teve uma reacção complicada à vacina, e aquele outro que por desleixo ainda não arranjou tempo para ir ao centro de vacinação. 

E todos aqueles que se vangloriam de "só pensar pela sua própria cabeça" (como se a sua genial pessoa, isoladamente, conseguisse sobreviver mais do que três dias na nossa sociedade tão interligada; nem comida conseguiriam obter).

Há muitos tipos de negacionistas de vacinas, e sem que isso sirva de desculpa para a indesculpável recusa em que cada um faça a sua infinitésima parte para que o mundo consiga ultrapassar a pandemia, há pelo menos uma atenuante: eles e elas tendem a pertencer aos estratos mais pobres da sociedade, em situação mais precária, vivendo muitas vezes nas franjas, até marginalizados pela sociedade. Mas não todos. 

Não há nada de marginalizado no milionário do desporto Novak Djokovic, o melhor tenista da actualidade, vangloriando-se no Instagram de ter obtido uma excepção às draconianas regras impostas por um país que acaba de bater o recorde de infecções diárias, tudo para tentar ganhar mais uma taça (e já agora um prize money de 4 milhões de euros). Este país é a Austrália, o mesmo que impôs leis tão estritas no início da pandemia que milhares de australianos não puderam voltar a casa durante um ano – e, na prática, quem lá vivia também não podia sair (pois dificilmente conseguiria reentrar).

A confiança de Djokovic ao mostrar abertamente nas redes sociais o tratamento de favor que conseguiu deve-se a uma grande verdade, velha como o mundo mas bem polida de fresco pela pandemia: as regras quando nascem não são para todos. A elite sabe que pode contornar os pequenos e grandes obstáculos que nos são impostos numa base diária, sem ter de suar nem de comprometer as suas convicções, por mais bizarras que elas sejam (e que, no caso de Djokovic, incluem coisas como "podemos despoluir as moléculas da água com a força do nosso pensamento positivo"). 

Neste momento o ressentimento das maiorias é generalizado; quem o ignorar prossegue por sua própria conta e risco.

Claro que cada um tem o direito de pensar como quiser, mas tem também a obrigação de assumir as consequências (profissionais ou sociais) dessas opções, e ninguém tem o direito de impor essas escolhas aos outros (jogadores, público, etc neste caso). Muitas vezes quem enche a boca com a palavra "liberdade" não sabe, ou esquece-se convenientemente, que liberdade sem responsabilidade não passa de anarquia.


Tribunal australiano ordena libertação de Novak Djokovic
Um tribunal australiano ordenou a libertação do tenista Novak Djokovic, retido desde quinta-feira num centro de detenção em Melbourne após o seu visto ter sido revogado por não estar vacinado contra a covid-19.

Estamos num ponto de inflexão da maldita pandemia: a paciência está a níveis baixíssimos. Quem segue as regras está particularmente farto, até porque muitas vezes é tratado da mesma forma que quem não segue. A raiva está ao rubro, e a raiva é uma poderosíssima força política. Por isso Macron acaba de apelar ao voto da maioria vacinada com a sua professada vontade de "lixar os não vacinados"; por isso o governo australiano comprou a luta contra Djokovic – a visibilidade mundial do tenista é boa para mostrar que "ninguém está acima da lei". Curiosamente, essa mesma lei, personificada num juiz, voltou a colocar o tenista a caminho do corte central, mas duvido que ele vá conseguir jogar sem fortes apupos do público. 

É que neste momento o ressentimento das maiorias é generalizado; quem o ignorar prossegue por sua própria conta e risco.

(Este autor escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico).

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