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As pessoas de quem não temos saudades
Opinião Sociedade 3 min. 12.05.2022
Andamos todos ao mesmo

As pessoas de quem não temos saudades

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As pessoas de quem não temos saudades

Foto: Christoph Dernbach/dpa
Opinião Sociedade 3 min. 12.05.2022
Andamos todos ao mesmo

As pessoas de quem não temos saudades

Entre os amigos do peito que cabem numa mão e os conhecidos no Facebook, de quantas pessoas, afinal, precisamos na nossa vida? Por Paulo Farinha.

(Paulo Farinha)

De quantas pessoas precisamos na nossa vida? A pergunta não é original, já deu origem a milhões de caracteres de dissertações, investigações científicas, livros, reportagens. E, claro, reflexões nossas. Já todos devemos ter pensado nisso em algum momento da nossa história: afinal, de quantos amigos e conhecidos necessitamos para termos uma existência plena e socialmente enriquecedora?

As respostas politicamente corretas andarão entre “os amigos nunca são demais” e “só tenho uma mão cheia de amigos”. É verdade que o próprio conceito de amizade pode variar bastante e o que fazemos com as pessoas a quem chamamos “amigos” também. Mas se alargarmos o leque a interações sociais em vez de o restringirmos a “pessoa para quem telefonamos para desabafar se estivermos no pior momento da nossa vida”, o número até é bastante redondo: 150.

Cento e cinquenta é a média de contactos informais que um ser humano será capaz de manter com naturalidade suficiente para não se sentir incomodado se esbarrar com algum deles num bar e for convidado a beber um copo – ou um galão, também serve. Foi essa a conclusão do antropólogo e psicólogo britânico Robin Dunbar quando, no início da década de 1990 teorizou sobre os comportamentos dos primatas, o tamanho dos cérebros e a capacidade de informação que estes conseguem reter. Há muitas variáveis no famoso “Número de Dunbar” ou “Teoria de Dunbar”, que a BBC explica bem aqui – e há também muitos opositores ao académico britânico, catedrático de Oxford, nomeadamente os que dizem que a cifra peca por defeito e que somos capazes de acomodar mais do que centena e meia de conhecidos –, mas o ponto principal é este: de quantos precisamos, afinal, para não nos sentirmos sozinhos?

Dei por mim a pensar nisto quando há dias procurei o número de telefone de uma pessoa que me tinham pedido e, não o tendo encontrado na agenda do telemóvel, conclui: “Não faz mal, eu nem gostava dele”. E, embalado com a ideia, fui discorrendo sobre as pessoas que associo àquela em particular. Não são um grupo, não são uma rede, não são uma equipa. São um grupo de gente que conheci em determinado momento, há mais de vinte anos, com quem já não me dou, de que não sinto falta e... esta é a parte melhor... sobre quem não tenho remorsos absolutamente nenhuns por me serem indiferentes – tal como eu serei para eles, certamente. Não me fizeram mal nenhum e claro que os cumprimentarei educadamente se os encontrar (tirando o tal imbecil, mas todos temos idiotas na nossa vida). Mas a verdade é que... fizemos sentido uns para os outros em algum momento e agora isso já não acontece. E então? Qual o problema?

A coisa pode parecer fria, mas é ao mesmo tempo estranhamente libertadora. Um alívio, mesmo. Se por um lado há pessoas de quem não nos queremos afastar e que queremos manter por perto, mesmo que passe muito tempo ser as vermos, há outras que, naturalmente, dispensamos. E não há nada de mal nisso. Não temos de nos sentir culpados por isso. Se não tomarmos como referência o número de contactos no telemóvel, de “amigos” no Facebook ou de seguidores no Instagram, chegamos facilmente à conclusão que vivemos bem com menos gente. Menos gente e melhor gente. 

E assim – e indo ao encontro do que teorizou o senhor Dunbar – abrimos espaço para as outras pessoas. As que entram pela nossa vida de rompante, sem estarmos a contar, sem avisarem antes, sem preliminares, sem anestesia. As que aterram de repente, remexem, abanam, fazem-nos pensar... e que acomodamos naturalmente, conquistando um espaço próprio. E ficamos felizes por isso, ora a cantarolar os versos daquele verdadeiro hino do Sérgio Godinho...“É que hoje fiz um amigo e coisa mais preciosa no mundo não há”... ora a pensar no desperdício que foram os anos em que não as tínhamos na nossa vida.

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