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"As novas tecnologias digitais facilitam cair no buraco das teorias da conspiração"
Sociedade 9 min. 01.10.2020 Do nosso arquivo online

"As novas tecnologias digitais facilitam cair no buraco das teorias da conspiração"

"As novas tecnologias digitais facilitam cair no buraco das teorias da conspiração"

Sociedade 9 min. 01.10.2020 Do nosso arquivo online

"As novas tecnologias digitais facilitam cair no buraco das teorias da conspiração"

Regina NOGUEIRA FERNANDES
Regina NOGUEIRA FERNANDES
O Contacto entrevistou, em Londres, Matthew Feldman, Diretor do Centre for Analysis of The Radical Right, um organismo que se dedica a investigar as teorias da conspiração e a sua ligação ao extremismo na era das redes sociais.

Há menos de um mês, cerca de 15.000 pessoas reuniram-se em protesto na Trafalgar Square, em Londres - sem máscara nem distância social - contra as medidas de combate ao coronavírus. À semelhança de outras manifestações em Londres nos últimos meses, a mensagem junta vários grupos distintos: negacionistas das alterações climáticas e anti vacinação, grupos de extrema-direita, e conspiracionistas anti-5G e a QAnon [teoria da conspiração que diz que Donald Trump está a travar uma guerra secreta contra uma seita satânica responsável por um circuito de pedofilia internacional].

Na web, houve um aumento no número de referências a teorias da conspiração como a QAnon. Quem partilha são grupos pró-Brexit ou de extrema-direita, mas não só: há posts sobre a QAnon associados a páginas óleos essenciais e numerologia ou meditação. O que há de particular acerca destas teorias da conspiração fabricadas nos media digitais? Qual o papel destas plataformas na disseminação da desinformação, sobretudo em tempos de crise?

Conversámos com Matthew Feldman, Diretor do Centre for Analysis of The Radical Right, sobre teorias da conspiração e extremismo na era das redes sociais.

Podemos dizer que há uma relação entre estas teorias da conspiração e discursos de extrema-direita?

As teorias da conspiração não são necessariamente de esquerda ou direita. Podem ser de cariz religioso, psicológico, e não distintivamente político. Muitas vezes intercetam a política, mas não sempre. Quando alguém diz que foi raptado por extraterrestres, por exemplo, não expressa necessariamente uma posição de esquerda ou direita.

Dito isto, é comum que novas teorias da conspiração caibam nas regras estabelecidas por experiências anteriores. É o caso da conspiração antissemita, que é provavelmente a teoria da conspiração mais destrutiva de todos os tempos. Recuando até "Os Protocolos dos Sábios de Sião" [texto antissemita, publicado pela primeira vez em 1903 na Rússia, que descreve um plano por parte dos judeus para dominação global]: temos um alegado grupo de pessoas que literalmente bebe o sangue de crianças.

Estes temas estão muito presentes na história como motivo de perseguição dos judeus e emergem em várias teorias da conspiração, como a QAnon, que encaixam numa série de moldes políticos ou ideológicos já existentes. Ainda que seja possível ser-se antissemita e ser de esquerda ou de direita, há poucas duvidas sobre o facto de que o legado do fascismo e do nazismo reflete esse modelo nos quais se encaixam organizações antissemitas.

De facto, parece que não é possível ser-se realmente de extrema-direita sem aderir a uma teoria da conspiração a um certo nível. É difícil, talvez impossível, ser-se de extrema-direita sem se subscrever conspirações antissemitas ou a teoria da grande substituição [conspiração supremacista branca que alega que a população europeia está a ser progressivamente substituída por povos árabes e outros povos africanos e do Médio Oriente, através de migração em massa e crescimento demográfico], por exemplo. 

Quais as principais diferenças entre estes fenómenos recentes como a QAnon e movimentos anti-5G que temos visto nos protestos anti-lockdown e outras teorias da conspiração?

O que vemos com os protestos anti-lockdown é uma mistura de gente: há grupos anti-vaxx, grupos anti máscara, apoiantes da QAnon, presença clara de extrema-direita como o New British Union, e outros como Piers Corbyn [irmão de Jeremy Corbyn e anti-vaxxer de longa data e negacionista das mudanças climáticas], lado a lado com os seus cartazes. Alguns destes sobrepõem-se: se for anti vacinação é provável que seja anti máscara, e se for anti máscara, talvez pense que as torres de 5G lhe vão sugar o cérebro. Talvez acredite na QAnon, ou talvez não. 

Parece que temos um conjunto demográfico menos dado a teorias da conspiração do que os suspeitos do costume, que são geralmente de uma posição política menos comum, mas pessoas extremistas com uma motivação ideológica distinta. Claro que algumas pessoas que compõem estas conspirações têm estas motivações, mas não corresponde inteiramente a esse eleitorado. Estamos a falar de uma nova face neste tipo de ideias. 

No entanto, quando os manifestantes gritam “escolham um lado”, parece-me que esse lado está definido – e é entre a esquerda ou a direita.

A QAnon fala de uma conspiração global omnisciente que Donald Trump combate a partir da Casa Branca, haverá algum aproveitamento político dos seus apoiantes nas redes sociais?

Em parte. O facto de isto ser um fenómeno político em que Donald Trump supostamente está a lutar contra o deepstate pode ser significativo. A questão é que não sabemos necessariamente quem está por detrás da QAnon.

Quando falamos dos “Os Protocolos dos Sábios de Sião”, sabemos que foi uma conspiração do czar e da polícia secreta para tentar gerar ódio contra os judeus, criando um inimigo interno comum e ajudando o czar a solidificar o seu apoio. Sabíamos quem estava por trás dessa teoria da conspiração, porque a propunham, porque a defendiam, mas por não sabermos quem está por trás da QAnon é difícil chegar a esse tipo de conclusões. 

A razão pela qual se torna difícil tirar as conclusões é pela natureza destas teorias da conspiração?

Sim, parte da sua própria natureza. Estas teorias da conspiração existem à margem, não são organizadas e não tem geralmente fundamento ideológico. Olhando para algumas das teorias da conspiração antimuçulmanas, por exemplo, especialmente nos Estados Unidos, são bastante fundamentadas e complexas.

Mais uma vez quem está por detrás delas é bastante claro: são pessoas que consideram o Islão incompatível com o Ocidente e que são abertamente islamofóbicas ou supremacistas brancas. Sabemos qual e a sua agenda, mas não tenho a certeza de que saibamos ainda qual a agenda da QAnon. Lembremo-nos: nada disto existia há três anos. 

Parece que há uma tendência ao longo da história para nos tornarmos mais suscetíveis a teorias da conspiração em tempos de incerteza e maior desigualdade económica - será a situação pandémica atual a explicação para a maior difusão destas histórias online?

Sim, mas sobretudo porque as pessoas estão isoladas. Sobretudo aqueles que devido à estrutura dos seus dias passam muito tempo em frente a um ecrã e que acabam por não comunicar da mesma forma sobre as suas aprendizagens em casa ou no trabalho: isso cria um terreno fértil este tipo de teorias. Para os mais jovens há menos supervisão, e para os mais velhos talvez menos informação verificada. A estrutura destas novas tecnologias digitais faz com que cair num buraco sem fundo de conspirações seja fácil – e rápido também.

Apesar de as teorias da conspiração existirem mesmo antes das redes sociais, há cinco anos atrás estariam em sítios difíceis de conhecer, revistas marginais, não era provável que as encontrássemos. Aquilo a que assistimos agora, uma e outra vez, é que as pessoas estão a tropeçar nestas teorias em sites mainstream. E isto é definitivamente novo. 

Agora, se há mais pessoas a tropeçar em teorias da conspiração (e parece que sim) ou se são simplesmente mais visíveis por estarem no Facebook, Twitter ou Youtube, se são apenas mais visíveis ou mais prevalentes, não é ainda inteiramente claro. 

Em que medida é que os gigantes da internet, como o Facebook ou o Twitter, devem ser responsabilizados pela distribuição de desinformação?

Esta é uma questão particularmente difícil porque isto são empresas privadas, com o objetivo de gerar lucro. É difícil dizer que responsabilidade deveriam ter na esfera pública relativamente à defesa da liberdade de expressão.

Pensemos desta forma: se uma das pessoas que espalha desinformação for por acaso presidente de um determinado país. Será sensato que seja o Twitter ou o Facebook a condenar ou a expulsar esta pessoa? Ou estarão a atuar em vez do Governo ao proibirem senadores ou presidentes de utilizar as suas plataformas para espalhar desinformação?

Quão responsáveis devem ser estas plataformas e quais devem ser as consequências? Multas? Fecho? Acho que a maioria das pessoas consideraria isso uma reação um pouco extrema: o Facebook não está a dizer que acredita na teoria da conspiração QAnon, o que o Facebook está a fazer é a oferecer uma plataforma para indivíduos e grupos o fazerem. 

A questão é muito complexa: a que ponto deve haver penalizações por um post ofensivo ou fake news estar online por um determinado período de tempo? Se tiver online um dia, deveria haver penalização? Dois dias? Uma semana?

Dou-lhe uma estatística interessante: após o terrível tiroteio de Christchurch do ano passado, um vídeo do ataque, ou partes do vídeo, circulou no Facebook 2,7 milhões de vezes nas 24 horas a seguir ao ataque. Nas mesmas 24 horas, o Facebook removeu 2,4 milhões desses posts. Consideramos isto um sucesso ou um falhanço? Deveria o Facebook ser louvado ou castigado?

Será que o próprio modelo das redes sociais, que lucra com a atenção, nos condena a falhar, por defeito?

Haverá se calhar alguma coisa que nos condena a falhar, por defeito, na natureza humana? Porque é que nos sentimos atraídos pelo sensacionalista e pelo que tem até 280 caracteres? Acho que o problema é maior que as redes sociais, mas que as redes sociais definitivamente funcionam como um amplificador. Isso permanece uma das principais questões acerca de como a responsabilidade nas redes sociais e na esfera digital é gerida. 

Eu acho que há tempo que muita gente e muitas vozes falam nisto: o problema continua a piorar. É crucial para mim que haja ao menos um sentido de urgência sobre quão importante isto é.

Estas questões que têm peso agora e que continuarão a ter. É pouco provável que a internet deixe de fazer parte das nossas vidas. O mais provável é mesmo que se torne mais importante na nossa rotina nos próximos cinco ou dez anos - é importante que acertemos com isto.

É possível resolver o problema da desinformação na internet?

Se o nosso objetivo é nunca mais termos nenhum conteúdo extremista em nenhuma plataforma, vamos invariavelmente falhar. Se, por outro lado, o que queremos é uma solução em que este conteúdo está fora das plataformas mainstream que representam 95% da internet como o Google, o Youtube ou o Facebook, isso sim, podemos atingir. 

 E se nos estamos a perguntar o que sucesso significaria, não existir extremismo nestas plataformas não é realista, mas talvez possamos ter processos robustos e independentes de verificação de factos, e pessoas que entendam que este é um assunto sério e complexo e que queiram fazer alguma coisa para o resolver.

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