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As mulheres da luta contra a covid na Europa
Sociedade 7 min. 04.02.2021

As mulheres da luta contra a covid na Europa

As mulheres da luta contra a covid na Europa

Foto: DR
Sociedade 7 min. 04.02.2021

As mulheres da luta contra a covid na Europa

Telma MIGUEL
Telma MIGUEL
Alguns dos lugares chaves da Saúde são ocupados por mulheres, desde a líder do grupo, a comissária Stella Kyriakides, às responsáveis das agências que estão na linha da frente. Conheça melhor sobre cada uma delas.

Stella Kyriakides. A luta contra o cancro desviada para a covid

Foto: AFP


A missão da cipriota quando tomou posse a 1 dezembro de 2019 como comissária europeia da Saúde e Segurança Alimentar parecia de pouca visibilidade. Quando tudo corre bem, a Saúde não está nas manchetes. Melhorar práticas, implementar políticas, ou seja, manter o rumo das coisas e dar-lhes fôlego. No conjunto das suas missões, o Plano da Europa para Combater o Cancro parecia a tarefa mais ambiciosa.

Veio março, e Kyriakides subiu para o palco, tornando-se uma das comissárias, infelizmente, mais conhecidas. Ao longo dos meses, nas suas múltiplas intervenções, a comissária vinda de um país de 1 milhão de habitantes, tem respondido pelas angústias dos 450 milhões de cidadãos europeus. Quando crescem as dúvidas de que a estratégia de contratação europeia – que assegurou a aquisição, mas apenas potencial, de mais de 2 mil milhões de doses de vacinas – é a certa, Kyriakides foi obrigada a falar duro com as farmacêuticas. Ao CEO da AstraZeneca disse, dêem-nos as doses todas e avisou que a Comissão não negoceia como se “isto fosse um talho, onde o primeiro a chegar é o primeiro a ser atendido”. Stella Kyriakides exerceu psicologia clínica entre 1976 e 2006, ano em que iniciou carreira na política, tornando-se deputada e vice-presidente do partido conservador Aliança Democrática. Em 1996 foi-lhe diagnosticado cancro da mama e passaria a partir de então a defender os direitos dos doentes de cancro em várias arenas públicas.

Sandra Gallina. De tradutora a compradora de vacinas

Fotö: EU/Jennifer Jacquemart

No dia em que apresentou a estratégia europeia de vacinas, a 17 de junho de 2020, a Comissão Europeia anunciou também uma mudança no tabuleiro das suas direções-gerais. Seria de esperar que no meio da maior crise sanitária de há um século não se arriscasse fazer experiências num setor determinante. Mas, nesse dia, Ursula von der Leyen anunciou um novo nome para número dois da Direção-Geral de Saúde (DGSanté). A italiana Sandra Gallina seria transferida do cargo de diretora adjunta da Direção-Geral de Comércio e escolhida pelas suas características de “forte negociadora” e ideal para a missão mais importante do momento: negociar com as farmacêuticas um acesso a vacinas que ainda nem sequer existiam.

A 16 de outubro, Sandra Gallina subiu a diretora da DG Santé (o nome emblemático), três meses depois de ter entrado para o segundo lugar da hierarquia. Gallina é um dos exemplos mais óbvios de que na Comissão Europeia é possível subir independentemente de onde quer que se tenha começado. A italiana entrou nas instituições em Bruxelas em 1988, como tradutora, após se ter licenciado em Interpretação, com louvor, pela Universidade de Trieste. Ao fim de 11 anos na unidade de tradução italiana, Gallina passou a liderar equipas de negociação na Direção-Geral de Comércio onde atingiu o lugar de diretora-geral adjunta, antes de ser requisitada para a arriscada missão vacinas. Ao todo, a equipa de negociações dirigida por Gallina (cuja evolução é semanalmente acompanhadas por um comité com elementos de todos os Estados-membros) fez contratos com seis farmacêuticas e começou esta semana negociações com mais outras duas.

Emer Cooke. A primeira mulher a dirigir a EMA

Foto: EPA

A primeira mulher a dirigir a Agência Europeia do Medicamento (EMA, na sigla inglesa) nos seus 25 anos de existência também foi nomeada em plena crise e quando esta agência já estava a acompanhar o desenvolvimento de vacinas. Escolhida num processo de seleção em junho, a irlandesa Emer Cooke entraria oficialmente a 16 de novembro de 2020, para um mandato renovável de cinco anos à frente da agência independente que valida o uso de todos os medicamentos na União Europeia. Uma missão difícil em qualquer altura, mas de enorme pressão nos tempos que correm. “Tomo posse no meio de uma crise sem precedentes”, disse no primeiro dia no cargo da agência sedeada em Amesterdão.

O eurodeputado Pieter Liese, presidente da comissão de Saúde Pública, crítico da falta de transparência em relação aos contratos das vacinas, não se poupa a elogiar a EMA, e o papel de Emer Cooke, quando esta responsável foi dar explicações ao Parlamento Europeu. Se a frustração pública dos cidadãos europeus cresce por causa da falta de vacinas no terreno, em relação à EMA vigora um estado de graça. Cada anúncio de que uma vacina vai ter aprovação é concretizada na data prevista. Emer Cooke tem-se igualmente esforçado em esmagar a praga crescente de teorias de conspiração e desconfiança das vacinas, com explicações constantes. E embora o processo de certificação da EMA seja mais longo do que o feito pela equivalente norte-americana FDA, tem sido dito pelos técnicos – uma grande rede internacional – que é este o procedimento que garante melhor a segurança, eficácia e a confiança pública.

Num futuro próximo, a EMA irá exponenciar o seu poder, previsto numa proposta que está a ser discutida – a da criação de uma União Europeia de Saúde preparada para o futuro. E Cooke, mesmo na altura da sua tomada de posse, falou de outra crise apocalítica que se avizinha e na qual já está de olho: a da resistência de super bactérias aos antibióticos existentes.

Ao contrário de Sandra Gallina, que entrou de paraquedas na DGSanté, Emer Cooke é uma funcionária de longa data na área, com 30 anos de experiência, dos quais 14 anos em cargos de direção na EMA. De 2016 até novembro de 2020 foi diretora do departamento responsável pela regulação dos medicamentos da Organização Mundial de Saúde (OMS). Emer Cooke, de 59 anos, tem uma licenciatura em Farmácia e um mestrado em Ciência e Gestão.

Andrea Ammon. Um oráculo em Frösunda

Foto: DR

Andrea Ammon já estava no seu lugar no Centro Europeu de Prevenção e Controle de Doenças (ECDC), em Frösunda – uma pequena localidade a norte de Estocolmo – quando em março o novo coronavírus atingiu a Europa. Frösunda parece um sítio muito aborrecido mas, em 2020, a agência que coordena a resposta europeia a crises de doenças infeciosas pôs esta vila no centro dos acontecimentos. Nas múltiplas videoconferências, Ammon foi uma das vozes mais constantes a explicar às várias instituições tudo o que deviam recear. E durante o segundo semestre de 2020, Ammon, fez parte do triunvirato das mulheres alemãs mais influentes na Europa, juntamente com von der Leyen e Angela Merkel, cujo país presidiu ao Conselho da União Europeia.

De formação médica, Ammon foi conselheira do governo em Berlim durante a epidemia de SARS e da gripe A. Foi diretora do departamento de doenças infeciosas do Instituto Robert Koch, em Berlim, e em 2005 entrou para o então recém-criado ECDC. Em 2017, tornou-se diretora do ECDC. Do alto da sua experiência e do seu distanciamento na Suécia, Ammon parece ser quem melhor vê o quadro completo. Em janeiro de 2020 avisou que a Europa devia preparar-se a sério para o coronavírus que ainda só estaria em Wuhan. E em maio deu por garantido que a Europa deveria preparar-se para uma segunda vaga terrível no outono. O facto de conviver há tanto tempo com crises dá-lhe segurança no que diz, mas a sua voz nunca é de pânico, mesmo quando faz os prognósticos mais terríveis.

Marta Temido. A última a chegar, e na hora pior

Foto: Paulo Mumia/dpa

Como ministra da Saúde do governo português, Marta Temido é a anfitriã das reuniões dos ministros da área dos 27, até final de junho, o tempo em que dura a presidência portuguesa da UE. Responsável pela pasta da Saúde do governo de António Costa, desde final de 2018, não esperava a bomba-relógio da covid-19 que rebentou no pior momento. No meio de muitas críticas à má gestão da pandemia e à comunicação desastrosa, o milagre português da primavera e do verão, transformou-se no pior pesadelo deste inverno, quando o país se transformou no pior caso a nível mundial. E logo quando Marta Temido tem que dar a voz pelas políticas europeias.

Tecnicamente, Marta Temido tem tudo: licenciatura em Direito, doutoramento em Saúde Internacional e mestrado em Gestão da Saúde. Antes de entrar para o governo português foi subdiretora do Instituto de Higiene e Medicina Tropical e membro de direções de várias instituições hospitalares, mas o teste político da covid-19 está a abanar a credibilidade da portuguesa.

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