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"Aristides foi cônsul no Luxemburgo de 1929 a 1933", diz Círculo Sousa Mendes
André Zwally e Bruno Cavaleiro fazem parte dos fundadores do Círculo Cultural Aristides de Sousa Mendes, apresentada esta quinta-feira de manhã em Esch/Alzette

"Aristides foi cônsul no Luxemburgo de 1929 a 1933", diz Círculo Sousa Mendes

Foto: Eric Brausch
André Zwally e Bruno Cavaleiro fazem parte dos fundadores do Círculo Cultural Aristides de Sousa Mendes, apresentada esta quinta-feira de manhã em Esch/Alzette
Sociedade 1 9 min. 03.06.2013

"Aristides foi cônsul no Luxemburgo de 1929 a 1933", diz Círculo Sousa Mendes

Dois portugueses e um luxemburguês apresentaram esta manhã, em Esch/Alzette, o "Cercle Culturel Aristides de Sousa Mendes". O cônsul português passou vistos à família real luxemburguesa, em Bordéus, quando esta fugiu ao regime nazi. Sousa Mendes foi cônsul para o Luxemburgo entre 1929 e 1933, antes de chegar a Bordéus em 1938.

"O objectivo da associação é divulgar e promover a obra e os feitos do diplomata português Aristides de Sousa Mendes, cônsul português em Bordéus, de 1938 a 1940, e que pelo seu acto de bravura de passar vistos, à revelia das directivas de Salazar, salvou milhares de pessoas, entre estas membros da família grã-ducal luxemburguesa, como a Grã-Duquesa Charlotte e o então príncipe Jean" [avó e pai do actual grão-Duque Henri].

Quem é o diz é André Zwally, do comité fundador do Círculo Cultural Aristides de Sousa Mendes, hoje pensionista, mas que foi um político activo do Partido Cristão-Social (CSV), esteve ligado ao LCGB e foi futebolista da selecção nacional e da Jeunesse de Esch nos anos 1970.

"Facto é que Sousa Mendes conhecia a família grã-ducal luxemburguesa, porque foi cônsul de Portugal para o Luxemburgo quando estava destacado em Antuérpia [Anvers, Bélgica], entre 1929 e 1933", adiantam os fundadores do círculo cultural.

A associação foi oficialmente apresentada esta manhã, numa conferência de imprensa em Esch/Alzette, durante a qual anunciaram que esta tinha sido fundada em 19 de Julho de 2012.

"Escolhemos essa data porque é a data de nascimento de Sousa Mendes, em 1885", explica por seu lado Bruno Cavaleiro, funcionário bancário e conhecido no mundo associativo por ter pertencido durante longos anos à direcção do Rancho Folclórico Províncias de Portugal, também de Esch/Alzette, grupo do qual o pai, Manuel Cavaleiro, ainda é presidente.

O terceiro membro fundador do Círculo, Gabriel Pinto, não esteve presente, devido a imperativos privados. Gabriel Pinto é também funcionário bancário e conhecido no mundo associativo por ter pertencido à extinta Rádio Amizade, de Esch, e ser filho de um dos ex-presidentes da UJP Esch, Albino Rocha.

"Sousa Mendes foi importante durante um momento muito sensível da história do Luxemburgo"

"Sousa Mendes foi alguém importante durante um episódio muito sensível da história do Luxemburgo - o período da II Guerra Mundial - e queremos divulgar o que ele fez e que ainda é desconhecido do grande público não só luxemburguês como português", diz por seu lado Bruno Cavaleiro.

"O valor dos actos de Sousa Mendes não devem ser realçados só porque ajudou a família grã-ducal luxemburguesa e membros do Governo luxemburguês de então a escapar ao regime nazi, mas o que fez foi um acto pela Humanidade. Passando vistos sem olhar a quem, refugiados, judeus, apátridas, ricos e pobres, das mais diversas origens, salvou mais de 30 mil pessoas", recorda Zwally.

"Fiquei surpreendido quando falava em Sousa Mendes e as pessoas não o conheciam. Todos conhecem o industrial alemão Oskar Schindler e de como salvou centenas de judeus empregando-os nas suas fábricas na Alemanha, mas pouca gente conhece aqui no Luxemburgo Sousa Mendes", lamenta o ex-futebolista.

O facto de haver apenas dois jornais presentes na conferência de imprensa desta manhã - o CONTACTO e o Luxemburger Wort - testemunhou também desse desconhecimento (desinteresse?) do ex-cônsul português pelo público e mesmo pelos media luxemburgueses.

"Dos 32 mil habitantes de Esch/Alzette, cerca de 9 mil são portugueses, por isso a nossa associação também quer trabalhar a nível local em prol da integração, queremos fazer isso através das nossas actividades, que serão sobretudo culturais, como conferências, palestras e exposições, não só em torno da promoção de Sousa Mendes, como de temas relativos à integraçao", explica ainda André Zwally.

Mas, acrescenta, "esta não é uma associação portuguesa, queremos juntar pessoas de todas as nacionalidades, é uma associação cultural, terá sede em Esch/Alzette, e está aberta a todos os que queiram connosco colaborar na nossa missão."

"Contamos com o apoio da Fundação Aristides de Sousa Mendes, sediada em Lisboa, gerida pelos familiares de Sousa Mendes, que nos apoiaram muito na criação deste círculo. E a Família Grã-Ducal luxemburguesa informou-nos em Fevereiro que aprovava e apoiava a criação desta associação", adiantou ainda Bruno Cavaleiro.

Para já, revelam os dois respnsáveis da novel associação, "estamos a preparar o nosso programa de actividades, porque queremos assinalar em 2014 os 6o anos da morte de Sousa Mendes".

Quinzena de Cinema português no Luxemburgo abre com filme sobre Sousa Mendes

A nova associação elogiou ainda o facto de a Embaixada de Portugal no Luxemburgo inaugurar a Quinzena de Cinema Português, que estreia terça-feira, 4 de Junho, no cinema Utopolis, com o filme "O Cônsul de Bordéus" (de João Correa e Francisco Manso, com Vítor Norte e Laura Soveral), para abrir o festival de cinema, uma película que conta a história do "cônsul injustiçado".

"Não estamos na organização da Quinezna de Cinema Português, mas queremos dizer que consideramos uma excelente ideia começar o festival com esse filme, que conta a vida de Sousa Mendes", disseram ainda os dois responsáveis.

Os interessados em colaborar com o Círculo Cultural Aristides de Sousa Mendes devem contactar os responsáveis através da página da associação no Facebook, activa a partir de hoje, ou através dos seus contactos pessoais: Bruno Cavaleiro (691 353 311), André Zwally (621 273 115).

A sede da associação fica, para já, localizada no n°14, Cité Pierre Krier, em Esch/Alzette.

Quem foi Aristides de Sousa Mendes?

O ilustre diplomata português (1885-1954) notabilizou-se pela sua acção humanitária no conturbado período da II Guerra Mundial, em especial por ter concedido 30 mil vistos a refugiados, nomeadamente judeus, à revelia das instruções do Governo de Salazar, tendo desse modo contribuído para salvar muitas vidas.

Entre os vistos concedidos por aquele diplomata, destacam-se aqueles de que beneficiaram membros da casa grã-ducal luxemburguesa, como a grã-duquesa Charlotte e o seu filho o príncipe Jean (avó e pai do actual grão-duque) membros do seu Governo, inúmeros refugiados nomeadamente judeus, bem como diversos altos dignatários de outros países estrangeiros, que assim tiveram possibilidade de prosseguir viajem até aos respectivos países de destino, através da Espanha e depois de Portugal.

Os vídeos 360 não têm suporte aqui. Ver o vídeo na aplicação Youtube.

O português que salvou a família real luxemburguesa

Chamado de volta a Lisboa por um Salazar furioso, foi destituído do seu posto e retirado da vida diplomática, sem a pensão ligada à carreira e aos serviços prestados ao Estado português.

Sousa Mendes morre na miséria, em 1954, no Hospital dos Franciscanos, em Lisboa.

Os seus actos foram ignorados até 1966, quando o Yad Vashem - instituição em Israel encarregada de preservar a memória das vítimas e heróis do "holocausto", nomeadamente de identificar os "salvadores de judeus" durante o nazismo - o nomeou como um dos "Justos".

Só em 1986 foi postumamente distinguido pelo presidente da República Mário Soares com o Grau de Oficial da Ordem da Liberdade e a sua família recebeu desculpas públicas.

Em 1995, o mesmo chefe de Estado reabilita a memória do "cônsul injustiçado" e distingue-o com a Grã-Cruz da Ordem Militar de Cristo.

Grã-Duquesa Charlotte grata a Sousa Mendes

A Grã-Duquesa Charlotte do Luxemburgo, avó paterna do actual soberano, o Grão-Duque Henri, escreveu, numa carta datada de 1968, que membros da sua família "foram salvos," durante o nazismo, pelo diplomata português Aristides de Sousa Mendes.

"Em memória do falecido Dr. Aristides de Sousa Mendes, desejo expressar a minha sentida gratidão pelo inestimável auxílio que prestou, na qualidade de Cônsul Geral de Portugal em Bordéus, em 1940, aos refugiados luxemburgueses", refere o texto.

O documento, datado de 30 de Julho de 1968, encontra-se actualmente na posse da "Yad Vashem".

"Mantemos na nossa mente, com gratidão, os eminentes serviços que o Dr. Mendes prestou ao nosso país, durante os seus 10 anos de serviço como Cônsul Geral de Portugal, acreditado junto do Grão-Ducado do Luxemburgo", refere o documento.

"Mas o primeiro dos seus méritos, num tempo de tragédia e pânico, será sempre lembrado pelos refugiados, muitos dos quais de Fé judia, pelos membros do governo luxemburguês e pela minha própria família, que foram salvos devido à sua iniciativa, de certas perseguições e, por isso, puderam alcançar países livres", pode ainda ler-se na carta da então soberana do Grão-Ducado.

"A sua acção humanitária servirá sempre de exemplo de devoção altruísta à causa da Liberdade e bom entendimento entre todas as nações e raças", conclui.

José Luís Correia


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