Apesar de serem dos mais confiantes : Alunos cabo-verdianos são os que mais abandonam a escola no Luxemburgo
Apesar de serem dos mais confiantes : Alunos cabo-verdianos são os que mais abandonam a escola no Luxemburgo
Os alunos cabo-verdianos são o grupo que apresenta maior risco de abandono escolar no Grão-Ducado. Segundo um estudo do Luxembourg Institute of Socio-Economic Research (LISER), divulgado no início de Junho, 5,9% dos alunos cabo-verdianos abandonam a escola. Mesmo assim, os alunos cabo-verdianos são dos mais confiantes (25%).
O estudo, intitulado “Integração estrutural e social dos imigrantes fora da Europa e outros imigrantes no Luxemburgo:”, indica que depois dos cabo-verdianos, são os alunos de origem italiana os mais afectados pelo abandono escolar (2,4%), seguidos de portugueses e ex-jugoslavos (ambos com 2,1%).
De acordo com o relatório, 7% dos alunos cabo-verdianos acham que a escola “é uma perda de tempo”, enquanto 12% consideram que a escola não os prepara para a vida adulta.
Confrontada com estes resultados, a Associação de Pais de Origem Cabo-verdiana (APADOC) mostra-se preocupada.
“São números extremamente preocupantes, porque é o futuro das nossas crianças e jovens que está em causa. No entanto, e sem querer encontrar desculpas, a situação financeira também tem influência. Quando um aluno filho de pais sem grandes posses vê um colega com outros recursos fica desanimado e pensa que se deixar a escola pode arranjar trabalho e ter também o seu dinheiro”, disse ao CONTACTO o porta-voz da APADOC. No entanto, “esse não é o melhor caminho”, frisa João da Luz.
“Infelizmente há pais que não conseguem transmitir o que gostariam aos filhos, porque muitos também deixaram cedo os estudos. Mas se tiverem consciência, por exemplo, do que é o regime modular, de certeza que vão lutar para tirar os filhos de lá, porque é um regime que fecha as portas a qualquer aluno que queira ter uma boa profissão”, conclui.
Mas nem tudo é negativo. O estudo indica também que 62% dos alunos cabo-verdianos acreditam que o sucesso escolar é importante para conseguir emprego e 25% pensam que a escola lhes deu maior confiança para tomar decisões.
Nestas duas questões, os cabo-verdianos apresentam valores mais animadores do que os alunos portugueses (54% valorizam o sucesso escolar para encontrar trabalho e 20% sentem-se mais confiantes) e luxemburgueses (42% valorizam o sucesso escolar para encontrar trabalho e 12% sentem-se mais confiantes)
Entre os portugueses, 4% dos alunos dizem que a escola é uma “perda de tempo”, um valor igual entre os luxemburgueses. Questionados sobre se consideram que a escola os prepara para a vida adulta, 9% dos alunos portugueses responderam “não” e 12% dos luxemburgueses também deram resposta negativa.
O estudo refere também que metade dos alunos cabo-verdianos aspira a uma carreira de topo, como a advocacia ou a medicina. “No entanto, infelizmente, a maioria desses estudantes estão a seguir uma trajectória escolar que não os está a preparar para essas carreiras”, sublinham os investigadores.
Os autores do estudo analisaram o desempenho académico de alunos provenientes de países que não pertencem à União Europeia, e confirmaram o que já se sabia: “As características sócio-económicas dos alunos e das suas famílias tem um papel importante no sucesso escolar dos alunos”, dizem os autores do documento. O estudo teve em conta também o regime de ensino do aluno (técnico, clássico, modular), ambiente escolar, qualidade dos professores e recursos materiais das escolas.
Os autores recomendam “às autoridades públicas e outros agentes da educação no Luxemburgo” um maior envolvimento dos professores com os pais, melhor formação dos agentes educativos para a diversidade cultural e a resolução de conflitos, e a melhoria do ambiente na sala de aula.
“Cada vez que eles se sentem julgados, ridicularizados ou abertamente desaprovados por colegas, é normal que desenvolvam reacções negativas. Eles perdem a motivação e interesse nos estudos, estão relutantes em ir para a escola regularmente, isolam-se, ou, pelo contrário, rebelam-se“, lê-se no estudo.
Henrique de Burgo
