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Amigo do meu amigo, meu amigo é? Era o que faltava
Opinião Sociedade 3 min. 18.05.2022
Andamos todos ao mesmo

Amigo do meu amigo, meu amigo é? Era o que faltava

Andamos todos ao mesmo

Amigo do meu amigo, meu amigo é? Era o que faltava

Foto: AFP
Opinião Sociedade 3 min. 18.05.2022
Andamos todos ao mesmo

Amigo do meu amigo, meu amigo é? Era o que faltava

Redação
Redação
Todos temos amigos com amigos de quem não gostamos. O que faz dos nossos amigos os "amigos do meio", tentando fazer pontes impossíveis.

(Paulo Farinha)

Todos temos um amigo (ou mais) com amigos de quem não gostamos. É um facto da vida: passe o tempo que passar, encontremos nós quem encontrarmos, cruzemos o nosso caminho com quem cruzarmos, teremos sempre pessoas que se ligam a outras numa conexão que nunca vamos entender. Como se o software que gere as amizades (Deus nos livre e guarde!) tivesse um erro no algoritmo.

"Mas como é que o Antunes é capaz de se dar com aquela Rita?! Não têm nada a ver um com o outro nem com os outros amigos todos dele."

Todos temos um Antunes na nossa vida. Que se dá com alguma Rita com quem nós não podemos nem com molho de tomate. Ou porque é racista, homofóbica e não gosta de imigrantes e critica o "politicamente correcto" ou porque é uma liberal de extremos ou porque é uma comunista empedernida com ódio à direita ou porque apoia a invasão da Ucrânia ou porque é doente do Benfica ou do Sporting ou do Porto ou porque é desagradável com as outras pessoas ou porque não vacina os filhos e lhes dá de mamar até aos 15 anos ou porque envia os pequenos para um colégio interno... Seja o que for que nos remexe com as entranhas e princípios, há sempre uma Rita que não suportamos e com quem não aguentamos estar nas festas, patuscadas ou outros eventos para que o nosso Antunes insiste em convidá-la.

É muito provável que a Rita também não goste de nós e tenha as mesmas dúvidas que nós temos. E é muito provável que ela também fale com o Antunes sobre esse mistério que é ele conseguir ser nosso amigo. O que o deixa nessa posição desconfortável de ser "o amigo do meio". Que noutros casos até pode ser um embaixador da boa vontade a unir mundos diferentes, mas neste caso é apenas uma ponte improvável entre a água e o azeite.

Há duas coisas que nos podem ajudar a levar isto melhor e a respirar fundo cada vez que temos de ouvir a Rita a debitar opiniões sobre política, economia, religião, Putin, futebol, educação dos filhos ou outro tema sobre o qual tenha certezas absolutas (as Ritas têm muitas certezas): 1) apenas temos de estar com ela nas coisas que o Antunes organiza; 2) a ideia de que nós próprios também somos o Antunes de alguém e também temos alguma Rita no nosso círculo que outros amigos detestam – nós também somos "o amigo do meio" para alguém.

E, na verdade, não há grande coisa a fazer: se o Antunes for muito importante para nós é aguentar, pedir mais um copo de vinho e, sobretudo, nunca chegar atrasado a um almoço em que a Rita também esteja, para não correr o risco de o único lugar livre ser ao lado dela.

E, claro, evitar massacrar o desgraçado sobre o quanto aquela pessoa nos irrita. Se gostamos do Antunes, aguentamos a Rita até ao limite das nossas forças, mesmo que nunca compreendamos aquela amizade. Mesmo que um dia – porque a idade é um posto e a partir de certa altura podemos ter desculpa para perder o filtro – tenhamos de dizer à própria Rita que só a suportamos ano após ano, jantar de aniversário após jantar de aniversário, porque prezamos o Antunes e nunca, jamais, porque prezamos a inteligência ou o bom senso dela. E isso é uma coisa boa das amizades. Que quase compensa o facto de os nossos amigos terem amigos parvos.

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