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Ambiente. Viver e morrer na Amazónia
Sociedade 11 min. 11.10.2019

Ambiente. Viver e morrer na Amazónia

Ambiente. Viver e morrer na Amazónia

Foto:DR
Sociedade 11 min. 11.10.2019

Ambiente. Viver e morrer na Amazónia

Telma MIGUEL
Telma MIGUEL
O que significa sobreviver na maior floresta do mundo em tempos de aquecimento global. Um grupo de jovens do Pará levou um espetáculo de dança e troca de experiências a uma escola de Bruxelas.

“Como é viver hoje na Amazónia com as alterações climáticas?”, perguntou um dos alunos. “As temperaturas estão sempre perto de 40 graus. Antes tomávamos muitos banhos, mas agora o rio está poluído e já não podemos. Há sempre muito fumo no ar por causa dos fogos. E estamos a viver a maior seca da história”, respondeu uma das cinco jovens depois da performance Rio Voador, a nova criação do grupo AfroRaiz. 

A tranquilidade com que falou de uma situação dramática, como se fosse corriqueira, emocionou os alunos. Até porque a experiência que os seis jovens do coletivo AfroRaiz da comunidade pobre de Cabelo Seco, na cidade de Marabá, passaram foi o do conhecimento de quem conta o que vive e não de quem lê nos jornais, a uma distância confortável.

Quando começou a ser planeado, há um ano, o evento dirigido aos alunos da Escola Europeia 2 de Bruxelas (EEB2) não parecia tão oportuno. Mas, no passado dia 3 de Outubro, no momento em que o grupo de seis jovens do Colectivo AfroRaiz subiu ao palco a urgência de defender a Amazónia não precisava de ser muito explicada. 

Em Agosto, os noticiários em todo o mundo falaram do céu escuro em São Paulo com os fumos da maior floresta tropical. E a partir do último domingo (e durante as próximas três semanas), bispos de nove estados da América do Sul encontram-se no Vaticano com o Papa para a criação de uma nova estratégia de defesa da Amazónia, antes que seja tarde.

O coletivo AfroRaiz de jovens artistas está a concluir uma digressão de dois meses na Europa (já foram à Áustria, Alemanha, Holanda e ainda irão à Polónia) para defenderem “os direitos humanos de pessoas vulneráveis e em risco por causa do ecocídeo e das políticas repressivas do governo de Bolsonaro”, explica Dan Baron, o dramaturgo galês que há 20 anos trocou a Grã-Bretanha pela Amazónia e que foi um dos fundadores do coletivo AfroRaiz. 

Mas aqui, o encontro foi especial. No final de uma oficina de dança e conversa com os alunos portugueses do último ano, Dan Baron comentou: “Foi maravilhoso ver os netos dos escravos e os netos dos conquistadores dançarem e conversarem juntos, a procurar soluções”. 

Numa espécie de manifesto, Baron explica que espera que o espetáculo inspire a “denunciar os crimes contra a humanidade de Bolsonaro, e a reconhecer os jovens como os lideres de um novo futuro sustentável, defendendo os rios, florestas e a vida de todas as espécies conta a exploração predatória”.

Todos os alunos dos últimos cinco anos do secundário da EEB2 (num total de mais de mil), foram libertados de dois períodos de aulas, para ao longo das três sessões, que ocuparam um dia inteiro na sala polivalente, participarem num espectáculo de dança, palestras e conversa com outros jovens da Amazónia. 

Joachim Schmelz, sub-director da EEB2, assistiu a uma parte da performance. “É muito emocionante para mim ver estas pessoas que se deram ao trabalho de vir da Amazónia para a Europa para explicar o que se passa lá. Há 30 anos, também eu fui a manifestações pela Amazónia, mas eram outros tempos. Neste momento, toda a floresta está em risco e as pessoas estão mesmo a sofrer”.

Joachim Schmelz explica que mobilizar toda a escola para um dia dedicado à Amazónia está de acordo com os princípios da EEB2 :“As alterações climáticas são um assunto muito importante para nós. Temos uma semana ecológica e há muitos grupos da escola a trabalhar em profundidade sobre questões ambientais”. 

A própria participação dos alunos nas greves climáticas recebe o beneplácito do director, embora sem faltas justificadas: “Pessoalmente estou 100% de acordo que os alunos façam greve e participem nas manifestações pelo clima. Mas todas as lutas são contra o sistema, a luta só é importante se for em troca de algo que nos é precioso. Quando as greves forem ‘gratuitas’ deixam de ter impacto. Mas peço aos professores que tenham o cuidado de não marcar nada importante nesses dias”. 

Na passada greve mundial de dia 20, Joachim Schmelz não participou no desfile em Bruxelas porque teve que ficar na escola “houve muitos professores que fizeram greve e por isso toda a direcção teve que ficar. Com um total de 3.200 alunos na nossa escola era preciso que os diretores ficassem para garantir a normalidade. Mas a minha mulher foi e representou-me”.

“Nesta escola não nos preocupamos apenas com as vitorias académicas dos alunos. Estamos muito empenhados em outras questões e as alterações climáticas constituem um aprioridade. Há um grande consenso entre os professores sobre isto”, resumiu.

11% agora

O evento Amazónia foi organizado pelos alunos do Grupo de Ecologia da escola e da Child Press Academy (a secção de Bruxelas foi criada em parceria pelo grupo de Ecologia e uma associação de promoção de jornalismo para jovens, que funciona exteriormente à EEB2). 

Matthew Pye, professor de Filosofia e de Ética, é o mentor do grupo de Ecologia (que inclui alunos de todas as secções linguísticas). É também autor do livro No Common Sense, no qual através da filosofia se explica a dura realidade das alterações climáticas de uma forma que não deixa margem para dúvidas, com informação avalizada por Birgit Van Munster, uma revisora científica do IPCC (Painel Intergovernmental para as Alterações Climáticas).

Uma das suas principais conclusões é que os objectivos para enfrentar as alterações climáticas não deviam ser de zero emissões em 2050, “porque isso fará com que se adiem todas as decisões e não se alcance nenhum objectivo”. 

Segundo Matthew Pye, “os media e o políticos deviam exigir 11% de reduções todos os anos, começando hoje”. Foi assim, apresentando a curva das emissões dos últimos 30 anos – “ao longo dos quais foram feitos vários acordos pelo clima, mas em que em nenhum momento as emissões baixaram” – que Mathew Pye lançou a sessão sobre a Amazónia . 

“Com um aumento global de temperatura de 3ºC a Amazónia colapsa. E isso terá efeitos não só para as pessoas que estão a viver lá, mas para todo o mundo. Isto não são histórias de terror, é o que dizem os relatórios científicos. Para estas pessoas da Amazónia as alterações climáticas são já reais, fazem parte do dia a dia. Os decisores políticos não fizeram mudanças estruturais e agora estamos no fim do jogo”.

Gaia Cacciato, aluna do último ano da secção portuguesa, e membro do Child Press foi uma das organizadoras, com outro colega, Miguel Martins, a vinda do AfroRaiz a Bruxelas. “Conhecemo-los o ano passado no Child Press. Nessa altura eles estavam a planear a tournée europeia”. 

Gaia fizera no ano anterior o Défi Belgique/Afrique, um programa de intercâmbio cultural, onde viu também “as consequências do nosso estilo de vida e as alterações climáticas na vida dos habitantes numa localidade do Burkina Faso. As pessoas estão a sofrer com a seca”. Voltou “com ainda mais motivação”. 

A primeira manifestação em Bruxelas dos jovens pelo clima, em 20 de Novembro de 2018, foi organizado pelo grupo de ecologia da EEB2. É algo de que Gaia se orgulha. No futuro, a estudante portuguesa gostaria de estudar Direito e fazer voluntariado social.

Quando Dan Baron apresenta o espetáculo dirige-o especificamente aos alunos que encheram o auditório: “Nós, as oito pessoas do coletivo AfroRaíz, viemos a Bruxelas, porque sabemos que vocês são os líderes do futuro. Sabemos que vocês são os filhos dos deputados europeus e de pessoas corajosas que trabalham em ONG’s”. 

Sob o chão das 400 famílias que vivem à beira do rio Tocantins repousa uma das maiores concentrações de ferro e um dos maiores aquíferos de água potável do mundo, conta o inglês. O aquífero já foi contaminado. “Vão ver uma cena que poderá acontecer em 2030, quando os cientistas dizem que poderá haver 50 milhões de refugiados climáticos no mundo”.

A situação no Brasil que levou à intensificação das queimadas na Amazónia, Dan Baron não as atribui apenas ao governo Bolsonaro, embora diga que “as políticas fascistas deste presidente estão a aguçar o apetite das multinacionais pela terra virgem”. Baron assistiu, no momento em que se instalava no Brasil à subida ao poder de Lula da Silva e à esperança “de que o país pudesse humanizar-se”. Mas “o Partido dos Trabalhadores continuou a acreditar num paradigma industrial de desenvolvimento. Ou seja, a democratizar o consumismo e não a transformar a produção”.

‘Amazoniano’ por adoção

A ideia de base do programa de Lula, que tinha passado pela experiência da pobreza “ era libertar as pessoas da fome, para irem para a escola, para pensarem no futuro, e não apenas no dia de amanhã. Mas isto também foi destruindo a Amazónia. A última ação de Dilma Roussef como presidente do Brasil foi abrir a barragem Hidroelétrica de Belo Monte, ignorando o conhecimento sobre a Amazónia, ignorando a pesquisa científica, o conhecimento indígena e os movimentos sociais” .

Dan Baron tem uma história invulgar. É um ‘amazoniano’ por adoção. Nasceu em Londres, com raízes no País de Gales, e quando estava a leccionar teatro comunitário na Universidade de South Wales, foi convidado como professor visitante na universidade pública de Santa Catarina do Sul. Já tinha estudado a Pedagogia do Oprimido, do conhecido pedagogo brasileiro Paulo Freire. E em 1998 foi convidado pelo Movimento dos Sem Terra (MST) a ajudar a construir um monumento para lembrar um dos maiores massacres contemporâneos, em 1996, no Estado do Pará, quando a polícia militar matou 19 camponeses. Seria de seguida convidado a criar um monumento de homenagem aos 245 povos indígenas do Brasil, no lugar onde Pedro Álvares Cabral desembarcou em 1500. “Foi quando a polícia militar destruiu este monumento que percebi que iria ficar definitivamente no Brasil”. Baron haveria de criar ainda outro monumento com os índios ataxós e em parceira com Manuela Souza, que atualmente também trabalha na comunidade AfroRaíz. 

Mas hoje, 22 anos depois de viver no Brasil, sustenta que se orgulha do “monumento vivo” que há 11 anos ele e a gestora cultural brasileira criaram na zona empobrecida de Cabelo Seco, nas margens do Tocantins, no sul do Pará, e que hoje inclui um projecto comunitário Rios de Encontro, participado e dirigido por jovens da comunidade afro-indígena. Camila Alves, de 24 anos, e que está no AfroRaiz desde o início, refere que os jovens estão “a fazer a comunidade crescer, planear o futuro, capacitar outros jovens. Mas incomoda que nós jovens estejamos liderando um projecto tão grande como esse. E neste momento os fundos estão a ser cortados”.

Manuela Souza explica que o projeto foi evoluindo “como desenvolvimento humano e cultural, como apoio comunitário e como de defesa da Amazónia e todos os anos encontramos coisas novas para fazer”. O projeto inclui uma escola de dança, uma biblioteca, projetos de cinema, uma rádio-bicicleta a energia solar, naquilo a que chamam o paradigma de ‘bem viver’.

A eurodeputada Julie Ward foi uma das convidadas da sessão. Conheceu Dan Baron há muitos anos por também ela ter trabalhado em teatro comunitário antes de em 2014 ter ganho pelo Partido Trabalhista inglês um assento no Parlamento Europeu para “dar voz aos que não têm voz”. Visitou Cabelo Seco onde presenciou “violência todos os dias, em todas as formas. Assassinatos, violência sexual financeira. E a recente retirada de fundos e uma máquina do Estado a esmagar tudo. Grandes projectos de infraestrutura a chegar à região, como uma grande barragem na cidade, que não queriam e que não era necessária. E quando as outras grandes barragens foram feitas isso trouxe ainda mais violência”.

Julie Ward, que admite regressar às suas raízes de ativista comunitária e “quem sabe, ir para o Brasil”, refere que o Rios de Encontro tem entregue poder aos jovens. “Permitindo-lhes que redescubram a refaçam a sua cultura. Quando estive no Brasil, também fui ao coração da Amazónia para me cruzar e conversar com as tribos indígenas. Estive com duas tribos diferentes. As suas experiências de perderem tudo, a água ser envenenada, o seu ambiente a ser descrido.Mas a pior coisa que perderam foi a sua dignidade”.

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