Amílcar Monteiro

“Na Caritas pus os meus contactos ao serviço das pessoas”

Amílcar Monteiro, 60 anos, trabalhou como agente sócio-educativo na Caritas Luxemburgo nos últimos 36 anos. Depois de 40 anos de carreira contributiva, pediu a pensão de velhice antecipada. Natural de Vinhais, em Trás-os-Montes, foi o “anjo da guarda” de muitos imigrantes a quem ajudou a arranjar trabalho, encontrar alojamento ou mesmo traduzir documentos.

Amílcar Monteiro deixou a Caritas Luxemburgo depois de de 36 anos ao serviço dos mais necessitados
Amílcar Monteiro deixou a Caritas Luxemburgo depois de de 36 anos ao serviço dos mais necessitados
Foto: Lex Kleren

Em entrevista ao Contacto, Amílcar Monteiro fala da dificuldade dos imigrantes no Luxemburgo, lembra algumas das histórias que o marcaram, e diz que gostava de ver o Consulado de portas abertas, pelo menos um dia.

Quando é que veio para cá?

O meu pai tinha cá um amigo “caixeiro-viajante” que me arranjou um trabalho no hotel Herber, em Berdorf. Lembro-me que cheguei no dia 10 de março de 1977, às 2h da manhã, e na tarde do dia seguinte fui até ao hotel. Quando cheguei serviram-me um prato frio. Não estava habituado àquilo. Olharam para mim e disseram: “Então, não come? Não está habituado?”. Disse-lhes que não e lá me fizeram umas batatas e um bocado de carne. No fim da refeição disseram-me: “Temos uma má notícia. Como o senhor chegou atrasado, o lugar já está ocupado”. Eu sabia que tinha chegado atrasado porque antes de partir estive ainda a tratar dos papéis para a dispensa militar. Mas depois lá veio o proprietário e levou-me no jipe até aos terrenos de caça dele. Na conversa, disse-lhe que o meu pai também tinha terrenos em Portugal e ele perguntou-me: “Então porque é que emigraste?”

E porque é que veio?

Foi o que disse ao proprietário: “Porque me apeteceu”. Tinha acabado o 12° ano e estava um bocado chateado com a situação política pós-25 de abril, com os militares, etc. Um irmão meu, economista, chamou-me para ir trabalhar num banco em Lisboa e continuar a estudar à noite. Mas com a minha irreverência de jovem disse que ia para o Luxemburgo. O meu pai tinha-me comprado um bilhete de comboio ida e volta. Quando vi o bilhete, perguntei ao meu pai se ele não se tinha enganado, porque eu ia para ficar, com contrato legal como “serveur” na hotelaria. Mas ele achou que eu não ia ficar. Se calhar devia ter ouvido o meu irmão, mas não ouvi.

Arrepende-se?

Não me arrependo. Provavelmente teria feito lá advocacia. Mas uma pessoa quando é jovem, tem aquela vontade de fazer o que quer e não olha a outras coisas.

E como chegou à Caritas?

Antes disso substituí uma professora portuguesa, que estava grávida, no serviço de ensino e fiz depois alguns pequenos trabalhos com outros patrões, na hotelaria. Lembro-me de uma altura em que o Jean-Claude Juncker, que era então secretário de Estado do Trabalho e que assinava os documentos, disse-me para continuar nesta área e que um dia eu iria ter uma só profissão e um só patrão. Mas lá aconteceu que um dia anunciaram numa missa que estavam à procura de alguém com o 12° ano. Fui falar com o padre Belmiro [Narino], que não conhecia, e de entre algumas pessoas fui o escolhido.

"Recebi em média 40 pessoas por mês, cerca de 17 mil em 36 anos".
"Recebi em média 40 pessoas por mês, cerca de 17 mil em 36 anos".
Foto: Lex Kleren

Quando começou a trabalhar?

Comecei a trabalhar a 15 de setembro de 1981, no n° 29 da rua Michel Welter. Quando me mostravam o escritório, olhei para a lista telefónica e vi que era de 1979. Disse ao diretor que aquilo já estava ultrapassado, ao que ele responde: “Já sabe onde são os correios. Pode lá ir buscar uma nova”. (risos) Foi a minha primeira intervenção e reivindicação. Ficou-se a saber que havia ali um português que começava a trabalhar. Ainda nesse dia liga-me uma senhora portuguesa a queixar-se dos problemas alcoólicos do marido. Disse-lhe que talvez não fosse a pessoa indicada porque não era do ramo da Psicologia. Ela respondeu que queria falar comigo na mesma e lá veio ao escritório naquela tarde. Contou que o marido não estava a tomar a medicação e que estava a ficar violento. Cinco minutos depois alguém bate à porta com alguma violência. A mulher suspeitava que o marido tivesse ouvido a conversa telefónica e que estava ali. Como eu não tinha nenhum buraco para me meter, fui à porta com coragem. Era um grandalhão (risos). Começou a ralhar com a mulher, mas tive de mostrar autoridade e criar respeito. Foi assim que comecei o primeiro dia de trabalho.

Ao longo desses 36 anos, tem ideia de quantas pessoas terá recebido?

Em média eram 40 pessoas por mês, o que faz cerca de 17 mil pessoas.

O que mais lhe solicitavam?

Não trabalhava a tempo inteiro porque também passei a dar aulas de religião e moral. Mas primeiro pediam-me trabalho, e com isso vinha relacionado o alojamento. Mais tarde apareceram as dificuldades administrativas, como preencher um formulário de imposto, traduzir um documento, fazer um pedido de abono de família, etc. Depois de ter feito formação em Língua e Literatura Francesa e passar a ser tradutor ajuramentado em 1992, passei a ajudar mais as pessoas. Só por telefone não funcionava e passei a ir para o terreno tratar dos abonos de família às quartas-feiras de manhã. Às segundas à tarde deslocava-me às empresas para ajudar a colocar as pessoas no mercado de trabalho, sobretudo aquelas que acabavam de chegar ao país e não sabiam como fazer as coisas. Todos os meses punha alguém a trabalhar.

Uma senhora chegou a dizer numa entrevista ao Contacto, em 2011, que você era um “anjo da guarda”.

É um caso interessante. A senhora era costureira em Seia. Levei-a a uma casa de costura na Belle Étoile [centro comercial em Bertrange] e ainda hoje lá está. Há um ano, apareceume uma assistente dentária. Traduzi-lhe o diploma e disse-lhe que podia perguntar ao meu médico. Foi selecionada e trabalha em Wasserbillig. Eu perguntava sempre o que faziam e as coisas aconteciam assim sem preparação.

Mas graças aos seus contactos...

Eu punha os meus contactos ao serviço das pessoas. Era o meu dentista, era a pessoa que fazia bainha às minhas calças, etc. Mas aos sábados costumava também comprar o jornal Wort para procurar trabalho. No ano passado vi, por exemplo, que a empresa Robert Steinhäuser precisava de alguém para trabalhar.

Foi lá com a pessoa?

Sim. E revi o curriculum.

Como é que se apresentou?

Como técnico de ação social da Caritas.

E isso facilitava as coisas...

Ficava uma atitude de respeito. Vi no olhar deles que não estavam ali para brincar e que era sério. Ficaram com os documentos e mais tarde chamaram a pessoa.

"Acabei por ser guiado pelas necessidades das pessoas".
"Acabei por ser guiado pelas necessidades das pessoas".
Foto: Lex Kleren

Há pouco deu o exemplo de um caso recente, de uma imigrante com formação superior. Com a última vaga de emigração portuguesa, passou a receber mais pessoas?

Se antes recebia por vezes 30, 40 ou 50 pessoas por mês, com essa última vaga passei para 70. Foi uma fase difícil não só pela quantidade, mas também pela diversidade. Havia muita gente com formação superior: assistentes sociais, advogados, juristas, enfermeiros e outras profissões de saúde. Já na área da construção civil, eram mais fáceis de colocar.

As necessidades eram as mesmas?

Sempre que alguém vinha falar comigo era por causa do trabalho, mas eu antecipava logo: “...mas e o alojamento?”. Respondiam: “Ah, também a casa”. Eu sabia que precisavam de um quarto numa pensão, num café ou com um familiar. Depois já era preciso arranjar alguma coisa a título mais definitivo.

Em 2012, o antigo conselheiro das Comunidades Eduardo Dias qualificava esta última vaga de “emigração parva”, que chegava sem preparo. Acha que a campanha de informação sobre o fim do “El Dorado luxemburguês” chegou a Portugal e as pessoas mudaram de atitude?

Essa vaga terminou. Não há agora uma chegada massiva. Essa imigração, não a considero parva. É parva no sentido que não foi preparada, mas na realidade, as pessoas não podiam continuar naquela situação de crise. Muita gente disse “eu agarro na mala e vou embora”, porque não tinham emprego, tinham de vender as suas casas, e numa situação dessas a pessoa vai até ao inferno e pede autorização ao diabo. Era urgente sair e as pessoas saíam de olhos fechados. Daí a “emigração parva” de Eduardo Dias. Não havia tempo para se preparar. Agora há, emigra-se menos, Portugal oferece melhores condições e há uma outra consciência.

Uma das frases suas que ficou conhecida foi “Portugal devia exportar mercadorias e não pessoas”...

Sim, mas hoje os índices são outros e Portugal pôde sair daquele período de dívida excessiva. O desemprego baixou significativamente e essas pessoas já podem permanecer lá, ao mesmo tempo que a exportação aumenta, com produtos interessantíssimos desenvolvidos em Portugal. O país está no bom caminho, embora a situação dos enfermeiros, que continuam a sair, sobretudo para o Reino Unido.

Mas não foram só portugueses que você ajudou...

Quando falo em portugueses, refiro-me sobretudo aos lusófonos: cabo-verdianos, brasileiros e ultimamente guineenses, que vêm com nacionalidade portuguesa.

Grande parte destes e de outros imigrantes, continuam a ser os mais desprotegidos na sociedade luxemburguesa. Do contacto que teve com as autoridades luxemburguesas, o que acha que pode ser feito, por exemplo, para facilitar o acesso à habitação?

Há coisas que estão melhores, como os jovens formados que até já ocupam lugares-chave na administração: a segunda geração. Mas o que me choca é a quantidade de gente que trabalha no Luxemburgo e reside em Aubange, Athus, e Arlon, na Bélgica, e em Audun-le-Tiche e Villerupt, em França. Não conseguem aqui um alojamento decente, porque é muito caro. O pior é quando têm filhos. É uma certa violência que se faz ao menor, que gostava de estudar aqui, de aprender luxemburguês. Esta criança poderia ser amanhã o melhor engenheiro, o melhor informático ou o primeiro-ministro. Luxemburgo devia facilitar um alojamento a todos os que aqui trabalham.

"Essa emigração é parva no sentido que não foi preparada, mas na realidade, numa situação dessas a pessoa vai até ao inferno e pede autorização ao diabo."
"Essa emigração é parva no sentido que não foi preparada, mas na realidade, numa situação dessas a pessoa vai até ao inferno e pede autorização ao diabo."
Foto: Lex Kleren

E porque não o faz?

Não sei. Desconheço. Talvez o poder político consiga mudar a situação, mas vemos por exemplo que a lista de espera no Fundo da Habitação nunca avançou de forma rápida. Conheço dezenas de pessoas necessitadas que estão à espera há cinco ou seis anos, que têm de refazer o processo, enviar novamente os documentos...

E isso desmotiva...

Desmotiva e ainda por cima quando se veem por aí casas vazias há mais de 10, 20 ou 30 anos. Essas pessoas que moram do outro lado da fronteira dizem-me que se pudessem vinham morar para o Luxemburgo. Lá pagam 600 euros e têm dois quartos, enquanto aqui teriam de pagar 1.300 euros. Além do preço exorbitante, o inquilino paga dois meses de caução, um mês à agência e ultimamente já se pede um fiador. Isto é só para os ricos e não pode ser. Porquê sobrecarregar aquele que tem pouco?

Voltando ao seu trabalho na Caritas, o que lhe dava mais prazer fazer?

Acompanhar as pessoas a uma administração para tratar de algum documento, conseguir trabalho para elas... Mas também dava-me satisfação quando as pessoas viam-me na rua e vinham agradecer-me. Eram as minhas medalhas.

Alguns momentos marcantes?

Mais ultimamente vi pessoas que choravam devido à difícil situação que estavam a passar. Tinha de fazer um bocado de psicólogo. Houve também o caso de um jardineiro cabo-verdiano, que ainda mora em Esch. No formulário de pedido de abono só havia cinco linhas para os nomes dos filhos. Como ele tinha mais de cinco crianças a cargo, tinha dinheiro a reaver. Consegui levar as coisas a bom termo e ele recuperou 37 mil euros, 5 mil deles pagos por Portugal e os 32 mil pagos aqui. Para agradecer, ofereceu-me depois um par de calçado.

Costumavam oferecer-lhe prendas?

Não muito, mas lembro-me que depois de ter ajudado um casal, que mais tarde foi para Portugal, chegou à Caritas metade de um presunto pelo correio. E diz o diretor: “Que história é esta?”. Eu respondi que não pedi nada e que as pessoas só me disseram que iriam agradecer-me. O diretor ficou super chateado. Os luxemburgueses não estavam habituados a estas coisas. (risos)

Mas nem todos os casos acabavam assim...

Tive alguns casos desagradáveis. Fui com uma pessoa que veio de Almada a uma empresa. Depois do contacto, o responsável dos recursos humanos disse “Vai começar amanhã. Mas olhe, esqueci-me... tem aí a carta de condução?” A pessoa não tinha carta e o contrato foi rasgado. Mas de uma forma geral acho que desempenhei a minha função. Ninguém me disse para ser tradutor ou procurar trabalho para as pessoas. Disseram-me “está aqui uma secretária e uma cadeira, desenrasque-se”. Acabei por ser guiado pelas necessidades das pessoas. Se calhar daqui a alguns anos vai ter outros contornos.

"O consulado (...), nunca esperei que este serviço aos cidadãos fechasse as portas e passasse à marcação prévia. Porque não ficam até mais tarde ou um dia de portas abertas? O Cactus abre às vezes aos domingos de manhã, e há um banco que também às vezes abre aos sábados. Isto é conforme os interesses."
"O consulado (...), nunca esperei que este serviço aos cidadãos fechasse as portas e passasse à marcação prévia. Porque não ficam até mais tarde ou um dia de portas abertas? O Cactus abre às vezes aos domingos de manhã, e há um banco que também às vezes abre aos sábados. Isto é conforme os interesses."
Foto: Lex Kleren

Já há alguém para o seu lugar?

Pelo que sei, não me foi dado a entender que o cargo fosse reconduzido. Deixa-me triste porque a Caritas é a primeira instituição social da Igreja Católica. Mas tenho a certeza que a Caritas vai continuar a estar atenta aos necessitados.

Nesse trabalho tinha também parcerias com outras instituições...

Reenviava as pessoas para aprenderem línguas nas amizades Portugal-Luxemburgo, no CASA, CCPL, Santa Casa da Misericórdia, ASTI, Amizade Cabo-verdiana. Também ajudei pessoas vindas da CCPL a arranjar trabalho na Caritas. Agora espero que as associações se unam e se complementem agora nestes serviços que vão ficar por fazer. Sobre o consulado, que também tem uma área social, nunca esperei que este serviço aos cidadãos fechasse as portas e passasse à marcação prévia. Porque não ficam até mais tarde ou um dia de portas abertas? O Cactus abre às vezes aos domingos de manhã, e há um banco que também às vezes abre aos sábados. Isto é conforme os interesses.

Onde vai gozar a pensão de velhice antecipada?

Comecei no dia 1 de setembro e no imediato vou estando por aqui e em Portugal. Mas vai ser difícil deixar o Luxemburgo porque está cá o meu sapateiro, o meu barbeiro, o meu cirurgião, o meu mecânico... Isto já pesa muito... Sabe, há uma amálgama de sentimentos: de alegria, por ter conseguido atingir este objetivo, e de tristeza, por ter entrado esta semana numa confusão.

Quebra de rotina...

Estava preparado, mas de repente ter de pensar “Hoje já não vou trabalhar”... É preciso passar por isso. É duro. Talvez vá estudar política.

Henrique de Burgo

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