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Aluga-se cadeira cor-de-laranja
Editorial Sociedade 4 min. 29.10.2020

Aluga-se cadeira cor-de-laranja

Aluga-se cadeira cor-de-laranja

Foto: DR
Editorial Sociedade 4 min. 29.10.2020

Aluga-se cadeira cor-de-laranja

Filipa MARTINS
Filipa MARTINS
Não adiantou argumentar, garantir que os sapatos Louboutin merecem mais do que um quadrado de chão, porque passei sempre por sentimentalmente descompensada, intrusa e desrespeitadora.

Fim-de-semana sim, fim-de-semana não – e, por vezes, dois a três dias por semana - tive residência alugada por baixo de uma cadeira cor-de-laranja de plástico no sétimo andar de um prédio das Olaias, propriedade de um cinquentão semi-divorciado e pai. Cadeira das modernas, que fazem figura ao lado de móveis sem cornucópias do IKEA, com o assento continuidade das costas, parca em juntas. O espaço foi-me concedido por usucapião (julgo que é este o termo jurídico, do latim usucapio, relativo à posse de um bem móvel ou imóvel, em decorrência do uso deste bem por um determinado tempo). Ao início, o espaço mostrava-se ideal para duas mudas de roupa dobradas com preceito, tecido pouco dado a vincos, uma bolsa de higiene básica e sapatos fechados, porque estando o tempo bom há sempre surpresas e as sandálias de cunha têm poucas garantias de versatilidade.

Por altura do registo de morada, a funcionária impaciente da loja do cidadão franziu-me o sobrolho: cadeira cor-de-laranja, nas Olaias?

‘Disse Olaias?’, questionou impaciente.

‘Olaias, garanto-lhe’, respondi.

‘Sabe, pelo menos, o código-postal?’, entre suspiros, olhando para a fila de outras, que, como eu, aguardavam vez para registar duas gavetas de mesa-de-cabeceira ou um armário de casa-de-banho ou, as mais sortudas, três a quatro cabides no roupeiro de um advogado separado, mas não divorciado, no Restelo.

‘Nas Olaias, o sistema só me reconhece uma cómoda de quarto e uma prateleira de lavatório’, explicou-me, aborrecida.

‘Procure melhor’, em desconforto. ‘Há vezes – quando os miúdos ficam em casa da ex-mulher - que penduro um vestido de noite, escondido por trás de casacos e sobretudos, no bengaleiro da entrada. Não sei se ajuda na localização’.

As outras, cada uma com a sua senha, medindo o tamanho da propriedade da do lado, esperavam para serem atendidas. Encostada à parede do fundo, depois do balcão e dos guichés, uma mulher loira de raízes escuras e cigarro no canto da boca confessava a outra o azar que tinha tido.

‘Imagina tu que deixei duas dormidas por semana num sofá no Barreiro por um psiché de entrada onde só posso deixar as chaves do carro e o tabaco.’

‘E onde fica?’

‘Na Ajuda’

‘Parece-me gula de quem quer vir morar para Lisboa’, criticou a outra.

‘Achas que registam psichés?’

Mais afortunada a interlocutora tinha para a troca duas semanas de estio na esquina da Almirante Reis com a Calçada do Desterro na companhia de senhor idoso, bem casado, mas respeitador, que a visitava quando a família rumava de férias para a Ericeira.

Entre as quatro pernas da cadeira cor-de-laranja, o espaço é exíguo, apesar de o carinho que vamos ganhando com o hábito nos puxar para o eufemismo: acolhedor, estreito, adequado. O comportamento feminino, porém, dado a lusco-fuscos de vaidade, incapaz de conceber escolhas limitadas na hora de decidir o traje diário, tem tendências para desrespeitar fronteiras e colonizar território vizinho. Não foram poucas as vezes que uma manga de camisa ou um segundo par de sapatos apareceram em espaço alheio. Ao lado, perto, mas não debaixo e entre os pés da cadeira cor-de-laranja de plástico. Os estereótipos contemporâneos são pouco indulgentes, sempre prontos a catalogar comportamentos, e aquilo que não era mais do que uma inadaptação a espaços limitados torna-se, sem nos apercebermos, numa necessidade de aprofundar a relação, um desrespeito grave por limites emocionais e pela incapacidade do outro de se entregar a um relacionamento sério. Não adiantou argumentar, garantir que os sapatos Louboutin merecem mais do que um quadrado de chão, porque passei sempre por sentimentalmente descompensada, intrusa e desrespeitadora. Sôfrega de compromisso. Uma bomba biológica em contagem decrescente. Enfim, capaz de levar ao histerismo quarentões amachucados por compromissos passados, à mercê de ex-cônjuges igualmente asfixiantes, e cuja pouca capacidade de compromisso se resume a namoriscar com universitárias, tomar o pequeno-almoço no bar de faculdades e beber ao entardecer Dry Martini.

Medir o estado das relações em função do espaço para copos de bochechar e escovas de dentes é técnica antiga e certeira. Quando fico farta de me acomodar entre iogurtes fora de prazo no frigorífico e lâminas de barbear descartáveis, fazendo parte do ecossistema sem o alterar – qual investigador da vida selvagem -, volto para casa, onde posso deixar os sapatos à porta e cabelos no lavatório. À entrada, a porteira pergunta-me:

 ‘A viagem da doutora correu bem?’

‘Duas gavetas de uma cómoda e um cabide’, respondo.

‘Não está mal, doutora. Da última vez, se bem me lembro, tinha as costas de uma cadeira para pendurar o casaco’, argumenta a porteira.

 ‘Estou cansada de ser inquilina, sabe. Vou arrendar um espaço para dois porta-fatos entre vestidos de noite no roupeiro lá de casa’, digo-lhe.

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