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O planeta a crédito (e com juros)
Opinião Sociedade 3 min. 04.08.2021
Alterações climáticas

O planeta a crédito (e com juros)

A cidade de Erftstadt, no estado alemão da Renânia do Norte-Vestefália. O país foi o mais afetado pelas cheias de julho passado na Europa.
Alterações climáticas

O planeta a crédito (e com juros)

A cidade de Erftstadt, no estado alemão da Renânia do Norte-Vestefália. O país foi o mais afetado pelas cheias de julho passado na Europa.
Foto: Rhein-Erft-Kreis/dpa
Opinião Sociedade 3 min. 04.08.2021
Alterações climáticas

O planeta a crédito (e com juros)

Raquel RIBEIRO
Raquel RIBEIRO
O Plano de Recuperação e Resiliência de Portugal tem 346 páginas, mas só uma única vez se usa a expressão "emergência climática".

Todos nos lembramos ainda quando, no princípio da pandemia, se partilhavam notícias sobre como a desaceleração da produção industrial, os confinamentos e a suspensão dos transportes nos revelavam um planeta em rejuvenescimento. De repente, até golfinhos nadavam nos canais de Veneza (era fake news).

Um relatório da ONU revelou que no auge dos confinamentos de 2020, a redução das emissões chegou aos 17%, comparadas com 2019. No último trimestre de 2020, o relatório já dava conta de níveis "normais" de CO2 na atmosfera.

Esta redução não evitou que dia 29 de Julho (20 dias antes que em 2020), o planeta tenha entrado naquilo que agora (em economês, que é a linguagem dominante para ler o mundo) se chama "défice", ou tenhamos passado a viver a "crédito". Isto é: a relação entre a "pegada" das actividades humanas e a capacidade de regeneração dos ecossistemas é negativa. Gastamos mais do que o que temos, como quando compramos algo para o qual não temos dinheiro e ficamos a dever ao banco. Com juros.

As notícias do rejuvenescimento do planeta pareciam publicidade a cremes para as rugas: todos sabemos que as modelos fizeram liftings, mas continuamos a usar porque, sendo mentira, a pele ficará pelo menos hidratada.

As notícias do rejuvenescimento do planeta pareciam publicidade a cremes para as rugas: todos sabemos que as modelos fizeram liftings, mas continuamos a usar porque, sendo mentira, a pele ficará pelo menos hidratada. Foi assim que durante mais de 20 anos acreditámos no mercado de emissões de carbono, em que, na prática, os grandes poluidores pagavam para evitar multas, pagavam para aliviar os impostos, pagavam para poderem poluir comprando no "mercado" crédito de emissões de CO2. Também foi assim que acreditámos que os países ocidentais teriam níveis de reciclagem magníficos – a Alemanha é limpa e exemplar, mas é o maior exportador de plástico (para países em desenvolvimento) de toda a Europa. Varremos o lixo para debaixo dos armários.

Fazer a leitura de um ecossistema vivo como se faz um balancete é pensar que, traindo Lavoisier, se tudo se comprar e tudo se vender, eventualmente se transformará. Nada mais equivocado: o famoso estudo do MIT de 1972 que previa o colapso do planeta em escalada ecocida está aqui, antes das previsões mais drásticas. Está nos incêndios por toda a Califórnia, na Turquia, na Sicília, nas cheias devastadoras da Europa Central, nos 55 graus de Atenas ontem, nas temperaturas extremas da costa Oeste dos EUA e do Canadá, onde mexilhões cozeram em pleno mar e aldeias normalmente húmidas e verdejantes pegaram fogo. Grandes vendedores de CO2: os ricos e industrializados acharam que se livravam do lixo, e ele choveu de volta.

Em Portugal, com centenas de quilómetros de costa em risco de subida dos oceanos e uma das maiores áreas florestais ardidas de toda a Europa, o que surpreende é como o Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) que aí vem use, nas suas 346 páginas, a expressão "emergência climática" uma única vez.

Cito do relatório, porque é uma beleza: "O ambicioso objetivo da descarbonização, entendido como indispensável para minorar as consequências decorrentes de uma eminente [sic] emergência climática, está ancorado numa forte vontade política e numa trajetória com resultados interessantes em matéria de energia e clima." (p. 292)

Como professora, estou bem habituada à técnica usada por alunos para encher páginas e não dizer nada: "uma forte vontade política" e "trajetória com resultados interessantes" é, vulgo, palha. E não é eminente (apesar de ser realmente importante), é iminente: é já, é agora, imediata. Quando o PRR não distingue eminente de iminente, sabemos que para o governo os resultados catastróficos da acção do capitalismo selvagem e do crescimento económico desmesurado sobre o clima serão apenas uma operação de cosmética.

(Autora escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico.)

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