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Cortar já nas emissões ou sofrer consequências terríveis
Sociedade 5 min. 09.08.2021
Alterações climáticas

Cortar já nas emissões ou sofrer consequências terríveis

Alterações climáticas

Cortar já nas emissões ou sofrer consequências terríveis

Foto: AFP
Sociedade 5 min. 09.08.2021
Alterações climáticas

Cortar já nas emissões ou sofrer consequências terríveis

Telma MIGUEL
Telma MIGUEL
Relatório de cientistas da ONU alerta para o perigo de as temperaturas aumentarem 1.5ºC já em 2050. O documento diz que é inequívoca relação entre atividade humana e alteração do clima e que a humanidade enfrenta perigo iminente.

A ciência é cada vez mais clara. O último e mais detalhado relatório sobre o estado do planeta, apresentado hoje, dia 9, conclui que sem um corte rápido e drástico na emissão de gases com efeito de estufa (GEE), o mundo atingirá os 1.5ºC de aumento de temperatura em relação ao período pré-industrial antes de 2050. O muito esperado relatório do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC, na sigla inglesa), que reúne oito anos de estudos e foi feito com ferramentas e modelos mais avançados é um sinal de alerta vermelho. E é, reconhecidamente, o texto científico que servirá para os decisores políticos reunidos na COP26 em novembro em Glasgow, traçarem o destino da humanidade. 

“Estamos a avisar há três décadas sobre os perigos. O mundo ouviu mas não atuou. As alterações climáticas estão aqui e agora e estão a piorar. E ninguém está a salvo. Temos que tratar a subida da temperatura, a perda de biodiversidade e a poluição como uma ameaça imediata. As alterações climáticas já começaram a exacerbar eventos extremos”, disse Inger Andersen, diretora do Programa Ambiental das Nações Unidas, na apresentação do relatório. 


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O relatório “Alterações Climáticas 2021: A base da Ciência Física” foi aprovado na passada sexta-feira pelos 195 governos que compõem o IPCC, o órgão científico da ONU que estuda a ciência do clima. Embora seja um documento destinado a informar a decisão dos governantes, o seu presidente, Hoesung Lee, sublinha que não contém avaliação das políticas. “Nós somos politicamente neutros. E espero que não haja más interpretações das nossas prioridades”, referiu na conferência transmitida através do YouTube e Facebook. 

No entanto, é claro o objetivo e o facto de o relatório ter uma versão que é um sumário acessível para cidadãos e políticos. “As inovações neste relatório e os avanços na ciência do clima que reflete, fornece um input fundamental para as negociações (na COP26) e na tomada de decisões”, disse. 

A posição manifestada pelos cientistas é que o clima do futuro depende das decisões que forem tomadas agora. Inger Andersen salientou que “como cidadãos, governos e empresas estamos muito conscientes do drama que já está a desenrolar-se à frente dos nossos olhos. O relatório diz o que acontece se não agirmos. O poder está nas nossas mãos”. 


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Na COP26, onde se espera que os países entreguem os seus planos para atingir a neutralidade carbónica em 2050 (tal como foi definido no Acordo de Paris, em 2015), haverá cientistas do IPCC para poderem informar e interagir com as delegações dos países. 

O relatório hoje apresentado foi construído tendo por base 14 mil estudos científicos e foi assinado por 234 autores de 65 países. É considerado o melhor retrato do estado do planeta, incluindo uma nova ferramenta acessível a todos, o Atlas Interativo onde é possível analisar detalhadamente as influências em todos os pontos do planeta. 

Desde o último relatório, os modelos e as ferramentas foram apuradas, e os cientistas consideram que é agora completamente “inequívoca a relação entre a emissão de GEE e o aquecimento do planeta”. Bem como a relação entre o aquecimento e os efeitos que já se fazem sentir e os que irão acontecer. “Sabemos melhor que nunca como o clima mudou no passado, no presente e como será no futuro, o que é essencial para compreender para onde caminhamos, o que pode ser feito e como podemos preparar-nos”, disse Valérie Masson-Delmotte, co- presidente do grupo de trabalhos que produziu o relatório. “Mas ainda é possível ficarmos em 1.5ºC de aumento de temperatura em 2050 mas só se reduzirmos muito rápida e drasticamente as emissões”, salientou a cientista. Se isso não acontecer, “o mundo enfrentará 2ºC de aquecimento global em 2050”. Com ações drásticas encetadas já a um nível mundial é possível chegar a 2050 com uma temperatura média que não ultrapasse os 1.5º e reduzi-la ligeiramente até ao fim do século, com benefícios para todos os seres vivos. 


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“Está na altura de levar isto muito a sério: cada tonelada de gases de efeito de estufa para a atmosfera aumenta a temperatura”, avisou Inger Andersen. 

A ação humana aqueceu o planeta a um nível sem precedentes nos últimos 2000 anos, sustentam os cientistas, alertando que nas próximas décadas as ondas de calor extremo serão mais frequentes e prolongadas, tal como as chuvas intensas – como as que se verificaram este verão na Europa – bem como as secas e as condições atmosféricas que descontrolam os incêndios florestais. 

Há alterações que já são irreversíveis - como o derretimento das calotes polares na Gronelândia e nos glaciares e a acidificação dos oceanos - mas que com a queda rápida de emissões podem ser abrandadas. 

“Muitas das alterações visíveis hoje não têm precedentes em milhares de anos, e algumas das mudanças que já começaram – como o aumento do nível das águas do mar – serão irreversíveis por centenas e milhares de anos. Contudo, uma forte e contínua redução de CO2 e de outros GEE pode limitar as alterações climáticas. E embora os benefícios para a qualidade do ar se notem depressa pode levar 20 a 30 anos para vermos as temperaturas a estabilizarem”, refere-se no relatório. 

“As alterações climáticas já estão a afetar cada região do planeta de diversas formas. E aquilo por que vamos passar acelera com cada aumento de temperatura”, salientou Panmao Zhai, outro dos coordenadores do grupo de trabalho que produziu o relatório. “Para estabilizar o clima vai ser necessário reduções drásticas de gases com efeito de estufa. Limitar a emissão de metano será especialmente importante e com efeitos imediatos na saúde e na regulação do clima”. 

O metano é um gás que é emitido em grande escala na agricultura - e sobretudo na criação de bovinos - nas lixeiras e na degradação de desperdício alimentar e na prospeção mineira e de petróleo.

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