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Álcool. As mulheres no Luxemburgo têm vergonha de pedir ajuda
Sociedade 14 min. 14.07.2021
Alerta dos médicos

Álcool. As mulheres no Luxemburgo têm vergonha de pedir ajuda

Alerta dos médicos

Álcool. As mulheres no Luxemburgo têm vergonha de pedir ajuda

Sociedade 14 min. 14.07.2021
Alerta dos médicos

Álcool. As mulheres no Luxemburgo têm vergonha de pedir ajuda

Paula SANTOS FERREIRA
Paula SANTOS FERREIRA
As mulheres no Grão-Ducado estão a beber mais. Bebem o dobro da média europeia. Escondem a dependência porque a sociedade não as aceita. O alerta vem de quem as trata.

Anna (nome fictício) tem 54 anos, é secretária, tem dois filhos, de 30 e 26 anos, a mais velha é veterinária e o mais novo engenheiro, com quem tem uma relação próxima, não tem problemas financeiros e mesmo tendo-se divorciado há 10 anos do marido, diretor de uma empresa, mantém um relacionamento salutar com ele. Sabe também que pode sempre contar com o seu círculo de amigos, porém, nos últimos tempos, tem cancelado muitos encontros para ficar, em casa, a beber sozinha.

A bebida começou a tornar-se um problema para Anna ainda antes do divórcio tendo-se agravado depois do fim do casamento. Nos últimos tempos, esta residente no Luxemburgo bebia dois a três litros de vinho por dia, de preferência espumante ou rosé, começando muitas vezes logo pela manhã. Foi quando começou a ter problemas no trabalho em virtude do consumo excessivo que decidiu procurar apoio especializado para a sua adição, contou ao Contacto a psicóloga Claude Besenius, diretora da Reaklinik, Centre Thérapeutique de Useldange (CTU), do Centre ÄDDI-C (Centre d'information, de consultation et de prise en charge spécialisé dans l'addictologie), onde Anna tem estado a realizar a “gestão da dependência do álcool”. Anna “teve períodos em que bebeu menos e não teve sintomas de abstinência, mas recentemente começou a ter suores”, recordou esta responsável.

Anna não é caso raro. No Luxemburgo, Portugal, França e outros países europeus as mulheres bebem cada vez mais, começam cada vez mais jovens e o alcoolismo feminino está a aumentar.

O Luxemburgo é um dos países com as mais altas taxas de consumo de bebidas alcoólicas da Europa. Em 2017, a média de consumo de álcool entre as mulheres da União Europeia era de 12%, no Luxemburgo era de 24%, nos homens do país, de 45%, em relação aos 26% da média da UE, segundo os dados do Observatório Europeu.

As mulheres do Luxemburgo são das que mais bebidas alcoólicas consomem por dia, na Europa, estão em segundo lugar, juntamente com as de Andorra, com uma média de 3,4 bebidas/dia, a seguir às da Ucrânia (4,2 bebidas/dia), segundo dados de 2016, da Organização Mundial de Saúde (OMS) e publicados num estudo da revista The Lancet. O mesmo segundo lugar de maiores consumidores europeus de álcool ocupam os homens residentes no Luxemburgo, a seguir à Roménia (8,2 bebidas/dia) e empatados com Portugal (7,3), neste estudo que refere que 83% da população do Luxemburgo consome bebidas alcoólicas.

O Governo do Luxemburgo advertiu que muitas das estatísticas europeias têm como base dados de venda de álcool no país, pelo que os números podem estar sobrestimados, dado que os transfronteiriços também compram bebidas alcoólicas no Grão-Ducado pois o preço é mais acessível.

Um imenso tabu

O alcoolismo no feminino é “tabu” e um “estigma para as mulheres” no Luxemburgo, garantem todos os especialistas contactados pelo Contacto. A relação dos homens com o álcool é aceite. Já as mulheres que bebem em excesso são estigmatizadas.

"As mulheres bebem sozinhas para esconder a sua dependência", realça, Claude Besenius, diretora do CTU e do ÄDDI-C.
"As mulheres bebem sozinhas para esconder a sua dependência", realça, Claude Besenius, diretora do CTU e do ÄDDI-C.

Por isso, como Anna, acabam frequentemente por beber sozinhas escondidas em casa, e sofrem em silêncio. “A bebida no homem é socialmente aceite, se bebe muito é um 'bon vivant', o estado de embriaguez é aceite no homem, mas não nas mulheres, nelas é altamente criticado”, declarou ao Contacto Anissa Ciyow, da CID Fraen na Gender, instituição feminista que realizou o debate “Feminismo e Alcoolismo”, em junho. Esta ativista e Claude Besenius alertam que o consumo de álcool está a aumentar entre as mulheres no Luxemburgo.

“A dependência do álcool entre as mulheres é um assunto tabu no Luxemburgo, algo de que não se fala e que as mulheres que sofrem deste problema o escondem. Em geral, as mulheres consomem sozinhas, escondem esse consumo”, vincou por seu turno, Michèle Pisani, psicóloga, especialista em terapias cognitivo-comportamentais das adições, com consultório no Luxemburgo. Segundo esta especialista, as mulheres “percebem mais rápido que criaram uma dependência, mas como são julgadas e criticadas pela sociedade vivem o problema em silêncio”.

“Há muita vergonha associada à dependência do álcool”, sublinhou. Embora seja difícil para ambos os sexos procurar ajuda, no caso feminino é necessária uma maior coragem. “Em geral há menos mulheres do que homens nos nossos centros, há um estigma em relação às mulheres com esta dependência que procuram ajuda e então elas escondem o problema, e procuram menos a terapia. Têm também vergonha de procurar apoio especializado”, acrescentou Claude Besenius.

“A sociedade não vê com bons olhos que uma mulher deixe o marido e os filhos para ficar internada a tratar a sua dependência. Este é mais um problema com que se debate”, vincou Anissa Ciyow.

Atualmente, no Centre ÄDDI-C que realiza tratamento ambulatório, encontram-se 54 pessoas a tratar a sua dependência etílica, das quais 20 mulheres. A idade média das mulheres é de 53 anos, explica a diretora deste centro e do CTU, um centro de internamento, com 33 internados em gestão da dependência de álcool, dos quais 8 mulheres, atualmente. Aqui a idade média das mulheres é menor, 41 anos.

Como Anna que recorreu à reabilitação apenas quando o excesso de consumo de álcool lhe começou a causar problemas no local de trabalho, outras mulheres só o fazem “por pressão dos maridos” ou por decisão própria, quando “percebem que a sua dependência já tem consequências no ambiente familiar, criando tensões conjugais ou com os filhos”, referiram Claude Besenius e a psicóloga Michéle Pisani.

Sempre que seja possível, as que têm família e um emprego “preferem o tratamento ambulatório, de sessões de terapia semanais, duas a três vezes por semana, porque assim podem continuar as suas rotinas no trabalho e em casa e ninguém perceber o seu problema, são pessoas integradas na sua vida pessoal e profissional”, explicou esta responsável. No internamento “já se nota a ausência”, porque dura, em média, três a quatro meses, e por isso, “geralmente são pessoas sem trabalho e às vezes sem casa, é muito difícil encontrar casa aqui, ou muito dependentes do álcool que necessitam mesmo de terapia de internamento”.


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Devido à gravidade da dependência, Anna numa primeira fase esteve internada no CTU e só depois começou o tratamento em ambulatório.

De acordo com os dados oficiais, em 2018, 303 residentes no Luxemburgo submeteram-se a tratamentos de dependência alcoólica comparticipados pela segurança social, entre os quais 103 mulheres, segundo dados do Ministério da Segurança Social, publicados no Plano de Ação Luxemburguês de Redução de Uso Indevido de Álcool 2020-2024 (PALMA). Das 103 mulheres, 54 estiveram em tratamento ambulatório (contra 99 homens) e 49 em internamento (contra 101 homens). O Contacto pediu dados sobre os últimos três anos ao Ministério da Segurança Social, mas ainda não estão disponíveis, segundo declararam.

Certo é que cerca de um terço dos internamentos nos serviços de reabilitação psiquiátrica no Centre Hospitalier Neuropsychiatrique são de perturbações mentais e comportamentais relacionadas com o consumo de álcool, referem os dados divulgado no PALMA.

"O alcoolismo nas mulheres é tabu na sociedade", alerta a psicóloga Michàle Pisani
"O alcoolismo nas mulheres é tabu na sociedade", alerta a psicóloga Michàle Pisani

Mais mulheres dependentes de álcool nos últimos anos? “Penso que sim, não sei se há mais mulheres em tratamento, mas há mais pessoas em geral com problemas de álcool e vejo por exemplo mais jovens a beber e bebem de modo diferentes com comportamentos diferentes”, vincou Claude Besenius.

Porque bebem as mulheres?

As razões são várias e o alcoolismo é transversal a todas as classes sociais tal como nos homens. “De forma geral, as pessoas bebem para gerir emoções difíceis, quando estão mal. O consumo de álcool quer nos homens quer nas mulheres toca a sociedade inteira dos ricos aos pobres. Quer a mulher trabalhe, quer esteja em casa”, frisou Michèle Pisani.

Ao CTU e ao ÄDDI-C recorrem mulheres com as mais variadas profissões, por exemplo, “a caixa de supermercado, às mulheres que trabalham nos ministérios, a jornalistas, a mulheres que não trabalham e estão em casa”, enumera, por seu turno, Claude Besenius.

O stress e as depressões são grandes fatores, explicou esta responsável. “As mulheres que trabalham tem um duplo trabalho, a sociedade está a mudar, mas as mulheres têm dois trabalhos, a carreia e o trabalho em casa, mais responsabilidades, e depois no final do dia, quando os filhos já dormem, sentam-se a beber um copo”, para relaxar. Só que ganham habituação e o copo por noite, já não chega, vão bebendo mais, até chegar a uma garrafa ou mais. “Para relaxar e dormirem bem”. “As que não trabalham e estão isoladas em casa, entram em depressão e bebem”, acrescentou a diretora dos centros de tratamento de adições.

No caso de Anna, “tem baixa autoestima e sofre frequentemente de ansiedade. Ela não suporta a solidão e tem dificuldades em cuidar de si própria”, referiu Besenius.

Bela, feliz e com um copo na mão

A pressão social para as mulheres beberem é uma das principais causas. É a mesma sociedade que as estigmatiza e que não aceita a dependência feminina da bebida que faz inicialmente pressão para que a mulher consuma bebidas alcoólicas.

“Desde há anos que as mulheres são levadas a consumir álcool. O marketing das empresas de bebidas alcoólicas, os filmes e séries, por exemplo, o ‘Sexo e a Cidade’ passam a imagem de mulheres juntas felizes, a conviver e a beberem cocktails como Manhattan ou Cosmopolitan. Tudo isto fez com que as mulheres tenham começado a beber”, explicou Anissa Ciyow.

“O marketing criou a imagem de que a mulher tinha de beber socialmente para ser igual ao homem, e que a felicidade vem com copo de álcool na mão”, criticou esta ativista da CID Fraen en Gender.

Da sua experiência como empregada de um café restaurante onde trabalhou em part-time, perto da capital do Luxemburgo, uma jovem adulta que não se quis identificar realçou “as mulheres bebiam quase tanto quanto os homens, não havia grande diferença”. Sexta-feira à noite o local enchia, tal como sábado e domingo, e o álcool era protagonista das noites. “A quase totalidade dos clientes trabalhava e percebia-se que chegavam ali, sexta à noite e bebiam para descomprimir. Bebiam muito, eles e elas”, lembrou esta ex-empregada daquele estabelecimento. Quando os grupos eram apenas de mulheres, “elas ficavam mais desinibidas e bebiam mais, se eram grupos mistos, ou com pessoas que conheciam mal já tinham cuidado, bebiam menos e intercalavam com bebidas não alcoólicas”.

Após o fim de semana de excesso, as mulheres sentiam vergonha do sucedido. “Se por acaso durante a semana, me cruzava com algumas clientes, em locais públicos ou no seu local de trabalho nos meus afazeres, era visível o incómodo delas porque me conheciam do café restaurante. Já os homens riam-se e descontraídos falavam logo da última noite em que beberam em excesso, sem qualquer problema”.


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Beber cedo e em família

Muitas vezes, o consumo de álcool está ligado às reuniões familiares desde a infância, em todas as classes sociais.

“Anna teve uma boa infância, mas o álcool foi sempre uma grande parte importante do ambiente familiar. Os seus pais, tias e tios bebiam muito em festas e em dias de família. Anna começou a beber álcool com a sua família quando tinha 14 anos, e depois bebeu quando saiu com os seus amigos”, e foi continuando sempre a beber, salientou Claude Besenius.

Também Emma, uma estudante de mestrado sente que está a perder uma amiga de longa data para o álcool. E tal como Anna, essa amiga de 22 anos, começou cedo a beber em família. “Desde sempre os pais beberam muito nos eventos familiares e nos últimos tempos ela bebe com eles. Na última vez que estive com ela, há cerca de dois meses, vinha de um jantar em família e já tinha bebido uma garrafa inteira de vinho do Porto. Tirei-lhe a chaves do carro e chamei uma das irmãs dela que não bebe para a levar para casa. Mais uma vez aconselhei-a a procurar apoio especializado, zangou-se comigo e nunca mais me procurou. Nem a mim, nem ao nosso grupo de amigos de há 15 anos que estamos sempre a dizer-lhe que ela tem um problema com o álcool e tem de procurar apoio”. Emma tenta perceber a razão pela qual a amiga de mais de 10 anos caiu neste vício. “Talvez porque os pais que tem carreiras de sucesso, estiveram muito ausentes e ela vê nestas reuniões uma forma de estar com eles e como eles bebem muito ela também bebe, não sei”.

Prevenção e sensibilização

Com o consumo feminino e a dependência a aumentar, e as mulheres dependentes do álcool a continuarem em casa por vergonha, sem se tratar, as especialistas são unânimes no alerta e nas propostas apresentadas: a sociedade tem de encarar o problema e as autoridades lançarem ações para prevenir este consumo de álcool.

“O problema do álcool nas mulheres é preocupante. Temos de falar do problema e em todo o lado”, frisou Michèle Pisani. A mesma opinião foi dada por Claude Besenius e Anissa Ciyow.“Têm de ser lançadas campanhas para combater este estereótipo e sensibilizar para o problema do alcoolismo nas mulheres, para que quem sofra com esta dependência se possa tratar”, vincou por seu turno, Anissa Ciyow.

“Este é um problema que por ser tabu não é falado e tem de ser falado. Têm de ser lançadas campanhas de prevenção e sensibilização. Campanhas de prevenção nas escolas para que as jovens percebam que a igualdade não passa pela bebida alcoólica e que o álcool tem riscos. A dependência do álcool é um problema grave”, sublinhou a ativista da CID fraen en Gender.

As campanhas nas escolas, nos locais de trabalho pelo Luxemburgo e no setor da restauração são as propostas das três especialistas. Para falar sobre o problema, para que as mulheres que sofrem com esta dependência percebam que “não são as únicas” e para saberem a “quem podem recorrer”.

Para Claude Besenius, também aos médicos generalistas, que são o primeiro contacto na saúde, deveria ser dada mais formação no sentido de detetarem um problema de álcool. Esta medida está inscrita no Plano de Ação Luxemburguês de Redução de Uso Indevido de Álcool 2020-2024, mas deveria ser reforçada.

Os médicos generalistas “deveriam estar mais informados e colocar as questões certas detetar as situações de risco e poder intervir”, mesmo quando as mulheres lhes escondem o problema e não procuram ajuda, referiu Claude Besenius. E acrescentou que estes generalistas “têm de ter condições para fazer uma despistagem do problema, para que as mulheres possam ter acesso aos tratamentos”.

Também os funcionários escolares devem estar preparados para detetar sinais de consumo de álcool para poder ajudar estas mães, disse a diretora do CTU e do ÄDDI-C. “Muitas vezes, estas mulheres estão em casa, não trabalham e vão buscar os filhos à escola e os funcionários podem dar o primeiro passo para ajudar no tratamento, sem culpabilizar, primeiro tentar sempre apoiar”.

Para Anissa Ciyow o “Governo deveria tentar contrariar o lobbie das empresas de bebidas quanto às campanhas de marketing direcionadas para as mulheres, mas sei que isso é muito difícil”.

“Anna realizou uma boa terapia, sentiu-se muito melhor depois, menos ansiosa, foi capaz de aumentar a sua autoestima e confiança. Ela permaneceu limpa durante toda a terapia e teve um acompanhamento ambulatorial no Centro ÄDDI-C após a sua terapia de internamento na CTU para continuar o trabalho sobre si mesma e para a ajudar a permanecer limpa no futuro”, declarou Claude Besenius. O que estas especialistas desejam é que mais mulheres possam ser tratadas e recuperar as suas vidas.

9% das mortes por álcool

No Luxemburgo, o álcool é a segunda causa dos acidentes rodoviários, dos quais 30% são mortais. O consumo abusivo de álcool provoca vários problemas de saúde, e graves, como doenças cardiovasculares, cancros, cirroses ou problemas do foro mental, que podem ser evitados. Segundo o PALMA, 9% das mortes no Luxemburgo podem ser atribuídas ao consumo do álcool. O relatório sobre o Estado da Saúde na UE, de 2019, aponta que no Luxemburgo as mortes que podem ser evitadas devido às doenças ligadas ao álcool constituem e continuam a ser um problema de saúde pública.

O Governo tem lançado várias campanhas de sensibilização sobre os riscos do consumo de álcool a vários níveis, nomeadamente na estrada e dirigidas às mulheres durante a gravidez e o aleitamento.


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