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Aldeias e cidades de uma terra selvagem: entre brutalidade e pedofilia
Opinião Sociedade 7 min. 13.08.2022
Portugal

Aldeias e cidades de uma terra selvagem: entre brutalidade e pedofilia

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Aldeias e cidades de uma terra selvagem: entre brutalidade e pedofilia

Foto: Lusa
Opinião Sociedade 7 min. 13.08.2022
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Aldeias e cidades de uma terra selvagem: entre brutalidade e pedofilia

Diogo RAMADA CURTO
Diogo RAMADA CURTO
A literatura, que esta 'silly season' promove, sob a forma de listas de livros a ler, ajuda a conhecer o mundo. Pelo menos, evita que se projectem no passado as ilusões simplistas de uma qualquer idade de ouro.

Por que se fazem listas de livros, nesta 'silly season', que não chegam a ser lidos? Talvez seja por continuar a acreditar na literatura como um dos melhores modos de conhecimento do mundo, capaz de valorizar momentos de ócio. Por isso, vale a pena perceber como funcionam algumas descrições, bem como comparar o significado de algumas situações construídas literariamente. Só assim conseguiremos pôr em perspectiva o mundo em que vivemos, confrontando-o com outros quadros. Sobretudo, evitando projectar no passado as ilusões simplistas de uma qualquer idade de ouro.    

Por exemplo, Eça de Queirós e outros escritores que se lhe seguiram denunciaram a miséria, a fome, o analfabetismo e até a cultura da brutalidade que caracterizavam a vida dos pobres e aldeãos. Tais denúncias impedem que se generalize a ideia de que existiu, na literatura portuguesa de finais do século XIX, um elogio sistemático da tradição, construída a partir da aldeia.

Nessa mesma linha, contrária às imagens acerca da aldeia idílica, Camilo Pessanha escreveu, numa carta ao seu amigo Alberto Osório de Castro, enviada de Lamego em 1890, que ali se juntavam as comoções da política com "uma terra selvagem". O país rural, de Trás-os-Montes à Beira Alta, era assim descrito, na mesma carta: "Como tudo isto é bíblico! Os apertões brutos, a prostituição das aldeias tão primitivamente animal, faminta no inverno e farta no verão, que nesta quadra do ano acode, muito espalhada de vestuários, das bandas de Murça e Carrazeda, aos arraiais e às feiras de Viseu". E, entre injustiças e indignações, lá constavam: "as apelações e os agravos, e as denúncias e as sindicâncias, e todos os roubos e todas as violações, e as testemunhas que juram falso, e os assassinos e os engajadores, e todo aquele horizonte, desolado de estevais e montes maninhos, onde raro é o dia que não é morto algum homem, à foiçada, debaixo do sol rutilo".

Paralelamente, Raul Brandão adoptou o registo etnográfico dos subalternos, sublinhando o drama de existência dos miseráveis. Por exemplo, em História dum Palhaço (A Vida e o Diário de K. Maurício) (1896), Brandão pôs na boca de um dos personagens: "Sabe que em Setúbal, nos arrozais, para ganhar apenas o pão negro, mulheres trabalham na água como bestas, até se cortarem pelas virilhas. Sabe que há pequenas de oito anos, que se chegam à sua beira com um ar de vício e têm esta frase trágica: — Eu faço tudo!...".

Assim, por volta de 1890, brutalidade e pedofilia faziam parte do mesmo quadro da literatura e da vida cultural portuguesa, onde também se cruzavam referências explícitas à vida sexual. Por exemplo, em 1891, Abel Botelho iniciou a sua série de romances intitulada "Patologia Social", com a publicação de O Barão de Lavos. O escândalo era previsível, uma vez que o barão era homossexual e o seu amante, bissexual, também o era da sua mulher.

Em 1896, no Brasil onde se sabe que o romance de Abel Botelho foi bem acolhido, A Mulata de Carlos Malheiro Dias desencadeou uma reacção que levou o seu autor a ter de vir para Portugal. Uma reacção que perdurou no tempo, fundada, sobretudo, no facto de o livro se ter constituído num ataque feroz à nação e povo brasileiros, com uns tantos escritores e jornalistas cariocas a enfiarem a carapuça. Não esquecendo que a pederastia e outras "aberrações do sexo", incluindo nelas o lesbianismo, surgiam, ali, bem representadas.

Se, na Viena de fin de siècle emergiram diferentes tipos de discursos sobre a vida sexual, com Sigmund Freud à cabeça, entre nós, também se multiplicaram as abordagens, tendo vários romancistas denunciado a exploração sexual, sobretudo das raparigas mais desfavorecidas. A imprensa periódica secundou as mesmas denúncias.

Também foram muitos os casos em que se tirou partido do picante de muitas histórias, envolvendo raparigas do submundo do teatro ou dos dancings. Tratou-se de um arco cronológico que começou no livro de Alfredo Gallis, Cocottes e Conselheiros (1891) e se prolongou até à novela A Boca da Esfinge de Eduardo Frias e Ferreira de Castro (1924), A Folha de Parra (1930) de Tomás Ribeiro Colaço ou ao Nome de Guerra (escrito diz-se em 1925, mas que só foi publicado em 1938) de Almada Negreiros.

A esse respeito, Silva Cordeiro, no seu ensaio sobre A Crise (1896), foi mais cáustico a propósito do feminismo. Se este servisse para denunciar a situação de autêntica escravização em que se encontravam muitas mulheres, seria aceitável. O problema – no entender desse moralista das Sodomas em que as cidades europeias, incluindo Lisboa, se tinham tornado – era que o feminismo era protagonizado pelas leitoras burguesas e sem vergonha, umas degeneradas, formadas na leitura de romances eróticos.      

Por sua vez, Fialho de Almeida deixou páginas tão inolvidáveis quanto perversas sobre a vida sexual e as suas representações na literatura. Nessas mesmas páginas, a hipocrisia falsamente pudica foi uma constante. Sobretudo, quando combinou retratos do que era tido por patológico com uma curiosidade de voyeur.

Nessa sua atitude, Fialho parecia espreitar, tal como fazia Carolina, personagem do conto de sua autoria intitulado A Ruiva: "Da janela da sua mansarda, empinada sobre um banco de pinho, podia ver o que se passava na alcova dum pobre bordel fronteiro. Apagava a luz, para não ser vista; subia ao banco, encostada à janela; e ali, durante horas, passava a espreitar o que via a vizinhança". 

Fialho não foi o único que recorreu com hipocrisia a uma tal duplicidade, pois mostrava o que via, a pretexto de condenar o que dava em espectáculo. Nem terá sido o primeiro a fazê-lo, por razões fáceis de compreender na generalidade, mas que são ainda difíceis de explicar, uma vez que se encontram  associadas ao seu confesso azedume por outros escritores.

Insista-se: o certo é que foi ele um dos que mais repetidamente condenou a representação de comportamentos sexuais, sem com isso ter deixado de escrever acerca do que repudiava, incluindo da pedofilia. Aqui, era a mulher da rua do Arsenal que recolhia na província “pequenas de 14 anos” para a prostituição, ali era a avó que cedia a neta à mulher de um cocheiro, que a vendia todas as noites pelas casas de passe, para satisfação dos "apetites sádicos de meia dúzia de velhotes devassos" (Pasquinadas – Jornal d’um vagabundo, 1890).

Como explicar uma atracção tão obsessiva "pela mordedura na polpa virgínia e branca dos frutos insazonados" ou pelo assalto "dessas pequeninas insexuais, cuja divina infância devera adorar-se"? Cinquenta anos antes – no seu entender – tais comportamentos não existiam e a sua emergência estava relacionada com a falta de higiene e de cultura moral das cidades, de que resultava uma decadência na via das cidades, incluindo nesta uma "extraordinária precocidade da mulher".

Foi o que sucedeu quando o próprio Fialho se sentiu alvo de uma provocação, em Lisboa, num banco da Avenida, por parte de uma criança de quatro anos: "toda ela requebros e meneios de bailarina, denguices, apenas se sentou, começou logo a deitar-me olhadelas de lado". Talvez seja neste caso, bem concreto, que Fialho melhor denunciou a cabeça fantasiosa ou, como ele próprio dizia, de devasso que, a pretexto da moralização das criancinhas, lá ia fazendo as suas elucubrações perversas...

É que, no fundo, quem seria mais perverso e tortuoso parecia ser quem conseguia pensar assim, acerca de uma criança de quatro anos... No mesmo sentido, Fialho acabou por se  referir, também, à precocidade, considerada debochada, das "filhas de banqueiros ou filhas de operários" que, entre os doze e os catorze anos, já sabiam "fazer a corte aos homens, a ocultas das aias e das mamãs". 

(Autor escreve de acordo com a antiga ortografia.)

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